«Comemoramos mais um aniversário de Abril sob intenso e cerrado fogo contra Abril»
E CONTUDO ELA MOVE-SE
Ocorreu isto menos de três semanas após o Dia da Liberdade, já lá vão trinta e dois anos: um decreto estabeleceu, pela primeira vez no nosso País, um salário mínimo nacional, o que, na altura, significou a duplicação dos salários para muitos milhares de trabalhadores; o mesmo decreto – estamos, obviamente, a falar de um decreto de Abril - decidiu, ainda, e também pela primeira vez em Portugal, o aumento geral dos salários e a redução dos leques salariais, o congelamento dos preços dos bens essenciais e das rendas dos prédios urbanos, o aumento do abono de família, o aumento das pensões de reforma e invalidez; a seguir, outro decreto – decreto de Abril, já se vê – prosseguindo no caminho das primeiras vezes iniciado pelos anteriores, decidiu o direito a férias para todos os trabalhadores (mínimo de 15 dias, máximo de 30) com um subsídio equivalente ao salário; e esse mesmo decreto proíbiu os despedimentos sem justa causa, criou o subsídio de desemprego – e por aí fora.
Era o tempo novo da revolução de Abril, tempo de respeito pelos direitos e interesses da imensa maioria dos portugueses, de início de construção colectiva de uma democracia avançada e em que Portugal ocupava a primeira fila do progresso e da modernidade em toda a Europa – tempo distante, muito distante, do tempo de hoje em que, por efeito de décadas de política de direita, Portugal ocupa a última fila em tudo o que é positivo e a primeira em tudo o que é negativo.
E comemoramos mais um aniversário de Abril sob intenso e cerrado fogo contra Abril. Assim é há trinta anos, durante os quais o PS e o PSD têm alternado as suas responsabilidades directas nos ataques brutais às conquistas políticas, económicas, sociais, culturais, nascidas da revolução de Abril; trinta anos durante os quais esses dois partidos, ora no governo ora fingindo ser oposição ao governo, têm destruído muito do que de mais avançado e moderno Abril nos trouxe e têm aberto as portas à reconstituição do velho poder do grande capital sustentado na opressão e na exploração.

O Governo PS/Sócrates ameaça bater recordes vários em relação a todos os que o antecederam desde 1976. Igual a todos os outros enquanto fiel executante da política de ajuste de contas com Abril e os seus ideais libertadores e transformadores, este Governo é, talvez, o que mais longe vai em matéria de submissão aos interesses do grande capital.
Deitando, democraticamente, para o caixote do lixo as promessas que lhe permitiram arrebanhar os votos de que necessitava para ganhar as eleições, lançou-se na aplicação da velha política de direita dando-lhe, até, uma nova dinâmica, acentuando-a e aprofundando-a e, por isso mesmo, agravando ainda mais a situação de quem trabalha e vive do seu trabalho e melhorando ainda mais a situação de quem vive à custa de quem trabalha. Sendo contra Abril, a política de direita praticada por este Governo, é uma política de ataque aos direitos dos trabalhadores; de ofensiva contra os serviços públicos, o sistema público de Segurança Social; contra a contratação colectiva, o direito ao emprego, o subsídio de desemprego; com processos de privatização e liberalização que delapidam o País e dão mais poder ao poder do grande capital nacional e estrangeiro; de obediência total, servil, provinciana e anti-patriótica, às ordens da União Europeia - no jeito da galinha estúpida que segue à risca o risco que lhe traçam à frente dos olhos; de constante e sistemática ofensiva contra o regime, roubando-lhe conteúdo democrático, roubando democracia à democracia – e por aí fora.

A mentira e a hipocrisia, sustentadas por uma poderosa operação de propaganda, constituem, igualmente, componentes essenciais dessa política.
Pelos discursos do Primeiro-Ministro ficamos a saber que vivemos no melhor dos mundos; pelas vozes dos representantes do grande capital e dos seus propagandistas, chegam-nos os elogios à «coragem» do Primeiro-Ministro; pela realidade vivida sabemos que, ao contrário do que todos eles dizem, a situação é cada vez pior para os trabalhadores, para o povo e para o País.
No discurso estrelejante do Primeiro-Ministro, autêntico foguetório de anúncios de medidas redentoras, «modernidade» é a palavra-chave – mesmo quando, como na maior parte das vezes acontece, ele se refere a medidas com barbas centenares, milenárias, até. Mostra a realidade que, dessas medidas, as boas não são cumpridas e as más têm cumprimento imediato e imperativo. E há, ainda, aquelas que… tanto faz. Por exemplo: é bem possível que o moderníssimo «passaporte electrónico» anteontem anunciado chegue na data marcada e resolva um magno problema que tem vindo a tirar o sono à imensa maioria dos portugueses... O que não chegará, nem consta das previsões do Primeiro-Ministro, é o emprego certo e o salário digno, sem os quais o dito passaporte de nada vale para a tal imensa maioria de portugueses.
E contudo, apesar dessa política e da gigantesca e perigosíssima operação de lavagem de cérebros - que, em muitos casos, logra o objectivo de transformar a opinião mil vezes publicada em opinião pública – não conseguem apagar Abril da memória e do coração de centenas e centenas de milhar de portugueses. E contudo, apesar das chantagens exercidas sobre os trabalhadores, a luta continua – e, tendo Abril como referência, continua a ser o caminho da resposta aos desmandos da política de direita.
E contudo, apesar da condenação à morte de Abril, Abril continua vivo como projecto de futuro.
E contudo, diria Galileu, ela move-se...


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