• Gustavo Carneiro e Jorge Cabral

Forte de Peniche
Símbolo de repressão e resistência
O PCP homenageou, domingo, na Fortaleza de Peniche, os presos políticos e os resistentes antifascistas. Na iniciativa, que contou com a presença do secretário-geral Jerónimo de Sousa (ver texto relacionado, nesta edição), estiveram presentes alguns milhares de pessoas vindas de todo o País. Para muitos, que ali estiveram presos por sonhar e lutar por um Portugal livre da opressão e da exploração fascistas, foi um regresso comovido e comovente.
À primeira vista, observando o pátio da fortaleza de Peniche, dificilmente se poderia adivinhar o que fora durante as longas e negras décadas do fascismo, o seu dia a dia. As ameias altas entrecortavam o imenso mar e gaivotas sobrevoavam o local. Na relva, à sombra das árvores, alguns resguardavam-se do forte sol que se fazia sentir e esperavam a sua vez para iniciar a visita guiada aos locais onde a repressão e a resistência andaram sempre lado a lado.
Mas as marcas do passado estavam lá, à disposição dos mais atentos ou informados: o «segredo», o recreio dos presos, as janelas gradeadas… E, nas conversas de muitos, os episódios ali passados, parte integrante da história da resistência em Portugal.
Junto à entrada, centenas de pessoas vindas de todo o País organizavam-se em grupos e esperavam o seu guia para iniciar a visita. «Nunca tinha estado aqui», comentava espantado um homem ao entrar no pátio da Fortaleza de Peniche. Para muitos, esta visita era um regresso ao local onde já tinham estado antes. Uns enquanto presos. Outros como familiares dos prisioneiros.
Entre os ex-presos encontrava-se o homem que mostrara espanto ao entrar no pátio. Embora tenha passado vários anos no forte – contava ele a quem o acompanhava – o pátio não foi sítio que alguma vez tenha pisado. Os prisioneiros eram mantidos no outro lado das altas paredes. Mesmo os recreios dos presos não passavam de pequenos pátios internos, sem vista para lado nenhum. O mar, ali tão perto, foi apenas uma visão distante recortada pelas grades e um som constante, mas longínquo.

A fortaleza de resistência

As visitas começaram pelo antigo parlatório, local de «encontro» entre os presos e as suas famílias. O vidro separava preso e familiar e as vozes entravam por uma rede lateral. Comentava alguém que o eco era tal que por vezes era praticamente impossível ouvir o que quer que fosse. Em cada um dos lados, um guarda vigiava a conversa e interrompia quando lhe parecesse que esta se desviava do âmbito meramente familiar.
Mesmo assim, contaram os antigos prisioneiros que guiaram as visitas, o parlatório era um dos locais privilegiados para o contacto entre os presos e a organização do Partido. O engenho dos prisioneiros e a coragem das famílias asseguravam que tudo corria bem.
Saídos do parlatório, os grupos de visitantes prosseguiam em direcção ao pavilhão C – um dos três existentes no forte e o de mais alta segurança. A rampa que os visitantes subiram foi a mesma que, em 3 de Janeiro de 1960, dez destacados militantes do PCP desceram, abrigados sob a capa de um soldado da GNR, para protagonizarem uma das mais espectaculares e importantes fugas das cadeias fascistas. A meio do pavilhão, encontrava-se a enfermaria, que servia, com engenho e astúcia, para a troca de mensagens entre os presos.

O pavilhão C

No último piso do pavilhão C encontravam-se as celas. De um lado, atrás de um gradão, as de máxima segurança (nesta prisão que era, ela própria, de máxima segurança). Em duas dessas celas esteve Álvaro Cunhal. Hoje estão expostos alguns dos seus célebres Desenhos da Prisão.
Ao fundo do corredor, do lado oposto, o refeitório. Alguém disse que era um local privilegiado de convívio, mesmo quando este «convívio» não passava de uma troca cúmplice de olhares. Foi neste mesmo refeitório que nasceu a fuga de 3 de Janeiro, quando o guarda de serviço foi «abafado» com clorofórmio. Actualmente, bem a propósito, está patente no antigo refeitório uma exposição sobre as fugas de presos políticos do forte.
O corredor, tão estreito que os visitantes se amontoavam para ouvir e espreitar, tem celas só de um lado. As celas, onde os presos passavam cerca de vinte horas do dia, não tinham mais de dois metros de largura por cinco de comprimento. Um pequeno divã e uma mesinha eram toda a mobília disponível. Mesmo assim, contaram os guias, eram muitos os segredos que aí permaneciam guardados. Tão bem guardados que muitas vezes resistiam às frequentes rusgas da GNR, aproveitando a hora do recreio. Lá fora, do outro lado das grossas paredes, o sol brilhava e o calor apertava. Mas no interior do pavilhão C sentia-se a humidade. Ou seria o peso da história?

Mergulhar para a liberdade

Depois de uma passagem pelo recreio dos presos (pequenos pátios interiores), os grupos dirigiam-se para o último local da visita guiada: o tristemente célebre «segredo». Separado do pátio principal por um muro e um portão alto e gradeado, o «segredo» era uma cela pequena e escura para onde eram mandados os presos «de castigo». Lá dentro mal cabe um homem de pé e a luz escasseia. Nem o chão ladrilhado, inovação recente, segundo quem lá esteve, retira ao local o seu aspecto sinistro.
Mas o segredo não é apenas um ponto de más recordações, mas também de impressionantes vitórias. Daqui fugiu António Dias Lourenço em Dezembro de 1954. Serrou as grades da porta, contornou o muro e mergulhou de uma altura impressionante para o mar revolto de Peniche e para a liberdade.

«Ao menos ouves o vento,
ao menos ouves o mar»


À tarde, o pátio da fortaleza encheu-se de gente. Toda aquela gente que durante a manhã percorreu as entranhas da fortaleza, encontrava-se agora ali reunida para a homenagem aos que resistiram e que por isso sofreram a prisão, a tortura, a separação dos familiares, o corte com a vida e as privações da luta clandestina.
O palco, com um pano de fundo vermelho onde se lia «Resistir e lutar sempre!», estava encostado ao pavilhão A, agora quase em ruínas, e pouco mais à frente do «segredo». O mar compunha o resto do cenário. O momento cultural começou com o actor Morais e Castro. Após saudar os «veteranos da luta clandestina», que confessou terem sido fundamentais para a sua formação como homem, Morais e Castro declamou poemas de combate. Um deles, escrito por Carlos Aboim Inglez, não podia ter sido declamado em melhor local, certamente muito perto daquele onde foi escrito: «Um homem só no segredo sabe um segredo profundo, nunca está só nem tem medo quem ama os homens e o mundo.» José Carlos Ary dos Santos, José Gomes Ferreira e Armindo Rodrigues foram outros dos poetas citados.
Rogério Cação e António José Correia, presidentes da Assembleia e da Câmara Municipal, eleitos nas listas da CDU, saudaram o 25 de Abril e consideraram fundamental manter vivo o espírito da Revolução. O presidente da autarquia sublinhou os passos que estão a ser dados no sentido de valorizar a fortaleza e a sua história, coisa que acusou as anteriores maiorias de não terem feito. Em seguida anunciou o projecto de recolha de testemunhos de presos políticos para constituir o futuro museu da resistência naquele local.
Antes da intervenção de Jerónimo de Sousa (ver página 15), a cantora Luísa Basto emocionou os presentes com a sua voz única e com as suas canções de luta e de combate. Uma delas talvez nunca tenha sido cantada em local mais apropriado. De título «Fado de Peniche», falava assim aos presos, em tons de esperança: «Ao menos ouves o vento, ao menos ouves o mar».
A iniciativa terminou com aquele abraço, costumeiro mas sempre renovado, ao som do Avante, camarada, A internaciona>l e A portuguesa.

«Fortaleza de luta»

As visitas no passado domingo em Peniche não eram todas iguais. Cada guia, que levava um grupo de algumas dezenas de pessoas, tinha as suas histórias para contar. Episódios concretos que fizeram, juntamente com muitos outros, a história da fortaleza de Peniche durante o período fascista. Os guias «oficiais» eram Manuel Candeias, Adelino Pereira da Silva, Manuel Pedro e Domingos Abrantes. Mas aqui e ali muitos outros ex-prisioneiros políticos contavam as suas histórias passadas nos vários locais da prisão.
Episódios pessoais à parte (que ilustravam o que se ia contando), todos relatavam as duras condições do regime prisional em Peniche: a arbitrariedade dos guardas, a vigilância permanente, o regime alimentar deficiente, as limitações ao contacto com as famílias e o isolamento. Com o passar do tempo, a vigilância estendeu-se também aos familiares dos presos. Mas o objectivo, nunca alcançado, era atingir a moral dos prisioneiros. A criação do posto da PIDE na vila de Peniche acentuou a vigilância sobre as famílias. Os seus passos eram vigiados: com quem conviviam, as casas onde ficavam, os carros em que se deslocavam.
Tal como em outras prisões do fascismo, a cadeia de Peniche foi também um local de resistência. Apesar da vigilância, da repressão, da pressão psicológica, e dos embates diários, o forte de Peniche foi palco de importantes lutas, em muitos casos em ligação com as famílias, através de engenhosos métodos de contacto. Não raras vezes, as lutas contra as arbitrariedades dos carcereiros, por melhores condições de alimentação e assistência médica e pelo desenvolvimento cultural dos presos resultavam em vitórias. Com o pensamento sempre nas possibilidades de fuga, os presos encontravam formas de contactar, entre si e com o exterior, e planear e executar fugas.
Durante todo o tempo existiu no interior da cadeia de Peniche – como noutras – uma organização do Partido. Dela os carcereiros apenas souberam que existia, tendo poucas vezes conseguido desferir-lhe golpes sérios. Esta organização foi fundamental para assegurar uma regular comunicação e informação entre os diferentes pavilhões e no exterior, com a direcção do Partido. Assim como foi determinante para a coesão e a unidade do colectivo prisional face aos carcereiros e para a sua combatividade.


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