• Luís Amaro

Festa Alentejana
Fraternidade <br>e camaradagem
Pelo terceiro ano consecutivo a Direcção da Organização Regional de Beja do Partido organizou a «Festa Alentejana – Uma Festa a Valer», que decorreu no passado fim-de-semana no Parque de Feiras e Exposições de Beja.
Na sexta-feira a azáfama era grande – lembrando as quintas-feiras antes da abertura da Festa do Avante!, quando parece estar tudo atrasado, mas depois, à hora marcada, resultado de um último esforço militante, o plano é cumprido e a festa abre com a qualidade do costume.
Também no passado fim-de-semana, em Beja, bonita cidade do Baixo Alentejo, aconteceu o mesmo. Na sexta-feira, horas já muito tardias, os construtores da festa davam os últimos «toques», os quais ficaram concluídos já despontava a madrugada de sábado.
Nestas últimas horas, antes da abertura, se vários aspectos poderiam ter saltado à vista, um dos que mais se destacou foi a extraordinária participação da juventude, quer como executores quer como dirigentes desta Festa Alentejana, sem desprimor para os camaradas menos jovens, ou doutra forma: dos camaradas jovens que já cá andam há muito tempo.
Para além dos pavilhões das várias organizações do distrito de Beja, também estavam presentes, entre outras, organizações de Viana do Castelo, Portalegre, Lisboa, Aveiro, Santarém, Algarve, Litoral Alentejano e a Juventude Comunista Portuguesa (JCP).
Com maior ou menor dinamismo, todos os pavilhões faziam o possível num sadio espírito competitivo. Assim, Viana do Castelo avançava com o tradicional arroz de lampreia, quando um outro apresentava enchidos, por exemplo, e o Algarve uma colecção de vários licores. Outros stands, mais modestos na sua dimensão mas igualmente empenhados, caracterizavam-se pelo cuidado da sua apresentação, caso do que ficou à responsabilidade dos camaradas de Vila Verde do Ficalho.
E se qualquer festa é alegria e saudável espírito de camaradagem e fraternidade, a Festa Alentejana – como todas as nossas festas, dos comunistas – foi um grande momento de intervenção política.
Num outro pavilhão foi organizada uma exposição sobre a actividade do Partido com grande destaque para um painel sobre Álvaro Cunhal e outro sobre o companheiro Vasco.
Junto do primeiro, vi um camarada (daqueles jovens que já andam cá há muito tempo, como referi mais acima) lendo num sussurro, melhor dizendo, quase soletrando algumas passagens biográficas de Álvaro Cunhal, enquanto lágrimas lhe corriam pelas faces enrugadas. O autor destas linhas, que é pouco dado a manifestações deste cariz, não ficava bem com a sua consciência jornalística se não mencionasse este facto aos nossos leitores.
Vários debates tiveram lugar dos quais vale a pena sublinhar, pela sua actualidade, o do camarada Miguel Urbano Rodrigues a respeito da recente visita que efectuou ao Irão.
No plano criativo o Grupo Carpe Diem apresentou uma performance poética caracterizada pelo seu vanguardismo formal.

Não esquecemos Catarina!

Já no Domingo, realizou-se a tradicional romagem à sepultura de Catarina Eufémia, em Baleizão. Jerónimo de Sousa foi recebido pelas cerca de 1500 pessoas presentes com grandes manifestações de carinho e incentivo, como já vem sendo habitual e se expressou noutras ocasiões.
Depois, debaixo de um tórrido calor - apesar de serem só onze horas -, todos os presentes atravessaram a localidade até ao Largo da Aldeia, o qual, no seu centro, ostenta orgulhosamente o busto de Catarina. Aí decorreu o comício.
No palco, com a presença de vários dirigentes do Partido e autarcas da região, Jerónimo de Sousa lembrou que «a verdade é que mais uma vez, e mais do que nunca, se justifica a lembrança de Catarina Eufémia e dos objectivos que levaram à sua luta, à resistência, numa demonstração de que não há direitos eternos, e que a luta tem sempre que continuar». «A luta continua, a luta continua»gritou a multidão que participou na homenagem.
«Hoje, passadas tantas décadas sobre o assassinato de Catarina e 32 anos da Revolução de Abril, assistimos novamente a um país com mais injustiças, um país assimétrico, onde o Alentejo, mais uma vez, é vitimado pelas políticas de direita. Hoje, olhamos para a realidade do nosso país e vemos mais de meio milhão de desempregados, dois milhões de pobres, alguns na extrema miséria, e olhamos para a juventude, profundamente inquieta e insegura em relação ao seu futuro», continuou o secretário-geral do PCP aludindo às consequências da política de direita praticada pelos sucessivos governos.
A terminar, depois de relembrar o exemplo de Catarina, Jerónimo de Sousa, reafirmou: «Valeu a pena e vale a pena continuar a lutar!»
E partimos para Beja. A Festa Alentejana esperava por nós e só com luta e dedicação o Alentejo será realmente de quem trabalha.

Gerações de luta que se cruzam

Depois do desfile de 12 grupos corais alentejanos e do concerto de um grupo musical cubano, o qual despoletou várias palavras de ordem alusivas à Revolução Cubana e à sua defesa, a remodelação do palco indicava o começo do comício.
A introdução do comício esteve a cargo do camarada Baguinho, da DORBE, que foi seguido pelo camarada Ruben da JCP e responsável pelo Ensino Superior em Beja.
Depois de lembrar a luta heróica do povo alentejano contra o fascismo e as conquistas alcançadas com a Revolução de Abril, Ruben afirmou: «A luta desta geração cruza-se, nesta festa, com a luta dos trabalhadores e estudantes de hoje. A luta contra a precariedade e o desemprego, pelo trabalho com direitos e por melhores salários; contra os exames nacionais, por melhores condições nas escolas, contra as propinas e a elitização do ensino… A JCP – continuou Ruben – está na luta das novas gerações de jovens alentejanos, por outra política, uma política de melhoramento das condições de vida. Uma política que dignifique os direitos dos trabalhadores e dos jovens e que não continue a alimentar os latifundiários e os grandes grupos económicos».
Depois de lembrar a preparação e os resultados do recente Congresso da JCP, Ruben terminou afirmando: «A história mostra que só com a luta podemos resistir e conquistar mais direitos, mais cultura, mais desporto e lazer. Só com a luta o Alentejo será de quem trabalha! Só com a luta Portugal será do Povo!»

Jerónimo de Sousa em Beja
«Resistir para avançar e crescer»


«Podemos estar numa fase de resistência mas ela é e será a primeira trincheira para avançar e crescer», afirmou o secretário-geral do PCP no comício de encerramento da Festa Alentejana, no passado domingo. Jerónimo de Sousa lembrou que a Festa Alentejana se realiza num momento em que o Governo do PS «recrudesce a sua ofensiva em várias frentes contra o emprego, os direitos dos trabalhadores e os serviços públicos essenciais ao bem-estar das populações».
Ao contrário do prometido pelo PS, com o seu Governo aumentou o desemprego, degradou-se o poder de compra e promoveu-se «uma inaceitável política de contenção salarial que desequilibrou ainda mais a injusta distribuição do rendimento nacional». Com o Governo do PS, lembrou ainda o dirigente do PCP, «temos visto como se desenvolve de forma crescente a desregulamentação das relações de trabalho e como se deu o dito por não dito em relação ao novo Código do Trabalho». Código que prometeu alterar para garantir os direitos laborais e a contratação colectiva mas que, afirmou Jerónimo de Sousa, «não só adia uma solução, como deixa em aberto a possibilidade de o alterar para pior». Também as funções sociais do Estado e os serviços públicos estão na mira do Governo, acusou Jerónimo de Sousa.
O secretário-geral do PCP considerou que as medidas anunciadas recentemente contra direitos dos trabalhadores da Administração Pública são também parte do objectivo estratégico da política de direita de «destruição dos serviços públicos e funções do Estado e subvertendo fundamentos do Estado democrático». O chamado «regime de mobilidade» para além de introduzir mais um «elemento de quebra do vínculo público de emprego», vai também criar as condições para subsidiar o capital privado «ao abrir a possibilidade de este vir a contratar milhares de trabalhadores da Administração pública, a quem o Estado continuará a pagar uma subvenção».
Lembrando as promessas não cumpridas de José Sócrates, que prometeu que o Alentejo sairia do esquecimento com um Governo do PS, Jerónimo de Sousa afirmou: «Sei que o Primeiro-ministro fica danado quando lhe chamam mentiroso! Por decoro e ética democrática não chamo, mas como dizem os alentejanos: que grande pantomineiro nos saiu!»
Aos trabalhadores alentejanos, Jerónimo de Sousa recordou que o PCP «desde o início da sua existência selou com os trabalhadores e as massas populares uma sólida e indissociável ligação que se prolongará no tempo e em muitas lutas por todo o País e nestes campos do Alentejo».


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