«Pentágono reconheceu que 25 prisioneiros tentaram suicidar-se»
EUA dizem-se vítimas de «acto de guerra»
Três suicídios em Guantánamo
«Uma acção de propaganda, para chamar a atenção» - assim classificam os EUA o alegado suicídio de três presos, a 10 de Junho, na base de Guantanamo.
A tese da assistente adjunta da Secretária de Estado para a Diplomacia, Colleen Graffy, é partilhada por Harry Harris, comandante da base norte-americana de Guantanamo, onde estão mais de 500 presos desde 2002, sem culpa formada nem julgamento. Segundo Harris, os alegados suicidas faziam parte de um grupo que tem feito várias greves de fome e que as autoridades do campo têm alimentado à força.
«Eles são espertos, criativos e empenhados. Isto foi planeado», disse o comandante referindo-se aos suicídios, acrescentando que não se está perante «um acto de desespero, mas antes perante uma acção de guerra desigual» contra os EUA. Na tentativa de reforçar a sua versão, Harris sustentou ainda que os três suicidas - dois sauditas e um iemenita cujos nomes não foram revelados - eram radicais empenhados capturados no campo de batalha, que se terão sacrificado por existir a «crença mitológica» de que o campo de concentração fecharia se três presos se imolassem.
A sintonia com a Casa Branca não podia ser maior. Também Colleen Graffy disse que «estes actos fazem parte de uma estratégia de quem não valoriza nem a própria a vida nem a nossa, dado que usam os ataques suicidas para levar mais longe a guerra santa».
Enquanto isso, o presidente George W. Bush fez saber, através do seu porta-voz, Tony Snow, que ficou «muito preocupado» com o ocorrido e que os corpos estão a «ser tratados com o máximo respeito e em acordo com as crenças religiosas» dos mortos.

Desespero generalizado

A «preocupação» de Bush não serve de consolo à família dos dois sauditas - um de 19 e outro de 22 anos, o que significa que eram adolescentes quando foram presos -, que diz não acreditar na versão do suicídio. Em declarações à France Press, o advogado das vítimas, Kateb al-Chammari, afirmou que a «versão americana levanta muitas dúvidas», sublinhando que «estas mortes testemunham a tortura e os tratamentos desumanos a que foram sujeitos» os dois jovens.
Um antigo preso, Shafiq Rasul, libertado após mais de dois anos de prisão por nada haver contra ele, confirma que as mortes não são acidentais: «[Dentro do campo] só pensamos em duas coisas, suicídio ou como obter justiça. É o desespero que nos consome, não o desejo de ser mártir».
Um desespero bastante generalizado, refira-se, já que segundo outras fontes houve mais de 100 tentativas de suicídio nos últimos anos. O próprio Pentágono reconheceu que 25 prisioneiros tentaram suicidar-se em 41 ocasiões.
Os presos de Guantanamo, território cubano ocupado ilegalmente pelos EUA, encontram-se sem qualquer protecção nem direito a julgamento, desconhecem as acusações que lhes são feitas e não podem receber visitas de familiares. O contacto esporádico com os advogados é o único elo que os liga ao mundo exterior.
A situação é condenada pela generalidade dos juristas internacionais. Segundo William Goodman, director do Centro pelos Direitos Constitucionais, grupo de juristas radicado em Nova Iorque, os suicidas agiram por desespero, ao não poderem provar a sua inocência, pois encontram-se perante um sistema sem justiça e sem esperança.

Críticas generalizadas aos EUA

As reacções internacionais à morte dos três prisioneiros não poupam os EUA e as críticas à própria existência do campo de tortura de Guantanamo sobem de tom.
Manfred Nowak, relator da ONU para as situações de tortura, instou a União Europeia a exigir aos EUA, na cimeira da próxima semana com Bush, em Viena, que encerrem a prisão.
Nowak, em declarações à France Press, considerou «trágicos» os suicídios, dizendo que «traduzem o desespero das pessoas, para muitos inocentes, presas há quatro anos sem saber qual vai ser a duração do cativeiro e sem se poderem defender perante um juiz».
Para o co-autor do relatório das ONU sobre Guantanamo, a afirmação dos americanos de que libertarão os presos quando terminar a guerra contra o terrorismo é de «um cinismo absoluto». Para Nowak, a «posição dos EUA é cada vez mais insustentável, face aos repetidos apelos para o encerramento do campo», pelo que Bush devia aproveitar a reunião de Viena, com a União Europeia, para «propor o encerramento negociado de Guantanamo».
Os EUA não escapam sequer às críticas dos seus aliados mais próximos. A ministra britânica dos Assuntos Constitucionais, Harriet Harmam questionou a legalidade do campo. «Se é completamente legal e não se passa nada de errado lá, por que é que a prisão não é transferida para a América?», questionou Harman em declarações à BBC. «Ou é transferida para os EUA, e os detidos são integrados no sistema de justiça americano, ou então deve ser encerrada», sublinhou.
Por seu lado, a Alemanha pediu uma investigação aos casos de suicídio, e reiterou a posição da chanceler federal, Angela Merkel, de que a prisão de Guantanamo deve ser fechada.
Também o primeiro-ministro dinamarquês, Anders Fogh Rasmusse, considerou que as condições de prisão registadas em Guantanamo violam a lei e desacreditam a chamada guerra contra o terrorismo.
A Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa (PACE) e o Conselho de Ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia exigiram igualmente, esta segunda-feira, que os Estados Unidos encerrem de imediato a prisão de Guantanamo.
Um comunicado divulgado pelo presidente da PACE, René van der Linden, sublinha que os três casos de suicídio revelam «o terrível mal provocado nesses homens pela detenção ilegal num centro concebido para evitar a normal justiça norte-americana», e exige uma investigação profunda às circunstância em que ocorreram as mortes, «ainda que nada possa reparar a injustiça que sofreram, porque se cometeram um crime deveriam ter sido julgados e condenados ou, em caso contrário, não deveriam ter sido presos».


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