Sessão evocativa de Álvaro Cunhal
Um vida e uma obra ímpares
Cerca de duas centenas de pessoas participaram anteontem na sessão evocativa de Álvaro Cunhal, em Lisboa. José Casanova, da Comissão Política do PCP, e Filipe Diniz, da DORL, reflectiram sobre a vida, a acção e a obra do dirigente histórico comunista.
O salão do centro de trabalho Vitória, em Lisboa, não foi suficiente para acolher todos os que quiseram assistir à sessão evocativa de Álvaro Cunhal, que se realizou anteontem, dias depois de se assinalar um ano sobre a sua morte.
Perante um auditório ansioso pelo início da iniciativa, Francisco Melo, responsável da Editorial Avante! – a organizadora da sessão –, anunciou a publicação em Novembro do primeiro volume das obras escolhidas de Álvaro Cunhal, referindo que os textos entretanto tratados levaram ao aumento do plano inicial, que previa seis volumes.

Porquê esta homenagem a Álvaro Cunhal? José Casanova respondeu na iniciativa:

«É tempo de sublinharmos a grande dimensão política, teórica, ideológica, revolucionária, intelectual, artística, militante, humana, de Álvaro Cunhal. De sublinharmos a sua vida inteiramente dedicada à luta pela defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País – uma vida de revolucionário, feita de coragem, de dignidade, de verticalidade, de coerência.»
«De sublinharmos que a adesão de Álvaro Cunhal ao comunismo, ao ideal comunista, não foi, apenas e somente, a adesão a um ideal libertador e transformador – foi também, e complementarmente, uma opção de vida e uma opção para a vida, concretizada com a entrega total ao PCP. De sublinharmos que a intervenção política militante de Álvaro Cunhal, a sua prática concreta, foi sempre enquadrada e complementada por uma constante, lúcida, criativa e inovadora reflexão teórica, tendo como base o marxismo-leninismo enquanto sistema de teorias que explicam o mundo e indicam como transformá-lo e que, com a pujante riqueza do seu método dialéctico, constitui um instrumento essencial para a análise científica da realidade e das suas evoluções – portanto, intrinsecamente antidogmático e contrário à elucubração teórica que não tem como fundamento sólido a prática e a experiência», salientou José Casanova.
«De sublinharmos que toda a sua actividade partidária foi marcada pela preocupação dominante de, integrando o colectivo partidário, dar o seu contributo para fazer do PCP o partido revolucionário que é. De sublinharmos que, pela dimensão, pela profundidade e pela singularidade desse contributo, Álvaro Cunhal foi o mais relevante operário da notável construção colectiva que é o PCP», destacou.
«Muito do que o PCP é hoje – ou seja, o essencial do que o PCP é hoje, enquanto partido com uma identidade específica, esta e não outra, construída, sem dúvida, na base das experiências teóricas e práticas do movimento comunista internacional, mas, sem dúvida também, e de que maneira, a partir da experiência e da evolução da luta do movimento operário português no espaço e no tempo concretos do nosso País, da nossa história, e a partir da vida, da experiência e da evolução do Partido enquanto vanguarda revolucionária –, muito do que o PCP é hoje, é inseparável da intervenção de Álvaro Cunhal. E essa intervenção - o seu exemplo, o seu conteúdo, os seus ensinamentos - tem que ser devidamente sublinhada, valorizada e prosseguida, para que a verdade histórica seja dita e fique escrita e para que a geração de hoje e as gerações futuras dêem continuidade enriquecedora ao exaltante processo de construção colectiva do PCP – que o mesmo é dizer reforçá-lo orgânica e ideologicamente, tornando-o cada vez mais interveniente e activo, mais influente, mais solidamente ligado à classe operária e a todos os trabalhadores Essa é uma tarefa que emerge, imperativa, do conjunto de exigências que se colocam ao grande colectivo partidário comunista», afirmou o dirigente comunista.

Fundamental

Filipe Diniz, membro da Direcção da Organização Regional de Lisboa do PCP, defendeu que o trabalho intelectual de Álvaro Cunhal é indispensável para a compreensão do século XX português e simultaneamente é «parte integrante e elemento activo nas profundas transformações, incluindo as de carácter cultural, que se verificaram na sociedade portuguesa ao longo dos últimos oitenta anos».
O trabalho desenvolvido durante o período de oito anos em que esteve em regime de total isolamento na Penitenciária de Lisboa é «particularmente impressionante». «Preso em Maio de 1949, mantido incomunicável durante 14 meses, sujeito primeiro a brutal violência física e depois a refinadas técnicas de tortura incidindo sobretudo naquilo a que na linguagem dos “especialistas” se chama privação sensorial, encerrado numa estreita cela onde a luz nunca era apagada, mas onde nunca se via o sol, tudo foi feito para o abalar e destruir física e psicologicamente», assinalou Filipe Diniz.
«Nesse mesmo período, prepara, sem um papel para tomar apontamentos, a sua defesa perante o tribunal plenário que, mais do que uma defesa, é um extenso, brilhante e demolidor requisitório contra o regime fascista. Esta intervenção é de Maio de 1950. Condenado e prosseguindo em regime de total isolamento, trabalha intensamente: desenha, conclui o texto sobre As lutas de classes em Portugal em finais da Idade Média, que o autor data de 1951. Traduz, num trabalho de reconhecida e notável erudição, o Rei Lear, de Shakespeare. Estuda a Questão Agrária em Portugal. Escreve sobre arte e estética. E todos estes trabalhos, muitos dos quais requereram investigação documental e comparação de fontes e dados, são realizados não apenas nas condições descritas, mas segundo uma regra que consistia em não lhe ser permitido ter consigo mais do que um livro de cada vez», destacou o dirigente.
Filipe Diniz lembrou a produção de ficção literária – Até amanhã, camaradas e Cinco Dias, Cinco Noites – e de desenhos e pinturas na prisão. «Desenhos e pinturas realizados num espaço de dois metros por três, parcamente iluminado por uma estreita janela alta, mas que são literalmente construídos sobre a recusa do confinamento espacial e humano e sobre a recusa da distância. O seu trabalho, transfigurando a memória, é um trabalho de anulação do constrangimento do espaço e do tempo. Num conjunto de 41 desenhos publicados, apenas um representa um espaço interior, e apenas um, também, uma figura isolada», revelou.
Mas, para Filipe Diniz, «é a expressão plástica da humanidade comovente do humano o que mais impressiona em muitos dos desenhos. E a sensibilidade intimista de figuras mais individualizadas.»


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