Os operários desconfiam do prazo de cinco semanas pedido pelo Governo para negociar
Travar o encerramento da Opel/Azambuja
Não à traição, sim à produção
A ameaça de deslocalização da fábrica da Opel, na Azambuja, no dia 14, levou os trabalhadores à rua, na sexta-feira. Dizem-se traídos e garantem que vão lutar.
No dia 16, durante uma greve de 24 horas, os cerca de 1200 trabalhadores marcharam ao longo de cinco quilómetros da Estrada Nacional 3, a exigir a manutenção da fábrica da General Motors, GM, em Portugal, e dos postos de trabalho.
«Não à traição, sim à produção» foi a palavra de ordem mais ouvida durante a marcha que arrancou das instalações da unidade e foi até ao largo da Câmara Municipal. Durante o percurso foram exibidas duas faixas, «Em defesa dos postos de trabalho» e contra a «deslocalização da produção da Opel».
A manifestação contou com a solidariedade do PCP, através da presença do deputado Benardino Soares e também do secretário-geral da CGTP-IN, Manuel Carvalho da Silva, segundo o qual, o Governo deve fazer tudo, «até ao limite», para manter a empresa no País.
Salientado que, nos últimos dois anos, foram várias as ameaças divulgadas quanto ao futuro da Opel/Azambuja, Carvalho da Silva lamentou que nada tenha sido feito, durante este tempo, em defesa da fábrica e dos empregos, tendo salientado que a unidade portuguesa é uma das mais produtivas do Grupo GM.

Solidariedade operária

Os trabalhadores voltaram à luta, na passada terça-feira, com greves de duas horas por turno e, segundo fonte sindical citada pela Lusa, receberam, entretanto, a solidariedade dos operários das fábricas da GM, em Saragoça, Espanha, e de Russelsheim, na Alemanha, que também pararam duas horas por turno.
A intenção de encerrar a unidade surgiu dia 12, num jornal económico alemão onde, citando fontes da empresa, se revelava a intenção do Grupo norte-americano, de cessar a actividade, na Azambuja, a 31 de Outubro.
Dois dias depois, a GMEuropa adiou as negociações com os representantes dos trabalhadores que estava previsto iniciarem-se nesse dia e fez saber, através de correio electrónico, a intenção de transferir o fabrico do modelo Combo, da Azambuja para a fábrica de Saragoça, em Espanha, sem que tenha adiantado datas para o efeito.
Na sexta-feira da semana passada, os representantes dos trabalhadores foram recebidos pelo ministro da Economia, Manuel Pinho, que disse ter pedido um prazo de cinco semanas para negociar com a multinacional.
Para hoje, estão previstos encontros, na Azambuja, entre representantes dos trabalhadores e as eurodeputadas, Ilda Figueiredo, pelo PCP, e Jamila Madeira pelo PS.
Amanhã decorrerão plenários para decidir novas acções de luta.

Um acto de traição

No dia do anúncio da deslocalização e encerramento, os trabalhadores aprovaram, em plenário e por unanimidade, uma resolução onde se dizem «traídos» por vários motivos: salientam que continua em vigor, até Dezembro de 2007, o acordo social celebrado que pressupunha assegurada a produção do modelo Combo, até 2009, e o início dos preparativos para a vinda de um novo modelo para Portugal.
A mesma resolução salienta que a General Motors foi subsidiada com mais de 40 milhões de euros, em dinheiros públicos, na condição de se manter em Portugal, e sublinha-se que a unidade «é produtiva, dá lucro e é considerada um modelo dentro dos padrões estabelecidos pela própria multinacional norte-americana».
Os trabalhadores consideram que a fuga ao diálogo e à negociação, por parte da administração, demonstra que o encerramento é uma decisão política e não um problema de competitividade.
A resolução faz votos para que o prazo de cinco semanas adiantado na comunicação social por representantes do Governo e da empresa para a procura de soluções, «não seja mais uma manobra para empatar», reafirmando o propósito de lutar para garantir a continuação da fábrica. Por esse motivo, exigem que nas negociações a ter lugar entre o Governo e a empresa, «esta apresente, o mais rapidamente possível, uma proposta concreta de viabilização».
Se a empresa se mantiver inamovível no seu propósito, «a luta vai continuar enquanto a empresa não cumprir com todos os seus compromissos».
Os trabalhadores agradecem a solidariedade manifestada pelos trabalhadores e o povo português, os representantes de todos os sindicatos europeus presentes no Comité Executivo da Federação Europeia dos Metalúrgicos e a acção comum dos trabalhadores da GM Europa, em defesa de todas as fábricas e dos empregos.

Apoiar quem trabalha

Na Assembleia da República e no Parlamento Europeu, o PCP avançou imediatamente com diligências em defesa dos direitos dos trabalhadores e da viabilidade de uma unidade que está por cá instalada há mais de 40 anos e foi fundada em 1963.
O deputado do PCP, Bernardino Soares, anunciou que o Grupo Parlamentar comunista solicitou a presença do ministro da Economia, na Assembleia da República, para esclarecer sobre o que tem feito o Governo para evitar a situação e por o PCP considerar que «esta é uma das fábricas mais produtivas do Grupo GM, pelo que não há nenhuma razão para que encerre», afirmou.
No Parlamento Europeu, a eurodeputada do PCP, Ilda Figueiredo, avançou com uma pergunta escrita prioritária, no mesmo dia, onde solicitou da Comissão Europeia informação sobre os apoios comunitários, recebidos até ao momento, pela GM, na União Europeia, e pela Opel/Portugal. A deputada também pretendeu saber que medidas pensa a mesma Comissão tomar, visando a defesa do emprego e outros direitos dos trabalhadores portugueses.
O Grupo que integra os eurodeputados comunistas portugueses manifestou, num comunicado do mesmo dia, «Solidariedade com os trabalhadores da Opel/Portugal» e convidou as Organizações Representativas dos Trabalhadores para uma reunião, no Parlamento Europeu, com o propósito de sensibilizar os deputados para a luta contra a deslocalização da multinacional e as graves consequências daí decorrentes.
Na qualidade de vice-presidente da Comissão do Emprego do Parlamento Europeu, está previsto que Ilda Figueiredo leve o problema àquela comissão, ainda esta semana.


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