«Militares da Nato podem intervir no conflito»
Israel intensifica ofensiva e ameaça alargar o conflito
EUA e UE preparam contingente
Israel intensificou os ataques no Líbano, excepção feita a segunda-feira quando Condoleezza Rice e Javier Solana se deslocaram a Beirute. Ontem, em Roma, o Grupo Líbano discutiu o envio de tropas para o território.
A secretária de Estado norte-americana efectuou uma visita relâmpago à capital libanesa onde se encontrou com o primeiro-ministro, Fouad Siniora, e almoçou na embaixada dos EUA sob um coro de protestos populares que se desenrolavam à porta do edifício.
A deslocação de Rice à martirizada cidade de Beirute, esperada por muitos com a expectativa de que poderia constituir um primeiro passo para o cessar dos bombardeamentos indiscriminados, saldou-se num fracasso para os que viam na representante da política externa da Casa Branca uma mensageira da paz.
Com efeito, o exército e a aviação israelita apenas interromperam por horas o troar dos canhões e a chuva de mísseis e excepcionalmente contra a capital do Líbano, porque no restante território, sobretudo no Sul, no resultado de mais um dia de ofensiva acrescentam-se os mortos, somam-se os feridos e estropiados de guerra, e faz-se o balanço de um país parcialmente em ruínas.
Em Beirute, Rice nada adiantou relativamente a declarações anteriores. Repetiu-se disposta a «estabelecer as condições de um cessar-fogo», qualificou a medida de «muito importante e urgente» e partiu rumo a Telavive para se encontrar com o líder político da campanha bélica, o primeiro-ministro israelita Ehud Olmert, reunião que terá servido para fazer o ponto da situação e tomar balanço para Roma. Na cimeira agendada para ontem na capital italiana, convocada pela própria Condoleezza Rice, os EUA, a Grã-Bretanha e a UE, acompanhados por França, Itália, Egipto e Banco Mundial no chamado Grupo Líbano, devem discutir o envio de um contingente militar para a fronteira entre os países em conflito, reforçando a presença armada das potencias norte-atlânticas naquela região, tal como havia já aludido Tony Blair.

Europa joga partilha

Paralelamente à visita de Rice, também o Alto Representante para a Política Externa e Segurança da UE, Javier Solana, esteve em Beirute para expressar o interesse da UE na constituição de uma força multinacional com capacidade para intervir no território, afirmando que «vários países estão dispostos a oferecer toda a ajuda necessária». Solana encontrou-se com Saad Hariri, deputado e filho do ex-primeiro-ministro libanês, Rafik Hariri, assassinado no início deste ano e cujo caso despoletou uma série de acusações nunca provadas contra a vizinha Síria.
Hariri, filho, é uma das figuras emergentes dos últimos dias. No final do debate com Solana manifestou-se apologista de «uma solução final» e contrário a «um Líbano utilizado como território para outros conflitos», isto é, apresentou-se como sendo capaz de combater internamente o Hezbollah a começar pela expulsão do partido do governo de unidade nacional, tarefa grata aos planos europeus e norte-americanos, e ainda a receber de braços abertos um efectivo militar estrangeiro com o alegado objectivo de ser um «tampão» à troca de hostilidades.
Ao invés do que sucedeu no caso do Iraque, europeus e norte-americanos parecem, para já, inteiramente de acordo no que toca à estratégia a implementar, talvez porque o Líbano e esta agressão em particular, já classificada por altos responsáveis governamentais como «desproporcionada», se assemelhe cada vez mais à porta de entrada para uma guerra mais ampla na zona do Médio Oriente. Ninguém quer ficar alheio ao destino dos despojos.

Síria em alerta

A avolumar a suspeita de que os israelitas tenham desenvolvido um ataque de tal dimensão com o fito de relançar o tom das ameaças da «comunidade internacional» contra a Síria, estão as informações que dão conta de uma ofensiva terrestre de larga escala em preparação. No Norte de Israel, milhares de soldados de infantaria e unidades mecanizadas estão mobilizadas. A disposição e quantidade das forças não indicam uma invasão limitada ao Sul do Líbano.
À ameaça responde o executivo de Damasco com um renovado apelo à busca de uma «solução negociada» e a um «cessar-fogo que abra caminho aos esforços diplomáticos para uma troca de prisioneiros». Walid Muallen terá feito a proposta aos enviados alemães, mas quer o ministro dos negócios Estrangeiros sírio, quer depois o seu homólogo no governo, Moshen Bilal, tutelar da pasta da Informação, garantiram que o país «entrará no conflito se Israel entrar no Líbano por via terrestre», pelo menos o suficiente para ganhar posições na linha de demarcação com a Síria, presume-se, na medida em que as incursões territoriais já se realizaram.
Recorde-se que no domingo, durante uma reunião do gabinete do governo, Ehud Olmert reiterou a intenção de levar a cabo uma guerra duradora. De acordo com o The Daily Star de Beirute, o chefe do executivo israelita considera que «o processo diplomático não irá destruir as infra-estruturas do “terror”, o que vai levar o seu tempo». Às palavras de Olmert acresce a declaração do seu ministro da Defesa e líder do Partido Trabalhista, Amir Peretz, que após o encontro com Frank-Walter Steinmeir, responsável pela diplomacia alemã, consentiu o envio de uma força multinacional, «que pode ser patrocinada pela Nato», esclareceu.


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