• Jorge Messias

Sócios e figurantes
Um entendimento correcto do que se passa no Médio Oriente é operação complicada. As imagens positivas e as imagens negativas sobrepõem-se umas às outras. Só a custo se distinguem. O futuro as definirá.
Por agora, numa linha revolucionária e de esperança, destaca-se a confiança e o orgulho que todos os homens livres sentem pela coragem demonstrada pelos homens e mulheres do Líbano, do Iraque, da Palestina ou do Afeganistão. Sem nada a perder a não ser as suas vidas, esses povos unem-se contra o invasor, são chacinados e, todavia, sabem morrer de pé. Tornaram-se um exemplo da vontade inquebrantável, valor que é caro a todos nós.
A esta luminosa imagem de coragem responde, pela negativa, o quadro vergonhoso dos regimes islâmicos no poder, vendidos, corruptos, sectários e cruéis. Se no Iraque, misturados com a resistência legítima ao invasor estrangeiro, há bandos mercenários a soldo de organizações criminosas, de serviços secretos, de grupos económicos, de organizações religiosas e empresariais, da CIA, do Pentágono ou da Al-Caeda, noutros países do Islão a vergonha não é menor. Regimes feudais na Arábia Saudita ou nos Emiratos; sentenças ferozes onde o direito laico se submete ao terrorismo das teologias; submissão perante o colonizador; divórcio total entre o mundo político e as populações. Os senhores locais da guerra e do petróleo são simples sócios indígenas dos nababos da Wall Street ou do Banco Mundial.
Num terceiro patamar figuram os comparsas dos exploradores
dos povos do Médio Oriente. É povoado, sobretudo, pelas instituições supranacionais que garantem a segurança e a boa imagem de marca dos ricos: o Vaticano, a ONU do presidente Annan, a União Europeia, a OCDE, o Fundo Monetário Internacional, a NATO, os serviços secretos mundiais, as cúpulas capitalistas de Davos e Bilderberg, a Liga Árabe, etc. Tecem, com o seu trabalho «em rede», uma teia fortíssima que tem permitido manter impunes os regimes islâmicos «pró-ocidentais», sedes do poder dos déspotas do petróleo, pagos pelos lucros fabulosos que este dá.

O sentido da luta
só pouco a pouco se evidenciará


Não nos deixemos iludir pelo que a contra-informação ao serviço do grande capital nos sopra aos ouvidos. As guerras que se travam em torno do Mediterrâneo não têm bases em ódios étnicos ou religiosos. São os próprios relatos dos ataques sionistas que referem a existência de múltiplas comunidades, com etnias e religiões diferentes, que coabitam há séculos nessa imensa região e permanecem imunes aos ódios que as guerras ciclicamente semeiam. As guerras das religiões só se verificam quando as suas hierarquias se fundem com o lucro ou com o dinheiro e continuam a ser escutadas pelos crentes. Ou quando posições fundamentalistas bloqueiam com os seus dogmas a mente humana e a ânsia de viver as liberdades com conteúdos políticos e sociais. Mas não parece ser esta a atitude geral do movimento religioso muçulmano na crise que se atravessa.
A unidade popular é de processo lento mas seguro. Pela acção, os homens explicam-se a si mesmos e encontram, com os outros, os caminhos do futuro.
O que se passa no Médio Oriente faz lembrar os combates que o PCP travou antes do 25 de Abril, quando também várias frentes se sobrepunham. Os objectivos eram o derrube do Estado fascista, a instauração de um regime democrático, a liquidação do poder dos monopólios, a entrega das terras aos trabalhadores, a elevação do nível económico do povo português, a democratização do ensino e da cultura, a extinção do imperialismo colonial e a promoção da paz e da amizade com todos os povos.
Vemos agora como, na prática, aos êxitos democráticos iniciais se seguiram fases de graves recuos. O processo revolucionário é assim, quer decorra em Portugal, no Islão ou mesmo ... em Israel ou nos EUA, como um dia se verá. Exige coragem, capacidade de sofrimento, confiança no povo a que se pertence. Exclui os oportunistas, os sectários, os fanáticos, os intransigentes que trocam o essencial pelo acessório e os demagogos.
É cada vez mais evidente que, nos presentes cenários das guerras do petróleo o capitalismo, ainda que por vezes pareça vencedor, sairá sempre derrotado. No panorama mais negro possível do conflito - o do recurso às armas de destruição maciça - o imperialismo chacinará os povos mas destruirá, também, a galinha dos ovos de oiro da sua capoeira privada, assinando a sua própria autodestruição.
Vale a pena resistir. A coragem dos povos oprimidos acabará por pôr a nu um sistema capitalista internamente depauperado e preso nas malhas das suas contradições.
Porém, em terras do Islão, a situação muda, de hora a hora. É uma fase melindrosa e fértil da História, a que vivemos.


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