• Pedro Campos

«Nova contagem tende a confirmar todas as denúncias de fraude»
Recontagem do votos no México
Obrador com vantagem de 600 mil votos
Na recontagem dos votos das presidenciais mexicanas há um milhão oitocentos mil para López Obrador e 800 mil para Calderón, o que dá a vitória da oposição.
Segundo as autoridades eleitorais mexicanas, especialistas em chapeladas, a direita do país azeteca teria ganho as eleições presidenciais por uma exígua maioria de 234 934 votos, menos de 0,6% do total dos sufrágios, num país onde foram às urnas qualquer coisa como 40 milhões de eleitores.
Considerando que concentra o controlo de todos os poderes, talvez a direita consiga, uma vez mais, levar a sua avante e burlar a vontade popular, mas desta a vez as coisas
estão a tornar-se um tanto mais difíceis que em épocas pretéritas. O povo do México, na mesma onda de grande parte da América Latina deste dias, está na rua, bate o pé e não está só.
Logo que se souberam os resultados, Andrés Manuel López Obrador (AMLO), da Coligação Pelo Bem de Todos, denunciou a fraude – que se reveste de várias formas – e convocou a gigantescas manifestações que paralisaram a capital do país e exigiram uma nova contagem de todos os votos das 130 477 mesas eleitorais. A direita não gostou, a maioria dos meios da comunicação social cerrou fileiras ao lado do candidato foxista, Felipe Calderón, e tudo indicava que uma nova chapelada estava consumada ao melhor estilo do PRI, que o PAN aprendeu rapidamente só com meia dúzia de anos no poder. Não contavam com a reacção popular – que tem mantido uma firmeza admirável – e obrigou o TEPJF (Tribunal Eleitoral) a dar um «passinho» atrás. Por unanimidade, em vez de ordenar o que correspondia, uma recontagem total dos votos, acedeu a recontar menos de 10% dos mesmos. Isto é, em vez de conferir os sufrágios das 130 477 mesas, decidiram contar «só» os de 11 839.
Esta nova contagem, que se está a realizar sob o protesto da Coligação progressista, tende a confirmar todas as denúncias de fraude avançadas pela equipa de assessores de AMLO: envolopes abertos ilegalmente, votos a mais por um lado, votos a menos pelo outro e incongruências nos totais são algumas das «habilidades» eleitorais que puseram Calderón à frente de AMLO.

O povo não desiste

Se o poder não muda as instituições, muda-as o povo. A advertência é de AMLO e não deixa de ser simbólico que a mesma parta desde a histórica região de Chiapas. Frente a uma concentração maciça de apoiantes, o candidato da esquerda mexicana afirmou que não permitirá a imposição de um presidente espúrio, ilegal e ilegítimo, e que prosseguirá com as medidas de resistência civil pacífica contra a fraude eleitoral que se cozinhou desde o poder no passado 2 de Julho. Repetindo a consigna nacional de «voto por voto, mesa por mesa», fez um apelo ao TEPJF para que pense bem a decisão que vai tomar sobre a limpezas das eleições. «Eles são – disse – a última instância, mas é igualmente a última oportunidade que se tem, desde o poder, para a reforma e a transformação das instituições, e se eles não o fazem, fá-lo-á o povo do México». E adiantou que não suspenderá as manifestações populares no centro histórico da cidade: «Não vamos claudicar, não nos vamos entregar, não nos vamos acovardar».
Para César Nava, uma das figuras de proa do panismo, na revisão em processo «não houve evidência alguma de irregularidades que levem à anulação dos comícios». No entanto, tudo aponta no sentido contrário, de que sim houve fraude e de bom tamanho.
Até ao sábado 12, com a recontagem a um nível de 70%, havia 114 mil 552 votos a mais ou a menos nos resultados dados a conhecer pelas autoridades eleitorais, e Cláudia Sheinbaum, do comando de campanha de AMLO, já anunciou que solicitará ao Tribunal Eleitoral a anulação dessas mesas. Se assim for, «o resultado dá uma cambalhota e ganha Andrés Manuel». Segundo cálculos da Coligação, nos votos em processo de recontagem há um milhão oitocentos mil para AMLO e oitocentos mil para Calderón, o que significaria a vitória do candidato progressista com uma vantagem de perto de 600 mil sufrágios.

Quando quer, a Igreja também sabe de números…

Raul Vera é bispo de Saltilho, no estado de Coahuila, e o mesmo que há um par de semanas participou, em Monclova, na Marcha Pela Dignidade e Pela Justiça, onde se exigia que as violações perpetrada em Castanhos, alegadamente por militares, não ficassem impunes e que os prevaricadores não pretendessem aparecer como os ofendidos e humilhados. Este mesmo representante da diocese de Saltilho acaba de fazer uma declaração que promete agitar os corredores do poder panista. «Em função da estatística, considerando unicamente Coahuila – afirmou o prelado – o candidato da Coligação Pelo Bem de Todos, Andrés Manuel López Obrador, já ultrapassou o seu adversário panista ao ter-se ‘revertido’ totalmente a tendência que manifestou o Programa dos Resultados Eleitorais Preliminares à escala nacional, no passado 2 de Julho». E enquanto a hierarquia católica agrupada na Conferência Episcopal não se cansa de fazer o frete à direita pedindo, mais ou menos veladamente, que se apoie o
candidato panista e se desista dos movimentos populares, Vera López, outro bispo que participou na mesma manifestação, veio a público recordar que «católicos somos todos desde o concílio Vaticano II» e que «a Igreja é o povo de Deus, ao qual pertencemos todos». E para que não ficasse alguma dúvida sobre a natureza popular das manifestações, acrescentou que ele é também «Igreja Católica» e que garante que «90 por cento das pessoas que estão nas manifestações são da Igreja Católica». Finalmente, a declaração fala na necessidade de contar pelo menos 50% dos votos e que as tendências actuais da recontagem justificam a «resistência civil».


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