As violações de Israel ao cessar-fogo ameaçam a paz frágil
Líbano
Paz precária
Já na segunda semana da entrada em vigor do cessar-fogo, decretado em 14 de Agosto pela resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU, os libaneses continuam sob a ameaça do invasor israelita.
Apesar de ter permitido o fim dos combates e a retirada do grosso das tropas israelitas do território do Líbano, a resolução da ONU tem-se revelado de difícil aplicação e a sua eficácia continua por provar.
Por um lado, Israel tem insistido em sucessivas incursões militares, que representam flagrantes violações ao cessar-fogo, como já reconheceu o próprio secretário-geral da ONU. Por outro, o objectivo estabelecido de colocar uma força de interposição dotada de 15 mil capacetes azuis está longe de ser alcançado.
Na segunda-feira, soldados israelitas, a quatro quilómetros da sua fronteira, mataram dois membros do Hezbollah, que acusaram de ter tido uma atitude «ameaçadora». No sábado anterior, uma operação comando lançada por Israel motivou o protesto do governo libanês que faz esforços para tomar o controlo militar do sul do país.
Entretanto, pronto para novas operações de guerra, o exército invasor ocupa posições ao longo com a fronteira do Líbano, enquanto aguarda a chegada da força internacional das Nações Unidas (FINUL), cujo mandato inclui o desarmamento do Hezbollah e o levantamento do bloqueio israelita.
Todavia, até ao momento, apenas a França enviou um contingente de 200 militares, o que desiludiu os responsáveis da ONU que esperavam uma presença mais forte das tropas gaulesas. A Itália, inicialmente hesitante, admite agora tomar o comando da FINUL.
Como declarou, na terça-feira, 22, o emissário das Nações Unidas, Terje Roed-Larsen,
«a situação é ainda extremamente frágil, extremamente complicada e extremamente perigosa (...) incidentes fortuitos podem ocorrer e desencadear novas violências capazes de se intensificarem e se tornarem incontroláveis».

Contestação em Israel

Em Israel, aumentam as críticas à forma como o governo conduziu esta guerra. Familiares de soldados mortos e centenas de reservistas do exército não hesitam em pedir a demissão do primeiro ministro, Ehoud Olmert, do ministro da Defesa, Amir Perestz, e do chefe de Estado-Maior, o general Dan Halutz. Anteontem, concentrados junto ao parlamento, algumas dezenas de reservistas chegaram a exigir a demissão em bloco do governo.
Não obstante a tremenda destruição causada no Líbano, tem vindo a crescer na opinião pública israelita a ideia de que o governo e o exército subestimaram a capacidade de resistência do povo libanês e o poder militar do Hezbollah.
Muitos reservistas denunciaram erros graves na preparação da ofensiva, tanto a nível logístico como a nível de comando. Cedendo à pressão da oposição, o governo anunciou a constituição de uma comissão de inquérito para averiguar as ocorrências e apaziguar os ânimos.
Mas difícil será esquecer que o «invencível» exército israelita não conseguiu derrotar, nem provavelmente neutralizar a capacidade operacional do Hezbollah, em 33 dias de combates acirrados. Difícil será esquecer o elevado número de baixas militares sofridas ou a verdadeira hecatombe que significou para o prestígio hebraico a perda de 130 tanques Merkava, cujas carcaças são agora mostradas com orgulho pelos resistentes libaneses.
Na passada semana, dia 15, o presidente sírio, Bashar Al-Assad, não poupou elogios à «gloriosa batalha» conduzida pelo Hezbollah. Segundo afirmou, um novo Médio Oriente terá surgido da vitória sobre Israel no Sul do Líbano. Os planos dos Estados Unidos para a região são agora uma ilusão, declarou este chefe de Estado, sublinhando que «o princípio da guerra preventiva», adoptado pela administração Bush «é contraditório com o princípio da paz». «Consequentemente não esperamos paz num futuro próximo», concluiu.

Dias de devastação custam anos a recuperar

Trinta e três dias de intensos bombardeamentos israelitas sobre infra-estruturas e localidades libanesas provocaram prejuízos materiais que se elevam a 3,6 mil milhões de dólares, calculando-se que serão precisos anos até que o país possa recuperar.
Fadl Chalak, responsável libanês pelo Conselho para o Desenvolvimento e a Reconstrução (CRD), afirmou na semana passada, que a devastação deixada pelo agressor é comparável aos estragos causados pela guerra civil que dilacerou o Líbano entre 1975 e 1990. «Fui testemunha de todas as guerras no Líbano, mas nunca tinha visto tal destruição, de modo que até tenho dificuldade em imaginar a dimensão dos trabalhos de reabilitação».
Em declarações à agência Reuters, Chalak notou ainda que a guerra provocou 900 mil deslocados: «Que país pode suportar o deslocamento de um quarto da sua população?».
Em termos de baixas humanas, 1181 pessoas foram mortas no Líbano durante o conflito. Do lado israelita, o balanço eleva-se a 157 mortos, entre os quais 40 civis.
Mais de uma centena de pontes foram destruídas ou danificadas pelos raids da aviação israelita, o mesmo acontecendo à generalidade das estradas, fábricas, portos e aeroportos, rede de telecomunicações, escolas, hospitais, bombas de gasolina e instalações militares. No sul do Líbano, onde decorreram os combates de maior envergadura, cidades inteiras encontram-se reduzidas a escombros.
Fadl Chalak revelou que 30 mil edifícios de habitação foram atingidos, um quarto do
s quais no sul de Beirute, onde Israel concentrou parte importante dos ataques da aviação.
Se a reconstrução começasse já, seria preciso pelo menos um ano para recuperar as infra-estruturas e três anos para reconstruir os edifícios danificados. Contudo, a situação no terreno continua instável. As violações do cessar-fogo por parte de Israel repetem-se praticamente todos os dias, ao mesmo tempo que aumentam os riscos de confrontos internos.
Muitos anos e milhares de milhões de dólares foram necessários para que o Líbano recuperasse de 17 anos de guerra civil. Hoje, ao fim de 33 dias de bombardeamentos e combates, tudo voltou praticamente à estaca zero. «As nossas ambições e esperanças de unidade árabe e de uma Palestina livre não parecem realizáveis, mas continuamos a trabalhar. Não há outra opção que trabalhar», afirma o responsável pela reconstrução do Líbano.


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