• Hugo Janeiro

«A capacidade de resistência está ligada à defesa intransigente dos direitos do povo»
Entrevista a Alberto Faraht, do PC Libanês
«De nada vale libertar a terra<br> se os homens continuarem escravos»
Na base da recente agressão israelita contra o povo libanês está o domínio geoestratégico da região e o plano do imperialismo de criar um «Grande Médio Oriente» sob sua tutela. Esta é a leitura de Alberto Faraht, membro da direcção do Partido Comunista Libanês que, após ter participado na Festa do Avante a convite do PCP, concedeu ao Avante! uma entrevista onde reafirma que além da terra, é preciso não perder de vista a libertação do homem.
A!: Que leitura faz o Partido Comunista Libanês do ataque desencadeado por Israel?

Aberto Faraht: Este conflito é uma guerra israelo-norte-americana contra o Líbano, não apenas um ataque por iniciativa de Israel.
O PC Libanês estava consciente, antes mesmo do início da campanha, que se preparava uma agressão de larga escala contra o nosso país. EUA e França começaram por impor no Conselho de Segurança da ONU a resolução 1559(1), através da qual pensavam poder alcançar os seus verdadeiros objectivos. Ambos estão directamente interessados em intervir no Líbano. Para nós é óbvio que a França está empenhada em controlar os mecanismos económicos e geoestratégicos na região, e na sua perspectiva a «porta de entrada» é precisamente o Líbano. Não obstante, as coisas não lhes correram de feição no que diz respeito à resolução 1559, porque o que acabou por ser aplicado desse documento foi a retirada das tropas sírias.
Neste aspecto particular, devo esclarecer que nunca houve uma ocupação síria como foi propagandeado, embora se possa discutir se a retirada das tropas de Damasco já deveria ter ocorrido ou não, mas essa é outra questão que agora pouco acrescenta aprofundar.
Por outro lado, subsiste uma forte oposição dos libaneses contra pontos concretos daquela resolução, sobretudo os que diziam respeito ao desarmamento das «milícias». Aqui também importa esclarecer que o Hezbollah não é uma milícia no sentido estrito, é um partido de resistência nascido na guerra civil que hoje participa na vida política libanesa.
A questão estava em aceitar o desarmamento do Hezbollah, mas do ponto de vista da capacidade defensiva nacional isto obriga a um apuramento prático, que é saber se dentro dessa estratégia havia lugar para a integração de um grupo de resistência. Se não havia, se não há, então quais são as garantias dadas para que a capacidade defensiva do Líbano se mantenha operacional? Esse papel cabe exclusivamente às forças armadas? Neste debate, o Hezbollah garantiu que se o exército do Líbano fosse capaz de assegurar a defesa do país e os territórios anexados fossem devolvidos, então estava disposto a depor as armas.
A discussão prolongou-se, realizou-se uma conferência nacional, mas os EUA começaram a perder a paciência e na última visita do senhor Walsh(2) ao Líbano - poucas semanas antes do ataque Israelita - este disse claramente ao governo: ou bem que vocês aplicam a resolução tal qual nós a entendemos, ou então será Israel a forçar-vos a aplicá-la.
Bem, o nosso partido assumiu a posição de promover uma frente alargada de resistência à agressão que se avizinhava. Durante os combates, muitos dos nossos camaradas participaram e 12 acabaram por tombar no campo de batalha, isto para além de muitos outros que morreram na sequência dos bombardeamentos israelitas contra as populações civis.
Agora mantemo-nos com outras forças patrióticas - nas quais se inclui o Hezbollah – em luta para garantir não só a nossa soberania, como também no combate para que o Líbano não se transforme numa plataforma logística norte-americana capaz de alimentar intervenções em todo o Médio Oriente.

É com base nessa análise que decidiram apelar aos militantes comunistas e à população para que participassem na resistência à invasão?

Quando ocorreu a invasão israelita de 1982, o nosso partido foi o primeiro a sublevar-se em armas contra os agressores. Os dirigentes do partido, juntamente com outros dirigentes de esquerda, lançaram o apelo para que se formasse uma frente nacional de resistência à ocupação sionista. No mesmo dia, a resistência teve início e continuou até rechaçar os israelitas para o Sul do País, isto quando o Hezbollah ainda dava os primeiros passos na sua formação política e na constituição dos seus grupos armados.
É uma página trágica da história do Líbano, sublinho, a qual não queríamos ver repetida. Infelizmente fomos obrigados a voltar à luta armada, aos apelos à resistência popular, portanto, para nós, a resistência armada na defesa do povo e da pátria não é uma novidade.

Que relações tem o PCL com o Hezbollah?

Com o tempo as relações entre ambos melhoraram, sobretudo quando está em causa a defesa do nosso país contra invasões e ataques externos, como é o caso.
Neste momento a evolução é positiva. O Hezbollah - contrariamente a outras forças políticas islamitas existentes em alguns países da região - é um partido político com larga representação institucional e implantação popular, participa activamente na vida social do país, tem deputados no parlamento e dois ministros no governo. É, portanto, bem diferente de outras forças obscurantistas que se encontram arredadas da vida das pessoas, dos projectos sociais, do futuro e do desenvolvimento dos respectivos países e povos.
Dou-te um exemplo das possibilidades de trabalho conjunto. Através da Federação Sindical Libanesa mobilizámos a população para uma manifestação de 250 mil pessoas em Beirute. O objectivo foi exigir melhores condições de vida para as classes populares. Isto demonstra a importância da evolução das relações, sobretudo se considerarmos que até há bem pouco tempo o Hezbollah descurava as questões sociais e de luta interna e tinha como principal linha de orientação a defesa da integridade territorial do Líbano.
Felizmente escutaram-nos quando dizíamos que a capacidade de resistência está ligada à defesa intransigente dos direitos do povo, quando dizemos que de nada lhes vale libertar a terra se os homens continuarem escravos.

Que consequências directas da guerra nos pode relatar. Que situação vive o povo libanês?

Está em grandes dificuldades. As perdas humanas e materiais foram elevadíssimas. As infra-estruturas do país ficaram seriamente afectadas na medida em que o exército israelita bombardeou fábricas, vias de comunicação, centrais eléctricas, etc.
Pensamos que o verdadeiro objectivo era vergar o Líbano e o seu povo fomentando o cansaço e o descontentamento popular.
Ao contrário do que julgavam, não conseguiram gerar a discórdia interna, nem socorrendo-se das dificuldades extremas a que foram sujeitos os libaneses, nem fomentando a divisão religiosa, como aliás pretendiam também os norte-americanos.
Bem, até este momento não conseguiram fomentar de forma visível essas divisões no seio da sociedade libanesa, mas sabemos bem que o «trabalho» do imperialismo continua.
Se me afastar do quadro concreto do Líbano e olhar para a região de uma forma mais alargada, percebo que o imperialismo quer dividir os povos. Por exemplo, os israelitas oferecem aos sírios a abertura de negociações na condição de que estes deixem cair os mecanismos de solidariedade para com o povo palestiniano. Neste quadro, é extremamente importante que os nossos amigos, com particular destaque para o vosso partido, se solidarizem connosco, sem esquecer igual conduta para com a causa do povo palestiniano e as ameaças que enfrentam quer a Síria, quer o Irão.

A economia libanesa sofreu grandes perdas. É possível calcular o montante dos estragos?

Até agora não dispomos de cifras exactas, mas já sabemos que o capital se prepara para recolher o fundamental dos fundos destinados à reconstrução do país. A burguesia actua com tal ganância que muitos são suspeitos de insuflarem as perdas materiais sofridas durante a guerra. A ideia é arrecadarem uma parte mais significativa da ajuda internacional.
Pedimos a todos os países que canalizem fundos para o Líbano, mas entendemos que não podem ser os pobres a pagar esta crise.

As soluções possíveis

Israel fez uma proposta de diálogo ao Líbano. Acha que Fouad Siniora deve negociar com Ehud Olmert?


Os israelitas são agressores, são ocupantes, e a própria resolução 1701 do CS das Nações Unidas é equivoca.
Olmert fez uma declaração dizendo que estava disponível para falar sobre a paz com o primeiro-ministro Siniora, mas o governo desmentiu ter aceite o convite, conforme havia sido veiculado pela comunicação social.
A posição assumida foi clara: primeiro têm que sair do país e desocupar partes do nosso território, só depois falamos.

Porque é que diz que a resolução 1701 é equivoca?

O governo libanês tem muitas reservas sobre essa resolução. Nós também. Por que razão é atribuída a responsabilidade do conflito ao Hezbollah?
Apesar das reservas colocadas, pensamos que existem outros pontos que devem ser aplicados, desde logo a necessidade de uma solução pacífica, justa e igualitária para os problemas do Médio Oriente, nomeadamente na Palestina, Síria e Líbano.
Nós, comunistas, insistimos na importância de resolver estas matérias como um todo. Julgamos que não é possível chegar ao diálogo e à paz entre nações vizinhas sem tomar a ocupação israelita dos territórios destes três países como o centro de uma questão mais vasta.

Acha que o envio de tropas para o Líbano se pode saldar numa acção de coacção ao Líbano e à Síria?

Sobre isso, temos que dizer que na 1701 não existe nada que legitime a força internacional a desarmar o Hezbollah. Esse papel cabe ao exército libanês.
Nós entendemo-la como uma força de observação da situação no terreno, embora os franceses e norte-americanos a queiram dotada de outro papel, precisamente de instalação e salvaguarda dos seus interesses.
Sobre a hipótese da força se tornar um instrumento de agressão à Síria, o governo do Líbano foi claro ao afirmar que não aceita a interposição na fronteira entre os dois Estados.

O PC Libanês está disponível para participar num governo de unidade nacional com vista à reconstrução do Líbano?

Bom, neste momento está a ser criado um amplo movimento de apoio a um governo de unidade nacional. Estamos dispostos a participar, embora até agora não existam resultados concretos.

Criando um inimigo

Antes da guerra, ocorreu o assassinato do ex-primeiro-ministro Rafic Hariri. O que é que aconteceu?

Nós, comunistas, acreditamos que independentemente da «mão» que cometeu o crime, os instigadores foram israelitas, até porque os círculos sionistas não esquecem que Hariri foi um homem que esteve na vanguarda da resistência nacional, que infligiu perdas muito significativas ao exército israelita.
Foi uma figura histórica do nosso partido que infelizmente nos últimos anos da sua vida cometeu erros políticos crassos. Apesar de tudo, consideramo-lo um mártir do povo e da sua resistência.

Como explica as manifestações após a morte de Hariri, protestos que passaram no Ocidente como sendo de repúdio à Síria?

Foram manifestações que expressaram o sentimento de revolta do povo contra um assassinato político, mas repito, qualquer que tenham sido os executores desse crime, o objectivo era claro: fazer vergar a resistência libanesa, a unidade nacional em torno da soberania e dar crédito ao plano de anexação do nosso território tendo em vista o domínio do imperialismo na região.
É um clássico do imperialismo que já todos conhecemos. Fomentam a divisão entre povos irmãos, assassinam um dirigente e incriminam o seu verdadeiro alvo estratégico. Nós não acreditamos que tenha sido por iniciativa da Síria que se cometeu o atentado contra o primeiro-ministro Rafic Hariri.

Acha que a relação histórica entre sírios e libaneses foi abalada?

Estes países não existiam, é preciso ter isso em conta. Todos estivemos sob dominação do Império Otomano até ao início do século XX, mas quem traçou as fronteiras aproximadamente como as conhecemos hoje foram os colonizadores britânicos e franceses.
Palestina, Jordânia, Síria e Líbano não conheciam diferenças antes da dominação colonial, são o mesmo povo. Claro que nos dias de hoje os povos aceitam as respectivas nações e reconhecem-nas.

A força da solidariedade

Que medidas pensa tomar o PC Libanês para reforçar os laços e a unidade entre partidos comunistas e progressistas na região?

A situação interna no Líbano é de tal forma crítica que o esforço que nós fazemos, a nossa grande preocupação é, neste momento, aglutinar forças internamente.
Tivemos contactos com vários partidos, não só aqui na Festa do Avante, como também no Encontro de Partidos Comunistas e Operários em Atenas.
O melhor contributo que podemos dar ao movimento comunista internacional no contexto extraordinário em que nos encontramos é afirmar a unidade do povo libanês e promover a sua capacidade de luta.

Dos encontros que tem mantido com outros partidos comunistas, que opiniões recolheu sobre a situação no Líbano?

Sabemos que os partidos irmãos não regateiam solidariedade para com a nossa luta e isso não se traduz apenas em palavras. Estamos muito gratos.
Para nós é extremamente importante trocar opiniões com os nossos camaradas. A presença na Festa do Avante proporcionou-nos mais uma oportunidade para que isso acontecesse, até porque neste tecido complexo das relações internacionais temos coisas a dizer e coisas a escutar.
Quando regressar vou explicar aos camaradas do partido e ao povo libanês não só o peso da Festa no contexto político-cultural em Portugal, como também dar conta da solidariedade inabalável que os comunistas e o povo português demonstram com as causas libanesa e palestiniana.
A Festa é uma iniciativa fantástica. A participação da juventude deixou-me muito surpreendido e de certa forma revigorou-me a esperança.


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(1) - A Resolução 1559 do CS da ONU estipula, entre outros pontos, o desarmamento das «milícias» na fronteira israelo-libanesa numa extensão de 20 quilómetros, a perda das Quintas de Chebaa e de franjas territoriais ricas em recursos hídricos a favor de Israel
(2) - Trata-se supostamente do Vice-Almirante Patrick Walsh, chefe do Comando Central das Forças Navais do EUA, responsável pela coordenação das operações de evacuação de cidadãos norte-americanos no Líbano após o início dos bombardeamentos israelitas a partir de um vaso de guerra estacionado ao largo do Bahrain.


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