Editorial

«Tudo isto nos traz à memória a antidemocrática lei dos partidos»

CONGRESSOS COMO ESTE?<br>NEM OBRIGADOS

Mais do que o congresso de um partido tratou-se do congresso de um governo. Mais do que o congresso do PS tratou-se do congresso do governo PS.
E tanto e tão evidentemente assim foi que, a partir de certa altura, os protagonistas do governamental congresso sentiram necessidade de vir a público garantir, assegurar e jurar que aquilo a que estávamos a assistir não era aquilo a que estávamos a assistir, ou seja: que aquilo não era o congresso do governo, que aquilo era o congresso do PS… Não terão convencido ninguém do que diziam e desde logo se tornou evidente que nem os próprios estavam convencidos do que diziam.
Sendo certo que já em anteriores congressos, tanto do PS/governo como do PSD/governo, ocorreram situações da mesma família, a verdade é que talvez nunca tenhamos assistido a uma tão flagrante manifestação de fusão entre o Estado e o partido do governo, de fusão e de confusão das funções do Estado e do partido.
Para além disso, foi uma espécie de cerimónia de consagração no decorrer da qual as figuras mais destacadas do partido/governo (ou do governo/partido) falaram, falaram, falaram, em sucessivas orações de louvor à política do governo, à «coragem» do primeiro-ministro, ao «ímpeto reformista» do primeiro-ministro – e sempre, sempre, sentindo a necessidade premente de garantirem uns aos outros a condição de «esquerda» de cada um e, acima de tudo, a condição de «esquerda» do partido.
De tudo isto concluiu o primeiro-ministro o que já antes do congresso havia concluído, a saber: que «o partido está unido no apoio às políticas do Governo», e que «é falsa a tese de um PS com grandes dúvidas» nessa matéria – aliás, se dúvidas houvesse, proclamou triunfante, bastaria olhar para os 97% que o reelegeram como secretário-geral do Governo, perdão, do partido, e para o número de delegados eleitos pela sua moção ao congresso. Pois.

O primeiro-ministro marcou o tom do congresso logo na intervenção de abertura. Na forma e no conteúdo: utilizando o teleponto (com dois aparelhos colocados estrategicamente, um à sua esquerda, outro à sua direita) e correndo os olhos pela assistência, José Sócrates fingia falar de improviso - certamente pensando para si próprio que no fingir é que está o ganho; e não se cansou de exaltar os êxitos e mais êxitos da sua governação e de lançar os habituais ataques aos que, porque sentem na pele as consequências nefastas de tantos «êxitos» governamentais, manifestam o seu descontentamento contra a política de direita e lutam pela defesa dos seus interesses e direitos.
«Se julgam que intimidam os socialistas e impressionam o seu Governo, desenganem-se. Vêm bater à porta errada. Este partido já viu muita coisa e nunca se deixou intimidar» - gritou o primeiro-ministro, numa das suas já tradicionais manifestações de coragem.
Certamente, ao gritar tal afirmação, não lhe passou pela cabeça que os alvos do seu ataque não têm como objectivo intimidá-lo nem impressioná-lo e lhe exigem, tão-somente, que cumpra a Constituição da República Portuguesa, que respeite a Lei Fundamental do País – em vez de a violar todos os dias em obediência às ordens e aos interesses dos grandes grupos económicos e financeiros.
Prosseguindo, e sempre exibindo aquela coragem que tanto agrada ao grande capital, o primeiro-ministro gritou que se fartou, avisando que «Portugal não pode ser governado por quem mais grita na rua». E proclamou triunfante que «a verdadeira voz do povo» é a dele e a da maioria absoluta que o seu partido obteve, e não a dos que, fartos de sofrer as consequências dessa maioria absoluta - obtida a troco de promessas atiradas para o caixote do lixo mal foram contados os votos – lhe exigem que cumpra o que prometeu.
Informa um jornal que, ao contrário do que havia acontecido na intervenção de abertura, «que recolheu fraco entusiasmo junto dos militantes» (mais rigoroso seria dizer dos assistentes), o discurso do primeiro-ministro no encerramento do congresso «foi bem acolhido pelos congressistas» (mais rigoroso seria dizer, pelo espectadores). A explicação para tal diferença, diz a notícia, poderá ter a ver «com a alteração da disposição do palco», o qual, no encerramento, estava mais perto da plateia…
A explicação tem a sua lógica: de facto, no palco é que está o segredo.

O figurino deste pseudo congresso partidário é por de mais elucidativo: o partido, enquanto associação livre de pessoas ligadas a um objectivo comum, não tem razão de ser – o que existe é um núcleo de cérebros que decide o que todos devem querer; a participação militante é praticamente nula – aos membros do partido está reservado o exclusivo papel de objectos votantes, aos quais não é facultada a mínima possibilidade de, com a sua opinião, participarem na construção da opinião e da linha política partidárias; o funcionamento democrático é um recitativo – para tudo ser democrático, basta repetir-se tantas vezes quantas as necessárias, que tudo é democrático; o líder é o senhor todo-poderoso do partido – por efeito de predestinados dotes oratórios, mesmo que com o recurso à utilização do teleponto, ele diz como é, decide, manda, ordena; colectivo é palavra maldita – que deve ser definitivamente erradicada com punição severa para quem ouse utilizá-la.
E tudo isto nos traz à memória a retrógrada e antidemocrática lei dos partidos aprovada há cerca de três anos pelo PS e pelo PSD - os partidos da política de direita, pois claro – tendo como objectivo obrigar o PCP a deixar de ser um partido democrático e a adoptar o figurino por eles estabelecido. Congressos como este?: nem obrigados.


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