• Luís Gomes

Os trabalhadores não se deixaram intimidar
A Função Pública parou o País
Nenhum dos esforços do Governo, com a ajuda da comunicação social dominante, no sentido de denegrir os trabalhadores em luta pôde esconder a ausência de serviços públicos provocada pela greve.
Embora tenha tentado aproveitar-se do facto de muitos serviços mínimos terem sido cumpridos em sectores onde são imprescindíveis, o Governo tentou minimizar a expressão da luta, mas não conseguiu esconder a adesão de 80 por cento no primeiro dia e uma participação ainda maior no segundo - acima dos 85 por cento -, nos estabelecimentos de Saúde, de Educação, nos tribunais, autarquias e restantes serviços públicos, por todo o País, anunciou a Frente Comum dos Sindicatos da Administração Pública (FCSAP).
Pela voz do seu secretário-geral, no comício internacional de sábado, em Almada (ver suplemento), o PCP manifestou o apoio dos comunistas aos trabalhadores que cumpriram a greve. Jerónimo de Sousa afirmou a «solidariedade aos trabalhadores que levaram a cabo uma importante greve pela defesa dos seus direitos, que o actual Governo PS tenta delapidar e destruir».
Para a CGTP-IN, «o protesto dos trabalhadores do Estado foi muito maior do que nas lutas anteriores», afirmou anteontem, o secretário-geral da central, Carvalho da Silva, na conferência de imprensa sobre a revisão da Lei de Bases da Segurança Social (ver página seguinte).

A luta continuará

«Todos os trabalhadores concordam com os objectivos da luta», afirmou Ana Avoila, lembrando que o propósito «é forçar o Governo a recuar» e, por isso, ela vai continuar.
Logo no dia 9, Ana Avoila, lembrou que a greve foi o protesto pela violação constante da Lei de negociação, por parte do Governo, e salientou que «dois dias de greve é muito pesado para o bolso dos trabalhadores, o que lhe dá um ainda maior significado».
Os dados da Frente Comum foram confirmados pelos sindicatos da FESAP e STE, no segundo dia de greve, na conferência de imprensa conjunta.
Esta foi a segunda greve convocada pelas três estruturas, nos últimos quatro meses, após o protesto de 6 de Julho, contra o regime de mobilidade, entretanto aprovado pela maioria PS, e da histórica manifestação nacional da CGTP-IN, de 12 de Outubro.

Escolas sem aulas

A Frente Comum anunciou, a título de exemplo, adesões a cem por cento em 95 estabelecimentos do Ensino Básico e Secundário, e acima dos 75 por cento em mais 15, isto apenas nos distritos de Lisboa e Leiria, numa média de adesão que se confirmou a nível nacional.
No dia 10, o Sindicato dos Professores da Região Centro confirmou a subida da adesão no segundo dia e criticou o secretário de Estado da Administração Pública por ter anunciado uma adesão insignificante, acusando-o de fazer um «discurso esquizofrénico e demagógico que só pode ser condenado».
Simultaneamente, anunciou que 23 estabelecimentos do Ensino Básico e do Secundário estavam encerrados, à semelhança de muitos do 1.º Ciclo, creches e jardins de infância, salientando que a quase totalidade dos que abriram não tiveram aulas.
O sindicato também admitia que a adesão dos professores não foi tão alta como na greve de 17 e 18 de Outubro, mas recordava o esforço de toda a classe já desempenhado anteriormente e a vigília e concentração que está a decorrer desde ontem, frente ao Ministério da Educação e que termina amanhã (ver página seguinte).

Saúde nos mínimos

Na Saúde, os dados revelaram a total adesão em 12 estabelecimentos hospitalares e que quatro cumpriam apenas serviços mínimos no distrito de Coimbra, com uma adesão de 75 por cento nos serviços administrativos do Hospital da Universidade.
Em Lisboa, apesar das reportagens televisivas que tentaram dar um ar de normalidade nos serviços do Hospital de Santa Maria, a consulta cirúrgica plástica, o bloco central e o oftalmológico registaram adesões a cem por cento, à semelhança da adesão total nos hospitais de São José, de Vila Franca de Xira e do Curry Cabral, onde a participação nas consultas foi de 70 por cento, mas nos restantes serviços apenas se cumpriram os serviços mínimos.
No Porto, no Hospital de São João, o turno da noite registou uma adesão de 90 por cento e o de dia, 80 por cento. Totalmente paradas ficaram as consultas e cirurgias.
No Hospital de Gaia, a adesão foi total nas urgências, cuidados intensivos, oncologia, nos transportes e na generalidade dos serviços.
A Frente Comum anunciou, no mesmo quadro de exemplos, adesões acima de 80 por cento nos Centros de Saúde de S. Mamede, de Marvila e de Oeiras, em Lisboa, num sector que registou a mesma média de adesão por todo o País.
Os dados, na Saúde, foram confirmados pelo Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP).
O SEP anunciou adesões a cem por cento em 12 estabelecimentos e uma participação, a nível nacional, de 69 por cento no primeiro dia e de 72 por cento, no segundo.

Desprezo por quem trabalha

No primeiro dia, o Governo de José Sócrates anunciou uma ínfima adesão de 5,1 por cento, explicitando que apenas 2232 trabalhadores estavam em greve, dado que passou a 11,74 por cento, no dia 10, num acto de claro desprezo pelo protesto, constantemente assumido por responsáveis governamentais.
A este respeito, Ana Avoila afirmou esperar que o Governo reflicta sobre esta enorme participação para que ontem – data para a qual estava marcada nova ronda negocial sobre a revisão do sistema de vínculos, carreiras e remunerações – adoptasse uma postura totalmente diferente.
Ao segundo dia de luta, o Sindicato Nacional dos Trabalhadores da Administração Local, STAL/CGTP-IN, acusava o Governo de insensibilidade e lembrava, ao anunciar uma participação de 86 por cento nas autarquias, que «mais do que nas percentagens, a greve verifica-se no encerramento de inúmeros serviços municipais em todo o País, desde Juntas de Freguesia, bombeiros, empresas municipais e concessionárias». O STAL acusou o Governo de recorrer «a números ridículos e irrealistas».
Na recolha do lixo, a adesão foi de cem por cento em 12 concelhos, 95 por cento em Braga e Ponta Delgada, e a rondar os 75 por cento na média dos restantes.
Na Madeira e nos Açores também se registaram adesões que não se via há muito.
Quase todas as repartições de Segurança Social encerraram, à semelhança de muitos monumentos e museus.
Na Direcção-Geral de Viação, em parques florestais e lojas do cidadão a adesão paralisou os serviços.
Nos tribunais, o protesto foi também indisfarçável.
O Sindicato dos Funcionários Judiciais (SFJ) anunciou uma adesão superior a 75 por cento, com 64 tribunais encerrados, «apesar de algumas ameaças e atitudes menos correctas de alguns magistrados e até, infelizmente, de colegas nossos», denunciou o sindicato, em comunicado.

A intimidação não demoveu a luta

O STAL denunciou que, em centros de emprego e na GNR, os trabalhadores foram obrigados a «furar a greve».
Em Vila Viçosa, Arraiolos e Vimieiro, «elementos da GNR questionaram o piquete de greve sobre os dados de adesão» e «alguns centros de emprego disseram aos trabalhadores que não podiam fazer greve», denunciou, dia 10, o dirigente do STAL, António Santos.
Segundo o STAL, ocorreram actos de intimidação por todo o País, «sobretudo em autarquias de maioria PS», e foi denunciada a utilização de trabalhadores desempregados em substituição de trabalhadores em luta, «com a conivência de representantes do Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP)».
O STAL pediu esclarecimentos à governadora Civil de Évora e questionou o IEFP do Alentejo sobre este tipo de procedimento. Denunciou também que, em algumas escolas, os trabalhadores colocados pelo Centro de Emprego foram impedidos de aderir.
Na imprensa também ocorreram denúncias relativas a solicitações, por parte do Ministério da Educação, para que, além das percentagens de adesão, fossem indicados os nomes dos trabalhadores que fizeram greve.
Em várias instituições de Justiça, «magistrados e secretários determinaram a requisição de oficiais de justiça para prestar serviços mínimos», violando a Lei da greve, denunciou o SFJ.


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