Ana foi acusada de distribuir panfletos dentro do recinto escolar e alvo de um processo disciplinar
Escola Secundária José Macedo Fragateiro
Perseguição política e falta de condições em Ovar
O dia-a-dia dos estudantes da Escola Secundária José Macedo Fragateiro, em Ovar, não é fácil. Para além da chuva que cai em muitas salas, verifica-se um clima de perseguição aos militantes da JCP, como contam João Macedo, Rosa Costa e Ana Areias.
Quando chove em Ovar, os alunos da Escola Secundária José Macedo Fragateiro têm vontade de abrir os chapéus para se proteger das gotas que pingam dos tectos nos corredores, em algumas salas, no ginásio, no espaço polivalente e na cantina. O problema já foi levantado várias vezes pelo colectivo da JCP na escola, de que fazem parte João Paulo Macedo, Rosa Costa e Ana Areias.
«O piso fica escorregadio e é preciso limpar as mesas e o chão das salas do último andar antes de começarmos as aulas. Há panos espalhados pelo chão e, no espaço polivalente, põem baldes», declara João.
A somar à chuva, não há aquecedores para combater o frio no Inverno, faltam materiais para experiências laboratoriais e para a realização de exercícios no ginásio e, nos balneários das raparigas, nem sempre há água quente e com frequência sai ferrugem dos canos. No Verão, alguma salas são muito quentes, em especial as de Informática, por não terem janelas e o tecto ser em vidro. Como diz João, «é desconfortável. Queixamo-nos de frio, tentamos agasalhar-nos... Além disso, há poucos funcionários e temos de ficar à espera que nos abram as portas das salas, do ginásio, dos balneários para ir tomar banho...»
A cantina foi entregue a uma empresa privada este ano lectivo. O preço das refeições aumentou e a qualidade da alimentação diminui. «Antes parecia que estávamos a almoçar em casa, agora a comida vem fria, o arroz está mole e a massa quase crua», declara Ana Areias. «A comida era boa, feita por empregadas da escola. Agora nem tem tempero», comenta, dizendo que os alunos não têm autorização para pôr sal na comida, nem sequer na salada.
Rosa Costa refere que o ambiente da escola não é bom e que os estudantes só estão autorizados a utilizar a sala de estudo e a biblioteca para realizar trabalhos e não para actividades de lazer. «Não arranjam condições para estarmos na escola. Devia haver uma ludoteca», sugere.

Perseguições

Há cerca de três semanas, o colectivo da JCP produziu e distribuiu no portão, aos alunos que passavam, um panfleto sobre os problemas da escola e do ensino secundário em geral. No dia seguinte, Ana Areias foi acusada pelo conselho executivo de fazer a distribuição dentro do recinto escolar e alvo de um processo disciplinar.
«O director de turma chamou a minha mãe para justificar umas faltas, mas afinal era para falar sobre isso. Tive aulas com ele de manhã e não me disse nada, só à minha mãe é que contou que eu tinha um processo disciplinar. Eu soube por ela», lembra Ana. Só depois é que foi chamada ao Conselho Executivo. «Quase que nem me deixaram explicar o que se tinha, de facto, passado. Simplesmente não me ouviram», afirma. Ana foi pressionada para dizer os nomes dos outros estudantes que participaram na distribuição, mas recusou.
«Este episódio deu-me mais força para lutar. Os membros do conselho executivo não são ninguém para nos fazer estas acusações. Para eles, o problema é sermos da JCP», defende Ana.
«Tiveram uma atitude errada. Não estamos a insultar ninguém, estamos a lutar pelos nossos direitos», considera Rosa. Por seu lado, João afirma que se trata de «uma tentativa de reprimir a JCP». «Tentam abafar a JCP e a nossa actividade na escola. Não querem que haja opiniões contrárias às deles nem que haja justiça dentro da escola. Querem que a escola seja deles, e não dos estudantes, feita apenas pelos professores e sem a nossa opinião. Somos nós que andamos lá a estudar», salienta.
Ana, Rosa e João consideram que qualquer outra juventude partidária não teria este tratamento. «Se fosse a JSD, isto não acontecia», garante Rosa, referindo que a presidente da conselho executivo é militante do PSD. «A verdade é que não há outras juventudes partidárias a intervir em Ovar», acrescenta João.

Colectivo da JCP
Passar de 2 para 10 militantes em dois meses


Em Setembro o colectivo da JCP da Escola Secundária José Macedo Fragateiro tinha dois militantes, hoje tem dez. «Conseguimos chamar amigos e fazer com que as pessoas se começassem a interessar pela luta, pela nossa actividade e pelo nosso convívio. Alguns não estão inscritos, mas estão sempre disponíveis para ajudar e participar nas nossas actividades», conta João Paulo Macedo, militante há um ano.
Rosa Costa inscreveu-se em Outubro. «Já no ano passado o João me tinha falado da JCP, mas eu tinha uma ideia errada e não quis vir. Este ano ele voltou a falar nisso e eu vim ver como era e mudei completamente a minha opinião», recorda.
Rosa leu com frequência a proposta de resolução política do Encontro Nacional do Ensino Secundário da JCP na escola, durante a hora de almoço, debatendo com outro camarada do colectivo. Alguns colegas iam ouvindo e começaram a interessar-se e a fazer perguntas. Vários acabaram por se inscrever. Foi o caso de Ana Areias. «A Rosa falou-me da JCP, estive a ler a resolução política e gostei», afirma, acrescentando que aderiu à JCP pela «vontade de lutar e de querer mudar o que está mal».
Para Cristina Cardoso, membro da Comissão Política da JCP, «o que levou a este crescimento foi o empenho dos militantes em todas as iniciativas da JCP». «É um grupo de amigos – isso vê-se na quantidade de pessoas que chamam ao Centro de Trabalho nas diversas iniciativas – e há uma alegria muito grande, porque sentem que a JCP é um espaço de convívio e de muito trabalho, mas que nos permite transformar a sociedade. Com o crescimento da actividade, aumenta a compreensão do que é a JCP e isso leva a que as pessoas se sintam mais incentivadas para trazer outras», considera.
O próprio Centro de Trabalho de Ovar do PCP ganhou mais vida com o crescimento do colectivo, nomeadamente com o bar a abrir de 15 em 15 dias com iniciativas de convívio e debates.
«O essencial vai-se aprendendo no dia-a-dia. Neste caso, há a vantagem de eles estarem juntos quase todos os dias na escola, mas também reúnem regularmente, o que é fundamental para debater os problemas, esclarecer posições da JCP e tomar decisões», acentua Cristina Cardoso.

PCP questiona Ministério no Parlamento

O Grupo Parlamentar do PCP apresentou um requerimento na Assembleia da República, na semana passada, interrogando o Ministério da Educação sobre a coacção de Ana Areias pela direcção da Escola Secundária José Macedo Fragateiro.
O deputado Miguel Tiago sublinha que estas acção são «persecutórias e desrespeitadoras da liberdade política da estudante», lembrando que o conselho executivo já tinha demonstrado comportamentos de falta de respeito em relação à autonomia e liberdade estudantil ao retirar todos os cartazes de mobilização para a manifestação de dia 14, proibir os estudantes de participarem e dificultar a formação da Associação de Estudantes.
No requerimento, Miguel Tiago pergunta ao Governo quais as orientações que emite para as direcções regionais de educação e para os estabelecimentos de ensino sobre a autonomia estudantil e que controlo é feito sobre os regulamentos disciplinares dos estabelecimentos de ensino.



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