• Pedro Campos

«Vantagem de vinte pontos percentuais para o lado bolivariano»
Eleições presidenciais na Venezuela
Oposição incita ao golpe de Estado
A Venezuela tem eleições presidenciais a 3 de Dezembro e ninguém parece duvidar da vitória de Hugo Chávez. A incógnita é qual será a reacção antichavista.
Uma sondagem realizada recentemente por Hinterlaces, uma empresa claramente ligada à oposição, fala de uma vantagem de vinte pontos percentuais para o lado bolivariano, segundo o resultado de mais de «13 mil contactos telefónicos» actualizados diariamente com 1500 chamadas em todo o país. No mesmo sentido apontam (quase) todas as outras sondagens das últimas semanas, se bem que a vantagem varie de empresa para empresa. Há, porém, um ou dois estudos que apontam para uma derrota do chavismo, naquilo que se entende como uma estratégia conspirativa das forças reaccionárias, que não têm a mínima intenção de aceitar a sua derrota e que desde há várias semanas andam, dentro e fora do país, a denunciar que os resultados finais serão fraudulentos… se não ganhar o seu candidato.
Para uma oposição claramente enfeudada aos interesses imperiais de Washington, que viu na recente derrota de Bush uma tragédia própria, todas as vitórias sucessivas dos votantes bolivarianos são resultado de fraudes, porque o actual e também o anterior Conselho Nacional Eleitoral estariam «vendidos» ao chavismo. Evitam, porém, falar de um facto que destrói, de raiz, essa afirmação.

Candidato da oposição e golpista por vocação

O principal candidato da oposição, Manuel Rosales – personagem altamente comprometida com tudo o que de mais negativo teve a IV República –, é nada mais nada menos do que um dos dois únicos governadores de oposição eleitos há um par de anos, num processo organizado pelo CNE anterior, alegadamente fraudulento, mas que foi reconhecido pela União Europeia e pela Organização dos Estados Americanos, entre outros organismos internacionais, como totalmente limpo e legítimo.
Curiosamente, este Rosales, que governa o estado Zúlia, petrolífero por excelência e o mais importante do país, é o mesmo Rosales que apoiou o golpe de estado de 2002 e assinou a acta de criação do «reinado» de Carmona, segundo a qual se instituía um governo de facto e se dissolviam, por decreto, todos os poderes públicos constitucionalmente eleitos. Confrontado com esta participação activa no golpe pró-imperialista, Manuel Rosales, pela boca do seu chefe de campanha, desculpa-se dizendo que aquilo foi «num momento de confusão».
Idêntica «confusão» deve ter vitimado igualmente o dito chefe de campanha, que assinou também a mesma acta!

A estratégia de Rosales

Nas últimas eleições legislativas, à última hora e depois de várias cedências difíceis de entender por parte de um CNE que alegavam estar «vendido», a reacção venezuelana optou por não participar e ficou sem representação na câmara de deputados, num país que é unicameral. Essa foi a sua forma de conspirar e obedecer à estratégia de Washington. Depois de difícil parto, parece ter concluído que esse não era o caminho, pelo que após ter anunciado repetidas vezes que não entraria na presente corrida presidencial, finalmente decidiu participar, porque essa terá sido a ordem de Bush. Então apressou-se a retirar da sua argumentação abstencionista o cavalo de batalha de que as máquinas de identificação biométrica impediam o anonimato na hora de votar, e da noite para o dia as tais máquinas passaram a ser inofensivas. Contudo, seja porque as sondagens continuam sendo claramente confrangedoras, seja porque faltou tempo para desintoxicar o seu eleitorado sobre esses diabólicos aparelhos, Manuel Rosales e o seu comando político voltaram a dar o dito por não dito e satanizam de novo as pobres maquinetas…
O que é que pode estar por detrás desta estratégia? A resposta encontra-se nas declarações públicas (e descaradas) das personagens mais representativas da reacção antibolivariana: o desconhecimento dos resultados eleitorais. E a sequência das acções, incluindo o convite ao golpe de Estado, é anunciada nos meios de comunicação. No dia 3 de Dezembro vota-se. No dia 4, porque o CNE vai anunciar a vitória das forças progressistas, denuncia-se que houve fraude, sai-se para a rua e Rosales (se estiver à «altura do momento») encabeçará uma «revolução ucraniana». No dia 5, os militares deverão decidir se continuam «a apontar as suas armas contra o povo e a impor um regime nazi» ou optam por acabar com o processo revolucionário.
Assim está a situação hoje. Entretanto, não seria uma surpresa se umas horas antes das eleições, alegando falta de condições políticas, decidissem não participar, mas avançar com uma «revolução à ucraniana», na esperança de que, na impossibilidade de triunfar pela via democrática, se possa voltar ao passado com uma acção militar, mesmo que vinda de fora. Para já, ingerência e provocações da CIA e paramilitares colombianos infiltrados nos bairros populares são «argumentos» que não faltam.

Pérolas de Rosales

A catadura moral do candidato da oposição vai a par com o seu vulto de homem de Estado – ou de simples ser pensante –, revelado através de algumas declarações públicas, onde rivaliza intelectualmente com George Bush, o seu modelo.
Um par de pérolas ao acaso. Se o mentiroso de Washington é capaz de afirmar: «Temos perdido muito tempo a falar de África com justiça. A África é uma nação que sofre de uma incrível doença», Manuel Rosales não lhe fica atrás e assombra-nos com esta: «Se a mim me matam e morro, responsabilizo este governo». E se o terrorista da Casa Branca nos sai com que «Muitas das nossas importações vêm do estrangeiro», logo Rosales é capaz de o «vencer» com esta: «Nós vamos melhorar a insegurança» ou com estoutra: «Chávez quer durar 100 anos, o que é quase um século».
Mas não é realmente a capacidade intelectual – evidentemente muito escassa – de Manuel Rosales o que pode gerar preocupação, mas sim a sua honestidade de cidadão e de homem político a participar numa eleição política fundamental.

Um país em marcha

Enquanto a reacção conspira, como vai a Venezuela?
O PNUD afirma que o país avança em termos de qualidade de vida e isso vê-se claramente nos números. Desde há trezes trimestres que a economia venezuelana está a crescer a um ritmo nunca antes visto.
Alguns exemplos de crescimento durante o terceiro trimestre de 2006 comparativamente com o mesmo período de 2005: Produto Interno Bruto –10,2%; construção de habitações – 57%; construção não-residencial – 28,1%; comunicações – 22,2%; industria – 10,1%.
Neste contexto, não é raro o comentário de comerciantes e industriais no sentido de que «devíamos ser chavistas, mas isso é impossível!». Numa edição recente de uma revista especializada em gestão, encontramos algumas declarações difíceis de não reproduzir. Um gestor de topo da Ford afirma que a indústria cresceu perto de 45% e que a sua marca fê-lo entre 75 e 80% num ano. O presidente de Novartis (indústria farmacêutica), fala de aumentos de vendas na ordem dos 30%, «porque se incorporaram ao mercado pessoas dos segmentos baixos da sociedade». A empresa Movistar (telemóveis) reconhece que o mercado cresce rapidamente: 60%. Num só ano, a Hewlett Packard admite que incrementou os seus negócios em 62%. Um dos amos no campo da distribuição de energia eléctrica admite ganhos multimilionários no trimestre mais recente. A Cemex, indústria da construção, não fica à margem e aceita que leva dez trimestres a vender mais.
Entretanto, o governo bolivariano segue «a passo de vencedores»: lado a lado com Lula da Silva, inaugura uma segunda ponte sobre o rio Orinoco; entram em funcionamento novas linhas do metropolitano de Caracas; estreia-se o comboio que une a capital a uma importante cidade-dormitório; entra em serviço o transporte subterrâneo de Valência, a terceira cidade do país; põe-se ponto final no analfabetismo; abre ao público o que é, sem dúvida alguma, o melhor hospital de cardiologia infantil de toda a América.
A vitória bolivariana tem muitas razões de ser e a principal de todas é que, pela primeira vez em séculos, há um governo a olhar para os desfavorecidos de sempre… que são a esmagadora maioria.


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