Editorial

Contas feitas, o lucro conta-se aos milhares de milhões

O EMPURRÃO

Quando entra o último mês do ano, não é verdade que, para todos, se entre no afã das compras. Uns hão-de fazê-lo, a maioria fica de nariz colado à vitrina. Mas, se há no País alguma ideia ou alguma prática que una todos os portugueses, sem distinção de classes, isso será considerar Dezembro como o mês em que se faz balanço e se urdem as expectativas para o ano seguinte. Portugal – como o resto do mundo, ao que parece – entra no afã das contas. Das contas à vida, das contas às bolsas, do porta moedas vazio ao cofre a abarrotar de acções ou ao lucro colocado off-shore, das contas à política que à maioria emagrece e à minoria engorda, das contas às promessas ouvidas e aos resultados delas.
E lá surge, de novo, o País, os países, divididos em classes. Uns poucos a achar que bom, outros muitos a lamentar a maldade do ano que finda e a olhar com apreensão os tempos que aí vêm se o andar da carruagem se mantiver assim. Sem excepção, por todo o lado se deita contas à vida. E há mesmo países onde os povos deitam contas às mortes. No Iraque, por exemplo. E até nos Estados Unidos, onde a maioria contou recentemente os seus mortos e, na contagem dos votos nas últimas eleições, exprimiu com clareza a opção de condenar a guerra. Talvez aí, a minoria lamentasse que os lucros da guerra estivessem em perigo de diminuir no próximo ano. A Venezuela é um dos raríssimos países em que o povo faz um balanço positivo. E onde a minoria de exploradores tem tudo a temer do futuro que aí vem.

Em Portugal, país aliado, alinhado e subserviente à ditadura dos maiores do mundo, com uma maioria parlamentar, um Governo e um Presidente apostados em serem mais papistas que o Papa, as contas são claras, por muito que na propaganda do sistema domine a cor-de-rosa do «bem comum» e dos «sacrifício para todos». Sócrates gaba-se de que o povo lhe sufragou as ideias. Contas feitas, porém, estamos certos de que a grande maioria dos portugueses, atingidos pelo agravamento da política de direita, não estaria hoje disposta a sufragar-lhe a prática. O fosso entre as promessas eleitorais e os resultados da política levada a cabo e também anunciada por obra e graça de um Orçamento de Estado que em tudo indica o caminho descendente para o bem-estar dos trabalhadores, das mulheres, dos jovens, dos reformados, dos deficientes, aprofunda-se e anula as expectativas mais optimistas dos mais iludidos. Por outro lado, o caminho da exploração e do corte de direitos dos trabalhadores e das populações, aplanado e liberal, faz com que o capital esfregue as mãos. Contas feitas, o lucro conta-se aos milhares de milhões. Expectativas traçadas, não há melhor vida que aquela que o Governo cumpre para os exploradores.

Os lucros das empresas do PSI-20 – aquelas cotadas no chamado Euronext Lisboa – disparam, assinala um trabalho de duas jornalistas do Diário Económico. «As melhores empresas da bolsa fecharam contas do terceiro trimestre com resultados líquidos acima dos três mil milhões de euros», escrevem Patrícia Henriques e Paula Alexandra Cordeiro. «Apesar de a economia continuar estagnada», adiantam, «as maiores empresas cotadas no Euronext Lisboa registaram um crescimento de 27 por cento nos seus resultados líquidos acumulados entre Janeiro e Setembro. A explicação vai para as reestruturações, que permitiram reduzir os custos, uma vez que as vendas subiram apenas 6 por cento».
Estamos habituados ao que a linguagem cifrada da economia neoliberal quer dizer quando trocada pelos miúdos da vida concreta. Sabemos o que é flexibilização, que permite dispor do trabalho sem direitos. Sabemos o que significa muitas vezes «reestruturação», que tantas vezes quer dizer encerramento de empresas, despedimentos e outros males que atingem os trabalhadores para que a economia «melhore». Entretanto, para esta euforia dos resultados do capital, contribui decisivamente a banca. «Bancos dão um “empurrão”», escrevem as jornalistas, revelando que «o peso das três entidades bancárias na composição do principal indicador da bolsa lisboeta» é de 34 por cento e que «os resultados do sector bancário continuam a ser um dos motores dos lucros do PSI-20». «Em média», esclarecem, «os três bancos viram os seus lucros aumentar 18,3 por cento, contribuindo com cerca de 1080 milhões de euros para o total apresentado pelas empresas que compõem o PSI-20».

As expectativas, porém, são maiores ainda para os empresários portugueses, que esperam nada menos que o maior aumento de lucros da Europa para o próximo ano. Segundo revela um estudo do Eurochambres, veiculado pela Agência Financeira, as previsões para Portugal apontam para um PIB per capita de 14 770 euros no ano que vem, acima dos 13 950 de 2006. Desdizendo as previsões do Governo, o estudo aponta, contudo, para um défice maior e um abrandamento nas exportações. Quanto à taxa de desemprego, «não sofrerá grandes alterações»...
Temos, portanto, que, deitadas contas à vida e projectadas as expectativas para o ano que vem, a «economia» deles está bem e recomenda-se. E que, do lado dos trabalhadores, são de esperar mais cortes no orçamento das famílias. Como deixa prever, por exemplo, o novo aumento da taxa de juro do Banco Central Europeu que vai de imediato engordar a Banca e fazer disparar mais uma vez as prestações para a habitação.
Mas as promessas continuam. Os deficientes são de novo brindados com promessas velhas que nunca foram cumpridas, enquanto o Orçamento de Estado lhes reduz subsídios e regalias sociais.
Por nosso lado, prometemos: a luta contra esta política vai também continuar.


 Versão para imprimir            Enviar este texto            Topo

Outros Títulos: