• Gustavo Carneiro

No 45º
aniversário da
Fuga
de
Caxias
A Fuga de Caxias foi há 45 anos
Dedicação à prova de bala
Há 45 anos, no dia 4 de Dezembro de 1961, oito destacados militantes comunistas evadiram-se do Reduto Norte da prisão de Caxias num carro blindado, perante o olhar impotente dos carcereiros. Realizada em poucos segundos e apenas com recursos do interior da prisão, tratou-se de uma das mais audaciosas fugas dos cárceres fascistas.
«Golo!» O grito de José Magro ecoou pelo pátio da prisão de Caxias na manhã do dia 4 de Dezembro de 1961, à hora do recreio dos presos. Era o sinal combinado: em menos de cinco segundos, sete presos comunistas entram num carro blindado que estava parado no pátio. Ao volante encontrava-se um outro recluso, que muitos julgavam «rachado». Os guardas, apanhados de surpresa, demoraram a reagir.
Com os oito homens dentro do carro, este arranca em direcção ao portão principal, que não resiste ao embate e cede. Dez segundos depois, o carro está fora da prisão e ruma à auto-estrada, sob os disparos da GNR. Chegados a Lisboa, a viatura é abandonada e os seus ocupantes refugiam-se em casas seguras.
Entre o momento de entrada dos fugitivos para o carro e a entrada na auto-estrada passaram apenas 65 segundos. Mas a fuga de Caxias não foi fruto da sorte ou da improvisação. Foi, sim, o resultado de uma intensa preparação e audácia e da vontade inabalável de retomar a luta antifascista que fervilhava para lá dos altos muros da fortaleza de Caxias.

O falso «rachado» e o carro blindado

A fuga de 4 de Dezembro culminou um longo e intenso processo de estudo de possibilidades de evasão. Umas atrás das outras, foram sendo inviabilizadas pelas frequentes alterações na composição das salas destinadas aos funcionários do Partido e nas normas de funcionamento interno da cadeia. Com a fuga de Peniche, em Janeiro do ano anterior, a segurança aumentou. A evasão era cada vez mais difícil.
Era necessário fazer o reconhecimento do Forte e estudar as possibilidades de fuga. Mas como consegui-lo? José Magro, dirigente do Partido com largos anos de cativeiro, encarrega António Tereso de uma difícil missão: explorar as hipóteses de evasão. Mas para isso, teria de fazer-se passar por «rachado», fingindo que se tinha passado para o lado dos carcereiros e sujeitando-se ao desprezo dos seus camaradas.
A operação era delicada e o sigilo teria de ser absoluto. Tereso resiste, mas acaba por aceitar. A dedicação ao Partido justificava o sacrifício. A cada dia que passa, o falso «rachado» vai ganhando habilmente a confiança dos guardas e da direcção da prisão. Desta forma, conquista uma liberdade de movimentos rara para um prisioneiro. É graças a ela que descobre, na garagem da cadeia, um carro blindado pertencente ao próprio Salazar. Estava ali a oportunidade desejada.

Uma corrida contra o tempo

Sempre em contacto com a Direcção do Partido no interior da prisão, António Tereso começa a preparar a fuga, que se torna numa verdadeira corrida contra o tempo. À beira de sair em liberdade e com os restantes camaradas com penas atribuídas e em vias de serem transferidos para Peniche, teve que acelerar os preparativos.
Num curto espaço de tempo, era necessário pôr o carro a funcionar, tornar normal a sua utilização e circulação pela cadeia e estudar a forma de o fazer chegar ao fosso interior, o único local a que os restantes presos poderiam ter acesso. Tudo isto foi feito com invulgar mestria.
Enquanto isso, a Direcção do Partido na prisão debatia os pormenores da fuga. A data foi decidida: 4 de Dezembro. Os participantes na fuga são colocados ao corrente do plano. Tereso aproveita ainda para sabotar os restantes carros, de forma a evitar qualquer perseguição.

Uma manhã aparentemente igual às outras

Às 8.30 horas da manhã do dia 4 de Dezembro de 1961, os dez reclusos da sala 2, todos quadros clandestinos do Partido são avisados, como normalmente acontecia, para se prepararem para o recreio. Eram nove horas quando os comunistas são conduzidos ao Fosso Interior por um guarda prisional. Começava o recreio de meia hora sob a vigilância directa de três guardas da GNR, armados com espingardas, e por guardas da cadeia. Aparentemente, tratava-se de uma manhã normal…
Pouco depois, com o plano de fuga já em marcha, o recreio foi interrompido. Uma carrinha da PIDE vem recolher para interrogatório alguns presos que se encontravam nas casamatas existentes no local onde se iria desenrolar a fuga. Entretanto, António Tereso, que havia recebido o sinal a partir da sala 2 que se ia iniciar o recreio, dirige-se ao túnel que liga ao Fosso Interior e certifica-se que os presos que iam fugir já estavam no recreio. Com o carro em marcha atrás, dirige-se para o túnel, tarefa difícil dada a largura do carro quase coincidir com a do portão.
Às 9.34 horas, a cinco minutos do fim do intervalo, o carro é colocado no centro do Fosso Interior. Os presos ladeiam o carro, em conformidade com as portas previamente distribuídas para a entrada dos dois grupos em que se dividiam os fugitivos. Os guardas não estranham a presença do carro. Um grito ecoa pelo pátio: «Golo!»


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