Editorial

«José Sócrates alterou o guião e roubou o papel de oposição ao PSD»

UMA QUESTÃO DE IMAGINAÇÃO

É grande a turbulência que assola as hostes do PSD. Destacados dirigentes daquele partido – entre eles o presidente, Marques Mendes – travam acesa disputa em torno da angustiante questão de saber se o PSD é ou não oposição ao Governo de José Sócrates – e, se é, por que é que não se nota; e, se não é, como é que pode vir a parecer que é.
Os opositores internos do líder gritam que o PSD não faz oposição ao Governo, acusam a liderança de «falhanços clamorosos», garantem que o «programa político do partido não se distingue da estratégia política do PS» - se é certo que não lhes falta razão no que dizem, também é verdade que não avançam qualquer novo «programa político», nem explicam o motivo pelo qual o referido «programa político», apesar de ser o mesmo, antes servia e era distinto do programa do PS e agora não serve.
Riposta Marques Mendes acusando quem o critica de estar «a fazer o jogo do Governo» e clamando que «chegou a hora de o PSD decidir se quer ser oposição aos socialistas e a José Sócrates ou se, pelo contrário, prefere optar por fazer o jogo do PS» - e assim, fugindo para dentro, furta-se, também ele, a responder à acusação de ausência de oposição que lhe é feita e das suas causas.
Quer tudo isto dizer que tanto o líder do PSD como os seus opositores internos não foram capazes, até agora, de encontrar o espaço de intervenção ajustado à nova situação existente. Ou, dito de outra forma: a política praticada por José Sócrates, roubando ao PSD o espaço de intervenção convencionado entre os dois partidos há trinta anos, remete a direcção do PSD para um deserto de soluções em matéria de cumprir a tarefa que lhe compete de se fingir oposição.

O líder do PSD e os seus pares sabem certamente que não é possível fazer oposição a uma política com a qual se concorda inteiramente. E é essa a situação que, hoje, se lhes apresenta.
Se não vejamos: olhando para o filme dos últimos trinta anos de governos assistimos a um desfile de imagens e de cenas nas quais apenas mudam os papéis dos principais protagonistas: o PS e o PSD. Se o primeiro está no governo o segundo finge discordar dele e ser oposição. Se é o segundo a estar no governo, compete ao primeiro desempenhar o papel de opositor. Constata-se igualmente que quer um quer outro, quando no governo, tem sempre a preocupação de, na execução da política comum aos dois, criar umas pequenas abertas que facilitem ao colega a tarefa de ser oposição, para o caso umas quantas medidas insignificantes, pequenas deixas que permitem ao «opositor» exibir uns quantos brilharetes oposicionistas. Daí vermos nesse filme com trinta anos de existência a cena recorrente de, quer o PSD quer o PS, quando não estão no governo, nunca serem de facto oposição à política praticada pelo governo em exercício e serem, isso sim, oposição ao respectivo governo – com cada partido a tentar substituir o outro nessas funções para ir fazer a mesmíssima política de que antes havia fingido ser opositor.
Ora, o filme agora é outro. O Governo de Sócrates, mais papista do que o papa, mais direitista do que qualquer dos seus antecessores, alterou o guião e roubou o papel de oposição ao PSD.

Assim, na situação actual, o que torna as coisas difíceis para o partido que desempenha o papel de oposição (no caso o PSD) é o facto de o que está no governo (no caso o PS) ter vindo a fazer uma política tão, tão à direita, que não dá a mínima hipótese de o outro se fazer passar por oposição. Há que reconhecer que, nesse aspecto, o Governo de José Sócrates, mudando as regras do jogo, imprimiu à sua governação um cunho de «modernidade» e de «coragem»: faz tudo o que o governo de um partido de direita faria e faz ainda o que esse governo não teria condições para fazer. Nestas circunstâncias, nenhum partido de direita, por mais à direita que se situe, tem o mínima pretexto para se opor seja a que medida for das que este Governo tem vindo a tomar e se prepara para prosseguir.
Daí a desorientação e as desavenças internas no PSD: os dirigentes laranja não sabem o que fazer e, tal como em casa onde não há pão, ralham uns com os outros e todos (ou nenhuns) têm razão.
Face a tamanha desorientação, eis que um ex-líder do PSD – Marcelo Rebelo de Sousa – veio a público explicar como é. Opina ele que estas zaragatas, para além de não constituírem qualquer «novidade», são uma «inevitabilidade», pelo que não se lhes deve dar uma importância por aí além. Importante é, sim, o que diz respeito às «diferenças entre os programas políticos do PS e do PSD» Ele explica: é um facto que «teoricamente existem programas diferentes» - mas, sublinha judiciosamente, só «teoricamente». Assim sendo, prossegue o ex-líder do PSD, o que é necessário é olhar para a Europa e aplicar aqui, em Portugal as modernidades europeias, as quais, na situação concreta, podem traduzir-se assim: «quer a oposição, quer o Governo têm que ter imaginação para encontrar e construir diferenças».

Não se pode ser mais claro e o desplante não pode ser maior: «imaginação para encontrar e construir diferenças» inexistentes é o que é preciso. Tudo se resume, afinal, a uma simples questão de «imaginação».
Trata-se da assunção pública de prática ofensiva da inteligência dos cidadãos, a saber: iludir o eleitorado, fechando-o no cerco cada vez mais cerrado do voto ora no PS ora no PSD - sempre com a promessa de uma alternativa cheia de bem-aventuranças, mas sempre recebendo em troca uma fraudulenta alternância carregada de mais do mesmo.


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