«Haniye apelou à unidade entre o povo palestiniano»
Encerradas negociações para formar governo na Palestina
Abbas convoca eleições antecipadas
O presidente da Autoridade Nacional Palestiniana, Mahmoud Abbas, convocou, sábado, eleições antecipadas no território. A decisão reacendeu os confrontos entre os partidários de Abbas, a Fatah, e o Hamas, do primeiro-ministro Ismail Haniye.
Entretanto, na noite de domingo, ambas as partes acordaram um cessar-fogo ordenando às facções em conflito que se abstenham de esgrimir argumentos de forma violenta, como vinha acontecendo nos dias anteriores.
Na manhã de segunda-feira, em Gaza, as esporádicas rajadas de metralhadora que quebraram a rotina não foram suficientes para voltar a altercar os ânimos. Apesar da acalmia, o comércio permanece fechado e raros são os veículos que circulam nos limites da cidade.
No balanço dos confrontos entre activistas do Hamas e da Fatah, só durante o fim-de-semana, morreram três pessoas e mais de 30 resultaram feridas.
Instado a comentar os acontecimentos das últimas horas, o primeiro-ministro, Ismail Haniye apelou aos palestinianos para que respeitem o cessar-fogo decretado pelas cúpulas partidárias. Nestas declarações, Haniye não voltou ao tema do momento no território, a convocação de eleições antecipadas, mas um porta-voz do Hamas reiterou que a solução da actual crise continua a residir na formação de um governo de unidade nacional, possibilidade que, ao contrário de Abbas, os dirigentes do Movimento vencedor das legislativas não consideram esgotada.
A constituição de um governo de coligação envolvendo o Hamas e a Fatah tem sido o prato forte dos encontros entre os dirigentes palestinianos, mas o consenso não foi alcançado devido a alegadas divergências quanto à distribuição das competências executivas no virtual governo.

Convocatória inesperada

Poucos acreditavam que Abbas convocasse eleições antecipadas no território, mas o facto é que o dirigente máximo da Fatah decidiu chamar os palestinianos novamente às urnas. A medida é justificada com a necessidade de pôr um termo à crise política que se arrasta no território administrado pela ANP desde que o Hamas ascendeu ao governo, em Março de 2006. O presidente insiste que o Hamas tem que reconhecer publicamente a legitimidade do Estado de Israel, mas o partido não parece disposto a fazê-lo, pelo menos até que Telavive faça o mesmo quanto ao Estado Palestiniano.
Como represália, no segundo trimestre deste ano, UE e EUA impuseram sanções ao executivo palestiniano que passam pela suspensão da ajuda financeira prometida pela «comunidade internacional» caso fossem realizadas eleições dentro dos padrões ocidentais. O sufrágio foi considerado livre e justo por todos os observadores, mas a vitória do Hamas precipitou as represálias.
Acresce o bloqueio às transferências financeiras devidas pelos israelitas aos palestinianos por cobrança de impostos e direitos alfandegários, montantes que, somados, resolveriam problemas como a falta de pagamento dos salários aos cerca de 200 mil funcionários públicos, motivo de amplo descontentamento entre a população.
Muito embora esteja contra as eleições antecipadas, o Hamas não travou o processo de actualização dos cadernos de recenseamento entretanto posto em marcha.

Atentado contra Haniye e manifestação

Dois dias antes do anúncio de Abbas, o primeiro-ministro palestiniano participou no comício do 19.º aniversário do Hamas. Nas comemorações, Haniye apelou à unidade entre o povo palestiniano e rejeitou o derramamento de sangue entre irmãos.
Horas antes, Haniye foi alvo de um atentado em Rafah quando regressava de um périplo por vários países do Médio Oriente. Na intentona, o filho do primeiro-ministro foi ferido com gravidade e um dos seguranças morreu.
Haniye não acusou ninguém pela tentativa de assassinato, gesto que muito contribuiu para que os ânimos no território não se incendiassem ainda mais.

Israel insiste nas perseguições

Com a divisão patente entre as cúpulas do poder palestiniano, Israel parece ter caminho aberto para continuar com as detenções e perseguições de activistas na Cisjordânia.
Em Hebron, os serviços de segurança de Israel prenderam 60 pessoas acusadas de pertencerem à Jihad Islâmica e de preparem atentados contra o país. Em Naplusa outros oito palestinianos foram encarcerados pelas forças sionista com as mesmas suspeitas.

Crimes de guerra sem castigo

Segundo um relatório do Fundo das Nações Unidas para a Infancia (UNICEF), o número de crianças palestinianas mortas em ataques do exército israelita durante o ano corrente já ultrapassou o dobro dos registados no ano de 2005.
Aquele organismo afirma que os menores contabilizados como vítimas directas da violência e das constantes agressões militares foram, até Dezembro, 123, fazendo do ano de 2006 um dos mais sangrentos de sempre no território.
Para Michael Bociurkiw, porta-voz da organização, os direitos colectivos dos menores na Palestina encontram-se seriamente atingidos desde que, em Março, os EUA, a UE e Israel decretaram um boicote financeiro contra o governo da ANP.
A maioria da população, explicou ainda, sofre de carências profundas nas mais básicas necessidades humanas. A escassez de alimentos, medicamentos e saneamento básico faz parte do quotidiano de cerca de um milhão de pessoas só na Faixa de Gaza. 60 por cento dos palestinianos sobrevivem abaixo do limiar da pobreza, afirmam estatísticas recentes.

Ajuda urgente

Antes da divulgação deste relatório da UNICEF, já a Agencia da ONU para os Refugiados Palestinianos (UNRWA) havia lançado um pedido urgente de ajuda à «comunidade internacional».
De acordo com a UNRWA, são necessários 246 milhões de dólares de auxílio para responder às primeiras necessidades da população palestiniana, mas o valor estimado por uma dúzia de agências da ONU e 4 ONG’s a operarem na Cisjordânia e Faixa de Gaza para o ano de 2007 ascende aos 450 milhões de dólares. Israel mantém retidos cerca de 500 milhões de dólares do governo palestiniano referentes a impostos e tarifas fronteiriças.
A UNRWA revelou também que o nível de vida na Palestina caiu para índices equivalentes aos de há 40 anos atrás, sendo que os mais afectados são as crianças, mulheres e idosos.

Solução final israelita

A par desta prática de genocídio de um povo, em Israel o Supremo Tribunal pronunciou-se pela legalização das execuções extrajudiciais levadas a cabo pelo exército do país contra alegados «terroristas» palestinianos. A decisão é válida para os próximos seis anos, isto é, nesse período, todas as incursões israelitas em territórios palestinianos cujo objectivo e resultado sejam o assassinato selectivo de dirigentes da resistência palestiniana estão cobertos pela legitimidade judicial de Israel, logo, nenhum dos seus autores ou responsáveis pode ser processado nos tribunais do país.
A primeira vítima «legal» foi um jovem palestiniano de Kafer que, com outros, lançavam pedras contra o avanço dos tanques. Em Naplusa, um suposto dirigente da Jihad Islâmica foi abatido por soldados que invadiram a casa onde vivia.
Em 2000, a organização de defesa dos direitos humanos Law e a Comissão contra a Tortura de Israel apresentaram uma queixa em tribunal contra os ataques selectivos, mas a decisão agora tomada encerra qualquer possibilidade de contestação à linha oficial sionista.


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