• Vasco Cardoso

O grande ditador
Foi para o ar, nesta terça-feira, não a obra sublime de Charlie Chaplin, como o título poderia sugerir, mas sim mais uma edição do programa «Grandes Portugueses», desta vez dedicado ao dirigente fascista António Salazar. Durante cerca de uma hora de emissão – na estação pública de televisão – assistimos ao obsceno enaltecimento das «virtudes» do ditador como «político honesto, competente, inteligente, que governou o país num século de guerras e crises. Conduziu-o com mestria internacionalmente, depois de encontrar uma solução financeira e institucional para o fracasso do parlamentarismo partidário».
Este documentário, é apenas parte de uma operação mais vasta que visa, como temos dito, o branqueamento do fascismo, dos seus crimes e protagonistas e, simultaneamente, a equiparação e condenação daqueles que o combateram, sendo que, na primeira linha dessa luta, estiveram (e estão) os comunistas. Operação esta, que ganhou novo fôlego no quadro da «nova ordem internacional» que o imperialismo tenta impor, tendo sido objecto – entre outras medidas – de uma tentativa de resolução do Conselho da Europa no sentido de equiparação do nazifascismo ao comunismo e que tem tido, particularmente nos ex-países socialistas, medidas concretas de criminalização do ideal comunista.
Este programa da RTP é hoje, na versão doméstica, a parte mais visível dessa mesma ofensiva. Das dez figuras escolhidas para «grandes portugueses», a inclusão de Salazar e do camarada Álvaro Cunhal é tudo menos inocente ou ocasional. Aliás, se olharmos para o conjunto de comentários, artigos de opinião ou intervenções dos diferentes convidados e comentadores do programa, pouco mais sobra do que a sistemática comparação entre um e outro.
Como comunistas, não confundimos o grande reconhecimento pelo povo português da vida e da luta de Álvaro Cunhal – como aliás ficou demonstrado na gigantesca homenagem que o país fez no seu funeral – com a instrumentalização que está a ser realizada através deste mesmo programa. Esta comparação é um asqueroso insulto, não apenas à memória dos que sofreram na pele os crimes do fascismo, mas também a todos os que hoje lutam pela liberdade, pela democracia e pela paz.
Independentemente do resultado (rigoroso ou não) a que a «votação» no programa conduza, a verdade é que estamos perante mais uma sofisticada e eficaz falsificação da história. Seria imprudente subestimar o efeito perverso que tal campanha terá em milhares de cabeças, sobretudo daqueles que nasceram depois da Revolução de Abril – e já são muitos. No plano da luta das ideias, esta será seguramente uma das mais importantes batalhas que temos pela frente. Que no mínimo cada um se sinta indignado!


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