Na despedida a Sérgio Vilarigues
«Sem ele, o PCP não seria o que é»
Sérgio Vilarigues faleceu na madrugada do passado dia 8 de Fevereiro. Tinha 92 anos e amava a vida. A notícia foi dada nesse mesmo dia «com mágoa e tristeza» pelo Secretariado do Comité Central do PCP. Ao seu funeral, realizado no sábado, dia 10, compareceram largas centenas de camaradas e amigos, que fizeram transbordar o cemitério dos Olivais em Lisboa. Perante a urna, coberta com a bandeira vermelha da foice e do martelo, Jerónimo de Sousa fez uma intervenção, que transcrevemos na íntegra.
Quisemos manifestar o nosso testemunho de homenagem ao camarada Sérgio Vilarigues neste momento de perda e de partida. À família, ao filho e netos damos o nosso abraço solidário e as sentidas condolências.
Não é fácil, não é nada fácil numa intervenção expressar a grandeza e a riqueza de vida e do papel de um revolucionário, de um comunista, da pessoa concreta que aderiu à Federação das Juventudes Comunistas aos 18 anos, ao PCP com 20 anos, preso logo aí e a passar pelas agruras em Peniche, em Angra do Heroísmo e no Campo de Concentração do Tarrafal.
Não é fácil resumir numas palavras a sua personalidade fascinante, tão forte e exigente quanto compreensiva e fraternal, a sua ironia acutilante que nos desarmava e obrigava à reflexão, a forma como assumiu elevadas responsabilidades no Partido, nos seus organismos executivos, na reorganização do Partido em 1940-41, na responsabilidade pela Organização Regional do Algarve, do Sul do Tejo, do Norte, das Beiras e de Lisboa, na direcção do Avante!, nas relações internacionais do PCP onde, entre outras tarefas de grande responsabilidade, tem significado histórico a sua presença no acto de proclamação da independência de Angola em Novembro de 1975.
Entrando para o mundo do trabalho ainda muito jovem apurou a sua consciência e o seu sentido de classe, base fundamental para assumir com êxito as tarefas e responsabilidades que lhe eram atribuídas, lhe deu força e determinação para enfrentar a dureza das prisões mas também as condições difíceis de 32 anos ininterruptos de clandestinidade. 70 anos de experiência e vivências que o transformaram num daqueles camaradas insubstituíveis, sempre ao lado do seu inseparável amigo e camarada Álvaro Cunhal.
Sem ele e outros camaradas como ele, o PCP não seria a força necessária e insubstituível aos trabalhadores portugueses que realmente é!
Achou sempre que o melhor da sua vida, que aquilo que aprendeu e que sabia, devia-o ao seu Partido!
Exemplo do seu carácter e desta concepção foi a sua última viagem à República de Cabo Verde onde, participando na evocação dos 70 anos da abertura do Campo de Concentração do Tarrafal, o Governo Cabo-Verdiano lhe atribuiu uma condecoração.
O Sérgio Vilarigues achava que tal distinção deveria ser, não para ele, mas para o seu Partido.

Um imenso adeus comunista

Neste momento em que homenageamos o camarada Sérgio Vilarigues deixando-lhe o nosso imenso adeus comunista – que é, ao mesmo tempo, o até sempre a um revolucionário que parte, dito com profunda emoção, carinho e determinação pelos camaradas que ficam e irão continuar a sua luta – vale a pena e é necessário recordar a sua vida de militante comunista, a sua intervenção durante toda essa vida na luta contra o fascismo, pela liberdade, pela democracia, por um Portugal independente e soberano, liberto de todas as formas de opressão e de exploração; vale a pena e é necessário recordar uma luta que foi de todos os momentos: desde o tempo sombrio do passado fascista, até ao tempo novo da democracia avançada de Abril e, posteriormente, ao tempo da resistência à contra-revolução carregada de pedaços desse mesmo passado sombrio.
Recordar essa postura de resistente antifascista do camarada Sérgio Vilarigues é tanto mais importante quanto, como sabemos, está hoje em curso uma poderosa operação de branqueamento do fascismo e de condenação dos que o combateram e lhe resistiram.
Uma multidão de «especialistas» – portugueses e estrangeiros – vem dando execução à tarefa de concluir e mandar publicar que, em Portugal não existiu fascismo; que o regime de Salazar e Caetano foi um regime «autoritário», sim, mas de um «autoritarismo paternalista» e «tolerante»; que a PIDE não maltratava nem matava ninguém (que isso era calúnia dos comunistas); que «Salazar não era fascista» – há até, quem escreva, fechando os olhos à verdade histórica, que Salazar, «na sua política externa e nas suas alianças internacionais ao tempo da Segunda Guerra Mundial, não esteve ao lado da Alemanha de Hitler e da Itália de Mussolini, mas sim ligado à velha aliança com a Inglaterra...».
Ao mesmo tempo, esses especialistas na falsificação da história, tudo fazem para apagar o significado, a importância e o conteúdo da resistência antifascista.

Reescrever a história ao sabor dos interesses

É nesse contexto que, paralelamente, procedem, de forma cirúrgica, à ocultação, falsificação e aviltamento do papel determinante desempenhado pelo Partido Comunista Português nessa resistência – e dão andamento a uma despudorada operação de usurpação da memória resistente dos comunistas portugueses.
É nessa mesma linha que esses mesmos «especialistas» julgam e condenam a Revolução de Abril e os seus ideais, julgam e condenam a actividade e a intervenção do PCP na conquista da liberdade e na instauração e institucionalização do novo regime democrático. E são esses mesmos historiadores de serviço à reescrita da História ao sabor dos interesses da nova ordem imperialista de cariz totalitário que, complementarmente, dão sequência a uma intensa ofensiva contra os comunistas e o seu Partido, em jeito de versão doméstica, devidamente adaptada, da ofensiva anticomunista que, à escala internacional, faz do comunismo o seu alvo preferencial de ataque, recorrendo à mentira e à deturpação da História, utilizando velhos argumentos durante muito tempo utilizados pelo fascismo, desembocando na insultuosa e ofensiva equiparação entre fascismo e comunismo.
São historiadores que o deixam de ser quando deixam vir ao de cima, o seu anticomunismo.
Os efeitos dessa ofensiva, difundida massivamente, todos os dias, pelo poderoso aparelho mediático, pertença dos grandes grupos económicos e financeiros, são por demais evidentes.
(Nas últimas semanas, a pretexto de um programa televisivo que diz ter como objectivo «escolher» o «maior» entre os «grandes portugueses», atingiu-se, independentemente dos objectivos e posturas dos seus autores, a desvergonha máxima ao estabelecer provocatórias e ofensivas «semelhanças» entre Salazar e o camarada Álvaro Cunhal, metendo no mesmo saco, despudorada e insultuosamente, o ditador fascista e o resistente heróico; o torturador e o torturado; o carrasco e a vítima; o traidor dos interesses da Pátria e o Patriota exemplar; o opressor de um povo e o que dedicou toda a sua vida à luta de libertação desse povo da opressão e da exploração.
Que sobre essas insultuosas «semelhanças», e avalizando-as, se tenham pronunciado, não apenas fascistas notórios ou disfarçados, mas igualmente pessoas que se situam, ou dizem situar-se, no campo democrático, é bem revelador da força e dos objectivos da ofensiva anticomunista em curso, dos caminhos que segue, dos métodos a que recorre, das armas que utiliza).

Os comunistas na primeira linha da luta

A equiparação insultuosa entre fascismo e comunismo é, também ela, uma forma de branqueamento do fascismo. Um branqueamento que é parte integrante da acção de denegrimento dos comunistas, do seu partido, do seu projecto, do seu ideal transformador e libertador; um branqueamento que visa ocultar a prática dos comunistas na assumpção do seu compromisso de sempre com os trabalhadores, o povo português, a independência e a soberania de Portugal – um compromisso do qual a vida e a luta do camarada Sérgio Vilarigues constituem expressão concludente e incontornável; um compromisso que aqui reiteramos como bússola orientadora da prática presente e futura do PCP e dos militantes comunistas.
Tudo isto torna necessário sublinharmos uma vez mais – e aqui o fazemos no momento em que nos despedimos e homenageamos o camarada Sérgio Vilarigues, exemplo de resistente antifascista que o foi como foi, porque era militante comunista, que para além de 34 anos de vida dura da clandestinidade esteve preso e sofreu em três espaços e símbolos da ditadura fascista, na Fortaleza de Peniche, nas masmorras de Angra do Heroísmo, no Campo da Morte do Tarrafal – que a história mostra, inequivocamente, que em Portugal existiu, durante quase meio século, uma feroz ditadura fascista; que o fascismo, enquanto ditadura terrorista do capital, oprimiu e reprimiu o povo e os trabalhadores portugueses e mergulhou na miséria e no atraso o País e o povo; que o fascismo perseguiu, prendeu, torturou, assassinou milhares e milhares de homens, mulheres e jovens que se lhe opuseram corajosamente. E que, nesse tempo em que lutar pela democracia e pela liberdade tinha como consequências inevitáveis o alto risco da prisão, da tortura, muitas vezes da morte, os comunistas ocuparam sempre a primeira fila dessa luta – uma luta que prosseguiram nos tempos posteriores ao 25 de Abril, afirmando-se como parte maior na construção do regime democrático de Abril; uma luta que prosseguem hoje, fazendo frente à política de direita e dando o seu contributo para a construção da alternativa de esquerda de que o país necessita; uma luta que os comunistas prosseguirão no futuro, sempre pela liberdade e pela democracia, sempre ao lado dos trabalhadores, do povo e do país.
Garantimos-lhe em vida, afirmamos hoje, no momento em que parte que, nos nossos corações e na nossa mente, está ancorada e a pulsar aquela força, aquela militância combativa e generosa, aquela confiança inquebrantável para prosseguir tanto o sonho como o projecto de transformação da sociedade e de luta por uma vida melhor para os trabalhadores e para o povo português sempre tendo no horizonte o socialismo e o comunismo.

Uma vida de luta

Sérgio Vilarigues nasceu em Routar, Torredeita, no distrito de Viseu, no dia 23 de Dezembro de 1914. Aos 12 anos, começa a trabalhar como marçano de freguesia, profissão que, aos 14 anos, passou a exercer em Lisboa. Aos 16, inicia-se como salsicheiro e liga-se à Associação dos Trabalhadores das Carnes Verdes e, quase ao mesmo tempo, à Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas (FJCP). Corria o ano de 1932.
Em 1934, quando distribuía propaganda para a libertação de um jovem comunista condenado a 20 anos de cadeia, é preso e enviado, na situação de incomunicabilidade, para a Esquadra de S. Domingos de Benfica. Daí passou para os calabouços do Governo Civil de Lisboa, depois para o Aljube e, a seguir, para Peniche.
A 8 de Junho de 1935 (ano em que adere ao Partido Comunista Português), é enviado para a Fortaleza de S. João Baptista, em Angra do Heroísmo. Mais tarde, e apesar de já se encontrar com a pena cumprida, está no grupo de prisioneiros que inaugura o Campo de Concentração do Tarrafal em Outubro de 1936. Em Dezembro de 1940, é «amnistiado», ficando em «liberdade condicional».
Em 1942, passa à clandestinidade, na qual permanece ininterruptamente até 1974.
Sérgio Vilarigues, realça o Secretariado do Comité Central, foi um participante destacado na reorganização do Partido de 1940/41, tendo sido eleito para o Comité Central no III Congresso, em 1943. Até ao 25 de Abril, percorreu o País de Norte a Sul, com a responsabilidade de diversas organizações, a primeira das quais o Algarve. Foi ainda responsável por todas as organizações ao Sul do Tejo, do Norte e das Beiras. Já no Secretariado, para o qual entrou em 1947, foi responsável por Lisboa, Ribatejo e Região do Oeste.
Foi responsável directo pela imprensa do Partido em largos períodos entre 1947 e 1972, num total de 16 anos. Nesta altura, é enviado para o estrangeiro por questões de defesa, entrando e saindo do País por várias vezes. O 25 de Abril apanhou-o fora do País.
Após o 25 de Abril continuou a pertencer ao Secretariado e à Comissão Política, funções que abandona em 1988, passando a integrar a Comissão Central de Controlo e Quadros, onde se mantém até 1996, quando, a seu pedido, sai do Comité Central do Partido.
Como responsável pela Secção Internacional do Partido, Sérgio Vilarigues desempenhou tarefas de grande importância e «significado histórico», destaca o Secretariado. A sua presença na proclamação da independência de Angola em 11 de Novembro de 1975 é um desses momentos.
Considerando-o «um dos mais destacados dirigentes comunistas em mais de oito décadas e meia de história do PCP, o Secretariado realça ainda que Sérgio Vilarigues era um «exemplo de relacionamento fraterno e profundamente humano, associado a uma inquebrantável combatividade e firmeza na luta política».



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