O pendor atlantista da política de Prodi provocou a cisão na maioria
Crise política em Itália
Jogada pródiga
Dois votos bastaram para que o primeiro-ministro italiano batesse com a porta, ameaçando com a ruptura definitiva caso não obtivesse o apoio «total» dos seus parceiros de coligação.
O chumbo no Senado das orientações do governo italiano em matéria de política exterior não obrigava o chefe do governo a apresentar a demissão. Contudo, o experiente il professori decidiu tirar partido da situação e correu ao presidente da República, Giorgio Napolitano, abrindo a primeira crise governativa, dez meses após as eleições de Abril do ano passado.
O espectro de Berlusconi voltou a pairar sobre Itália. As sondagens colocam o governo de centro-esquerda em desvantagem, penalizando-o pelas suas reformas liberalizadoras no comércio e serviços e pelas tentativas de desferir ataques no campo social e laboral.
De resto, os motivos da recusa dos dois senadores da maioria (um do Partido da Refundação Comunista outro do Partido dos Comunistas Italianos) em participar na votação de dia 21 resultam de duas decisões de Prodi que dividiram o governo e atingiram fundo os sentimentos antibelicistas do povo italiano.
A primeira prende-se com a chamada «operação liberdade duradora» levada a cabo pela NATO no Afeganistão, na qual a Itália participa com um contingente de dois mil efectivos, cuja retirada há muito que é exigida pela maioria da população (62 por cento dos italianos e 73 dos que apoiam o governo desejam o regresso das tropas).
Contudo, Prodi tentou confundir a opinião pública, alegando que, ao contrário do Iraque, onde a retirada dos militares transalpinos foi concluída em 1 de Dezembro passado, no Afeganistão a guerra é legal porque foi sancionada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas.
Sem deixar assentar a poeira e mostrando-se afinal incapaz de disfarçar o seu pendor atlantista e conter o impaciente desejo de reconciliação com Washington, Prodi lançou-se numa nova polémica insistindo na autorização do alargamento da base americana de Vincenza.
Em resposta, 100 mil manifestantes afluíram, no dia 17, àquela pequena localidade do Norte de Itália, marchando ao longo de seis quilómetros contra a presença militar dos EUA no país. O protesto foi apoiado publicamente pelos ministros comunistas e verdes e o secretário-geral do PDCI, Oliviero Diliberto, em pleno desfile, apelou ao governo para que «ouça o grande povo da paz que faz parte do seu eleitorado». Mas il professori recusou-se a ouvir e preferiu jogar a sua cartada.

Um cheque em branco

Na sexta-feira, 23, o chefe do governo demissionário anunciou que estava pronto para retomar as rédeas do poder, após ter obtido o apoio incondicional dos seus parceiros de coligação.
Na noite de véspera, segundo relatou o jornal Corriere della Sera, Prodi tê-los-á ameaçado com um ultimato: «Ou aceitam estas condições ou vou-me embora. E sabem muito bem que após a minha saída a única perspectiva são as eleições» antecipadas.
O pacto «não negociável» imposto aos aliados consiste num documento de 12 pontos, que os deixa de mãos amarradas face a uma séria de matérias controversas que têm marcado o debate político dos últimos meses.
No domínio da política externa, os nove partidos que integram a coligação ficam obrigados a respeitar os compromissos internacionais assumidos pelo país, designadamente a manutenção das suas tropas no teatro de operações afegão.
Na área das infra-estruturas, o documento determina a continuação do comboio de alta velocidade Leão-Turim, projecto que até aqui tinha a oposição dos Verdes.
Outro dos pontos do «pacto» refere-se à sensível questão da reforma da segurança social.
O governo já tinha anunciado a intenção de começar, em Março, as negociações com os parceiros sociais. Contudo, as propostas apresentadas dividiram a coligação, designadamente no que toca à alteração da fórmula de cálculo das pensões, visando reduzir o valor da prestação, e da idade da reforma, agravando as leis aprovadas pelo governo de Berlusconi, em 2004, que deveriam entrar em vigor no próximo ano.
Estes diplomas, entre outros aspectos, já previam o aumento da idade mínima dos 57 para os 60 anos e um período de contribuições de 35 anos. Todavia, Prodi deseja ir mais além.
Daqui em diante, em caso de divergências, nestes e nos restantes assuntos, os membros da coligação ficam proibidos de expressar publicamente a sua posição. Il professori quer que o governo tenha uma única voz – a sua.


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