Miguel Madeira e Carina Castro
A FMJD reforçou o seu carácter anti-imperialista
A JCP foi reeleita por unanimidade para a presidência da Federação Mundial da Juventude Democrática, em meados de Março, em Hanói, durante a Assembleia-Geral da organização. Miguel Madeira, o presidente da FMJD, e Carina Castro, membro do Secretariado da JCP, falam sobre o significado da reeleição, as perspectivas para o segundo mandato e a situação dos jovens no mundo.
- Qual o significado da reeleição da JCP para a presidência da FMJD?
Miguel Madeira
- É importante realçar que a reeleição da JCP por unanimidade é uma demonstração de grande confiança das organizações que compõem a federação e o reconhecimento do trabalho da JCP, nomeadamente nos últimos quatro anos com esta nova responsabilidade. É um trabalho colectivo, dentro da JCP e também na perspectiva de como o trabalho é desenvolvido com as outras organizações que fazem parte dos organismos de direcção da FMJD.
A Assembleia-Geral teve um grande êxito, nomeadamente com novas organizações a assumir responsabilidades e com a forma como decorreu, com uma grande discussão política sobre vários aspectos da situação da juventude a nível mundial, dos desafios actuais e das medidas com que podemos contribuir para o reforço do carácter anti-imperialista da FMJD. Perspectiva-se agora aplicar as medidas políticas que foram decididas.
A reeleição significa que esta é uma grande responsabilidade para a JCP, mas também a consciência de que há condições. O reconhecimento da JCP consubstancia-se na actividade concreta que a organização desenvolve em Portugal.

Carina Castro- Há que referir o eco que as organizações nos fizeram chegar destas ideias. O ambiente especialmente positivo e o êxito da Assembleia são consequências do trabalho desenvolvido também pela JCP na FMJD. Isto concretizou-se em todo o processo democrático e colectivo de preparação da Assembleia e na necessidade de continuar o trabalho. Daí a reeleição por unanimidade. Há uma grande alegria em torno do trabalho da Federação e das perspectivas de futuro.

- Os esforços que esta responsabilidade implicam para a JCP são assim compensados?
CC-
A recompensa é o reforço do carácter anti-imperialista da FMJD e do aumento das actividades desenvolvidas em cada país, dinamizadas pela Federação ou pelas organizações nacionais.

- Como é que correu a Assembleia-Geral?
MM-
Do ponto de vista dos resultados, estaremos a falar da melhor Assembleia-Geral das últimas que se realizaram. A JCP empenhou-se fortemente para que houvesse um processo preparatório muito intenso, com dificuldades de preparação mas dando oportunidades às organizações de se envolverem no processo de construção dos documentos, de mobilização e na definição das linhas de acção da intervenção política da FMJD. Todo este trabalho de preparação fez com que as organizações chegassem à Assembleia com uma reflexão mais profunda. Foi muito positivo.
Também é importante valorizar a forma como a Assembleia foi organizada durante aqueles dias, com um contributo importante dos camaradas do Vietname em estreita articulação com os organismos dirigentes da FMJD. Tudo decorreu dentro dos prazos, mas com uma grande discussão e construção colectiva, tentando acolher todas as opiniões. Para além disso, todos os espaços extra-assembleia foram marcados pela amizade, solidariedade e fraternidade nas relações bilaterais entre organizações, trocar experiências de trabalho e de luta.

CC- A discussão colectiva concretizou-se logo na descentralização da redacção de resoluções temáticas, o que trouxe uma maior riqueza e contribuiu para centralizar a discussão nas questões políticas. Todas as propostas de alteração que chegaram e o debate que daí adveio tornou a federação mais rica. Também foi muito interessante o contacto com a cultura vietnamita.

- A Assembleia foi importante para as relações bilaterais da JCP?
CC-
As reuniões bilaterais com outras organizações foram muito importantes, até porque estão presentes organizações que será menos fácil encontrar noutras ocasiões. Partilhámos experiências, denunciámos a situação dos jovens e aprofundámos muitíssimo o conhecimento das outras organizações e da situação política nos outros países. Trazemos um património de discussão e conhecimento extremamente rico.

CC- Há contactos diferentes, mas, em traços largos, a ofensiva que os jovens portugueses sofrem é a uma escala mais lata e há questões transversais. Há organizações de países da Europa que estão mais próximos, mas há uma ofensiva generalizada às conquistas dos povos, dos trabalhadores e dos jovens a vários níveis. Isto concretiza-se de forma diversa, mas sentimos que é uma tónica comum. Vemos a consequência de todo o trabalho da JCP na federação e no âmbito das suas relações internacionais que resulta no conhecimento aprofundado de muitas organizações sobre a situação dos jovens portugueses.

- Qual o programa da FMJD para os próximos quatro anos?
MM-
Introduziram-se nos documentos algumas linhas gerais de acção, discutidas e aprovadas pelas organizações. Foi a própria Assembleia que decidiu as principais linhas de acção. Agora são os organismos eleitos que têm a responsabilidade de aplicar estas medidas. Houve uma inequívoca reafirmação dos princípios, do carácter e da missão da FMJD na organização do movimento anti-imperialista mundial, tendo em conta os novos desafios e as novas realidades.
Concretamente, temos já uma acção que estava decidida e cuja preparação será acelerada: um evento de comemoração dos 60 anos do movimento do Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes, que se realizará previsivelmente em Agosto na Venezuela. Foram aprovadas outras acções pela Assembleia, como lançar três grandes campanhas temáticas em 2008, 2009 e 2010 sobre questões do emprego, educação e bases militares estrangeiras. Há outros aspectos como o reforço das actividades de solidariedade internacional, com missões, visitas e campanhas.

- Quais os países prioritários?
MM-
Existe a ideia de organizar uma missão à Palestina proximamente e eventualmente uma brigada de trabalho para o Líbano no Verão. Mas ainda se está a discutir.

- Mais Médio Oriente?
MM-
Para já sim, embora haja outras regiões, nomeadamente solidariedade com Cuba e o Sahara Ocidental. Procura-se concretizar o desenvolvimento e a intensificação do trabalho de propaganda da federação, nomeadamente através do site na internet, da disseminação dos materiais de propaganda a nível mundial e da adaptação da propaganda da FMJD pelas organizações à realidade concreta de cada país, manter e reforçar a regularidade do funcionamento dos órgãos da FMJD, fazer com que os órgãos eleitos de facto assumam as suas responsabilidades e dirijam politicamente a federação, dar uma atenção especial ao trabalho regional fazendo com que haja mais actividades organizadas regionalmente, intensificar a circulação de informação... na prática prosseguir o trabalho dos últimos anos. Também a campanha de actualização de contactos que iniciámos em 2006 e que ainda não foi possível terminar. Continuar a reforçar os princípios da luta em cada país, com a ideia de que isso é o garante do reforço da federação e de esta conseguir encontrar um lugar para o 17.º Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes. Outra questão é a participação activa da federação nas actividades promovidas pelas organizações, seja congressos, manifestações, seminários ou acções de protesto. É através dessas participações que a FMJD também se enriquece e fortalece a sua ligação às organizações.

- A JCP é a única organização portuguesa que faz parte da FMJD. Como é a presença da federação em Portugal?
CC-
Há várias formas de a federação participar. No imediato, a campanha de solidariedade da FMJD com os povos da Palestina e do Líbano esteve presente em Portugal e a JCP adaptou-a. O mesmo aconteceu com a campanha de solidariedade com a União de Juventudes Comunistas da República Checa (KSM), que desencadeou uma grande onda de solidariedade nas várias regiões de Portugal. Além disso, a federação esteve presente no Congresso da JCP. A participação da FMJD partirá muito da capacidade de organização e intervenção da JCP. Será sempre uma relação dialéctica.

A FMJD está melhor em 2007 do que em 2003

- Que balanço se pode fazer do primeiro mandato?
Miguel Madeira-
O facto de a JCP ter decidido candidatar-se novamente à presidência e de ter havido um apoio tão amplo das organizações à sua candidatura e às suas ideias é o melhor reflexo de que, no global, aquilo a que nos propusemos foi atingido. Obviamente há muitas coisas que conseguimos que sejam parte do plano de acção para os próximos quatro anos que não foi possível aplicar no primeiro mandato. Daí a Assembleia ter discutido algumas dessas medidas. Para além da grande responsabilidade, a JCP aprendeu muito com outras organizações e outras realidades. Certamente que as outras organizações também aprenderam muito com a JCP, com a nossa organização e a luta dos jovens portugueses. É um dado adquirido que a FMJD está melhor em 2007 do que estava em 2003.

- Melhor como?
MM-
Melhor na ligação às organizações, melhor na capacidade de concretização do seu trabalho... A JCP faz uma boa avaliação do mandato que nos antecedeu, mas havia condições para reforçar esse trabalho e traduzi-lo em acções mais concretas. Pensamos que isso foi conseguido.

- A FMJD está melhor e muito trabalho foi aprofundado. Como se pode caracterizar a federação actualmente?
MM-
A FMJD tem as mesmas dificuldades do movimento anti-imperialista internacional. Isto não está desligado da correlação internacional de forças. No quadro de outros movimentos anti-imperialistas, a federação, tendo passado por dificuldades há alguns anos, conseguiu solidificar a estrutura de que dispunha, estabilizar o trabalho e reforçá-lo através da reafirmação do seu carácter, dos seus princípios e dos seus objectivos. Mais organizações têm aderido à FMJD...

- Quantas?
MM-
Nos últimos quatro anos aderiram 10 organizações-membro e 7 organizações observadoras e associadas. Outro aspecto importante: em todas as regiões ressurgiram organizações que faziam parte da FMJD e que passaram por períodos de inactividade. Isto traduziu-se em ganhos concretos, como a visibilidade da federação. Por exemplo, realizaram-se150 actividades onde participaram membros de organismos da FMJD, entre congressos, seminários, festivais, visitas de solidariedade, missões... Isto não pode ser visto apenas de forma quantitativa, mas revela a intensidade do trabalho e a transversalidade das acções que a conjuntura internacional exige da federação. Chegamos a 2007 com a perspectiva de que é importante continuar o reforço orgânico, o reforço da intervenção e da acção da FMJD e das suas organizações. Para nós é central que a federação possa contribuir para o reforço das nossas organizações. Quanto mais fortes forem as organizações no seu país, consequentemente mais forte será a FMJD.

À ofensiva responde-se com luta

- Nestes quatro anos o que mudou para os jovens do mundo?
Miguel Madeira-
Este foi um dos aspectos analisados na Assembleia até com base em estudos das Nações Unidas, gabinetes de estudos específicos sobre os jovens e principalmente com o conhecimento da realidade transmitido pelas organizações. As condições de vida da população em geral, dos trabalhadores e da juventude em particular agravaram-se nos últimos quatro anos. Isto está ligado a uma grande ofensiva do imperialismo, nomeadamente do ponto de vista militar, que revela as contradições do imperialismo e a sua inabilidade para dar resposta às necessidades da vasta maioria da juventude. Há uma grande ofensiva militar, económica, política e ideológica, mas ao mesmo tempo verifica-se um momento de resistência por parte das forças progressistas, democráticas e anti-imperialistas. Esta perspectiva de luta esteve muito presente na preparação da Assembleia, a começar no próprio lema: «Vamos reforçar a luta contra a exploração e agressão imperialistas, pela paz, solidariedade e transformação social.» Não é de somenos importância a realização do 16.º Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes pelo seu conteúdo político e número de participantes.

- E a situação particular na Europa?
MM-
Há aspectos comuns da ofensiva que enfrentam os jovens portugueses e os jovens de outras partes, nomeadamente com a directiva Bolkestein, com o Processo de Bolonha, com a privatização da segurança social e da maioria dos serviços públicos, da saúde e da educação. Há também a retirada de direitos e medidas persecutórias contra o ideal comunista, sindicatos, associações de estudantes, organizações juvenis... Estes traços acentuaram-se nos últimos quatro anos. Ao mesmo tempo há um conjunto de forças consequentes, progressistas e anti-imperialistas que se reforçam e que têm vitórias.

Carina Castro- Os povos continuam a resistir e a juventude está na vanguarda dos focos de resistência. Apesar de a ofensiva ser grande, o caminho é a luta e a resistência ao imperialismo. Temos de ter uma grande esperança nos povos.


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