Editorial

«Foi a maior manifestação de jovens trabalhadores alguma vez realizada no nosso País»

UMA CERTA MANEIRA DE LUTAR

A manifestação de 28 de Março, convocada pela Interjovem, constituiu, incontestavelmente, o acontecimento de maior relevância ocorrido a semana passada.
Milhares de jovens vindos de todo o País desfilaram pelas ruas de Lisboa – naquela que foi a maior manifestação de jovens trabalhadores alguma vez realizada no nosso País - exigindo direitos a que têm direito e que o Governo PS/José Sócrates lhes nega.
Por isso mesmo, a comunicação social dominante (salvo uma rara e honrosa excepção que, por isso mesmo, aqui se assinala) estendeu sobre o acontecimento o espesso manto de silêncio com que costuma ocultar a generalidade das acções de massas – aliás, neste caso cumprindo à risca aquele critério segundo o qual quanto maior for a manifestação, maior é a necessidade de a silenciar. Percebe-se que assim seja: aos donos dos média dominantes não convém que se saiba que há gente a lutar contra a política praticada ao longo de mais de três décadas por sucessivos governos PS/PSD, esta política de direita que tem como objectivo supremo servir os interesses dos grandes grupos económicos e financeiros - que são, como se sabe e a confirmar que isto anda tudo ligado, os donos desses média.
Mais do que isso: não lhes convém que se saiba que há gente, muita gente, que não desiste de lutar e que - não obstante a intensa, mistificatória e persistente acção desmobilizadora exercida por esses mesmos média; não obstante os sucessivos pacotes laborais roubando aos trabalhadores direitos por eles conquistados na sequência de muitas e importantes lutas; não obstante a acção repressiva, violadora de direitos consagrados na Constituição da República Portuguesa, levada a cabo pelo patronato – não obstante tudo isso, a realidade, incontestável e incontornável, mostra que a luta continua e que é todos os dias mais forte. E que, àqueles que há décadas travam um combate corajoso, determinado, desgastante, contra a política de direita, se juntam, agora de forma massiva, as jovens gerações de trabalhadores.

Assim, a formidável manifestação de quinta-feira passada reveste-se de profundo significado.
Desde logo porque, pela sua dimensão, ela espelhou a amplitude do descontentamento provocado pela política de Governo de José Sócrates nas massas trabalhadoras juvenis – e não há silenciamentos que logrem esconder essa realidade. Depois, porque ela denunciou, de forma clara, o carácter de classe dessa política e a consciência que disso têm os jovens trabalhadores – e não há manipulações políticas e ideológicas que consigam abafar essa realidade. Em terceiro lugar porque os jovens trabalhadores em luta denunciaram, alto e bom som, as consequências nefastas da política do Governo de José Sócrates sobre a juventude (consequências sombrias e que, em muitos casos, assumem contornos de tragédia) – e não há operações de marketing político capazes de anular essa realidade. Depois, ainda, porque a manifestação do Dia da Juventude expressou, de forma inequívoca, a vontade e a firme determinação de luta dos jovens trabalhadores, a sua disponibilidade para integrarem a luta geral dos trabalhadores e do povo português - assim conferindo à palavra de ordem a luta continua um sentido e uma dimensão ainda mais carregados de futuro.

Tratou-se de uma manifestação de jovens exigindo os seus direitos; exigindo o fim da política de direita ao serviço do grande capital e a sua substituição por uma política de esquerda ao serviço dos trabalhadores, do povo e do País; exigindo o fim desta política fora da Lei Fundamental do País que o Governo do grande capital persiste em prosseguir e exigindo o cumprimento de direitos sociais, sindicais, humanos, consagrados na Constituição da República - designadamente o direito de não querer ser precário, o direito ao emprego e à segurança no emprego, o direito à saúde, à habitação, ao ensino. Ou, se quisermos resumir, os direitos a que todos os seres humanos, pelo simples facto de existirem, têm direito, e que nenhum Sócrates tem o direito de lhes roubar.
Tratou-se de uma manifestação da gente jovem, de rapazes e raparigas conscientes da sua força, da força da sua unidade e do papel que lhes cabe na luta pela construção de uma sociedade livre, justa, fraterna e solidária.
Tratou-se de uma manifestação que deu a necessária continuidade juvenil às mais recentes acções das massas trabalhadoras – portanto, não foi apenas uma demonstração expressiva da combatividade, da alegria e da fraternidade características da juventude em luta (o que, por si só, já seria muito) foi também a garantia assumida de que agora e sempre a juventude está presente.
Tratou-se de uma acção de massas que, pela evolução posterior das perspectivas de luta do movimento sindical unitário, integra já a preparação da jornada de 30 de Maio há dias decidida pela CGTP-IN – uma jornada de luta que se quer ainda mais forte e mais combativa do que as poderosas movimentações de trabalhadores que, designadamente em 12 de Outubro do ano passado e no passado dia 2 de Março, lançaram à terra fértil da consciência social e de classe as sementes de formas outras e superiores de luta.
Trazendo para a rua e para a luta um colorido singular e um claro sinal de confiança e convicção, os jovens trabalhadores que se manifestaram no dia 28 de Março, reforçaram o combate à política de direita enriquecendo-o com um contributo peculiar que, como diria José Gomes Ferreira, é apenas uma certa maneira de lutar.


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