Editorial

«Estão em branco as páginas das suas agendas em matéria de lutas dos trabalhadores»

ANALISTAS E POLITÓLOGOS

O Diário de Notícias inquiriu uns quantos «analistas e politólogos» encartados sobre se sim ou não o Governo ainda vive em «estado de graça». Responderam os ditos, mais ou menos em coro, que «ainda é cedo» para se pronunciarem sobre o assunto e que, para isso, «temos de aguardar o momento em que o primeiro-ministro vai falar». Isto porque, explicam, «são visíveis as dificuldades de controle da agenda mediática por parte do Executivo» e os problemas que afectam o Governo radicam exclusivamente num «claro caso de má gestão comunicacional».
A Ota, a licenciatura do primeiro-ministro e a situação na saúde, são os três problemas considerados pelos referidos «analistas e politólogos»: tudo problemas que, explicam, decorrem em exclusivo da tal «má gestão comunicacional» e que, está-se mesmo a ver, serão resolvidos e ultrapassados com o retorno a uma boa gestão comunicacional que logre o objectivo de «passar a mensagem (do Governo) junto da opinião pública».
Um exemplo: na área da saúde a imagem do governo é má, mas atenção: é má, não pelo encerramento de hospitais, centros de saúde, maternidades, urgências; não pelas brutais taxas moderadoras e de internamento; não pelo desprezo pela saúde da imensa maioria dos portugueses – é má porque essas «decisões difíceis têm sido mal explicadas». Ora, explicando-as bem, desaparece o problema e o «estado de graça» irromperá imparável… Daí o incitamento dos «analistas e politólogos» ao Governo para que repense e corrija o seu «processo de comunicação». Tanto mais que, continuam a explicar, esta falha comunicacional do Governo, é fruto de uma subestimação: «com a direita envolvida em guerras internas, o Executivo, estratégia de comunicação incluída, acabou a sofrer de excesso de confiança», ou, dito de outra forma: «Quando uma equipa campeã só joga com equipas da segunda divisão, é inevitável que se desleixe no jogo».
É óbvio que o leitor distraído que caia na profundidade de tais análises, dificilmente voltará à superfície.

Como se vê, da agenda dos «analistas e politólogos», não constam problemas como o desemprego (que aumenta todos os dias); a flexisegurança (que significa despedimentos à vontade dos patrões, portanto mais desemprego); a precariedade (essa chaga social que constitui um autêntico atentado a direitos sociais e humanos fundamentais): a repressão nas empresas (repressão geral e repressão selectiva, neste caso atingindo os activistas sindicais); os baixos salários (aumentando sempre menos, muito menos, do que o custo de vida) – e mais todo um vasto conjunto de medidas governamentais violadoras da Constituição da República Portuguesa. E percebe-se que isso não preocupe os encartados, todos, provavelmente, com emprego certo, seguro e remunerado muito para além do que diz a Constituição...
Da mesma forma, estão em branco as páginas das suas agendas em matéria de lutas dos trabalhadores, ou seja, do principal e mais objectivo de todos os dados existentes para avaliar a oposição à política do Governo e a graça ou a desgraça do seu estado. O facto de, nos passados dias 2 e 28 de Março, terem ocorrido manifestações de trabalhadores que, cada uma na sua especificidade, foram das maiores de sempre realizadas em Portugal, não conta, nada diz aos «analistas e politólogos», em nada interfere, em nada afecta, o estado de graça de que, segundo eles, o Governo vai continuar a gozar. E muito menos lhes diz (por isso nem querem que se fale em tal…) o facto de a CGTP ter convocado para o dia 30 de Maio uma jornada nacional de luta contra a política económica e social do Governo. Ou seja, a luta de massas – elemento fundamental no combate à política do Governo e à exigência de uma mudança de política – não conta, não tem lugar nas análises produzidas pelos encartados.
Percebe-se que assim seja: eles existem e são pagos para defender a política de direita que tão bem serve os interesses do grande capital – e o que esperam de quem executa essa política é que seja eficaz na função. No que lhes diz respeito, encarregar-se-ão da tarefa que lhes compete: propagandear a política de direita como a única e a boa – e, quando for necessário, desviar as atenções da opinião pública das questões essenciais, se necessário criando mediáticos faits divers, procurando impedir o debate sério e responsável, promovendo espectaculares palhaçadas ofensivas da inteligência e da sensibilidade dos cidadãos.

Assim sendo, também não surpreende que os encartados, sempre falando em democracia, finjam não ver os atentados do Governo aos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos; a ofensiva em curso contra o conteúdo democrático do regime – visível no conteúdo de leis profundamente antidemocráticas como são a dos partidos, a do seu financiamento e das campanhas eleitorais e as anunciadas leis eleitorais visando adaptar a vontade do eleitorado aos interesses dos partidos da política de direita; nem surpreende que finjam não ver a cada vez maior sujeição de Portugal aos ditames do imperialismo norte-americano e da sua sucursal que dá pelo nome de União Europeia - uma sujeição que configura uma espécie de venda ao desbarato da independência e da soberania nacionais, em total desrespeito pela Lei Fundamental do País; nem que finjam não ver a afronta à Constituição da República Portuguesa que é a existência e a actividade impunes e crescentemente agressivas dos grupelhos fascistas. Em suma: que finjam não ver todos os atropelos democráticos de que é feita a democracia que defendem.


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