«Iraquianos devem esquecer as diferenças e lutar contra inimigo comum»
Manifestação junta sunitas e xiitas contra a ocupação
Um milhão exige retirada
No quarto aniversário da tomada de Bagdad pelas tropas norte-americanas, um milhão de iraquianos juntou-se em Najaf para exigir a retirada imediata dos ocupantes.
O protesto, realizado segunda-feira, a 160 quilómetros da capital, foi convocado pelo clérigo xiita Moqtada al-Sadr, mas mais do que uma concentração de carácter confessional, a manifestação juntou lado a lado xiitas e sunitas unidos com um único propósito: exigir a retirada imediata dos ocupantes.
Muitos percorreram centenas de quilómetros para poderem estar presentes, relatam agências internacionais. Para trás parece ter de ficado, de momento, a violência sectária que no último ano marcou o quotidiano do povo em várias regiões do país. De outro modo não seria possível reunir no mesmo palco eclesiásticos xiitas e sunitas.
Foi o próprio al-Sadr quem, domingo, num discurso de mobilização para a iniciativa, instou os iraquianos, independentemente da sua etnia ou opção religiosa, frisou, a deixar de parte as diferenças e as vinganças para se concentrarem exclusivamente no combate ao inimigo comum.
As palavras do líder político – cujo partido conta com 32 deputados num total de 275 no parlamento iraquiano e seis ministros no governo colaboracionista – fizeram eco entre os representantes na câmara fantoche. Falah Hassan Chansil, eleito num sufrágio amplamente criticado pelo povo, coloca-se agora ao lado dos que contestam a presença de tropas estrangeiras no país e concluiu que «esta manifestação pretende demonstrar a rejeição do ocupante e ordenar a sua partida».
Três dias antes da concentração em Najaf, o conselho de ulemas sunitas, reunido em Amam, também incitou à unidade popular contra a ocupação. As acções da resistência, destacaram, são legítimas como forma de pressionar a retirada, impor a libertação dos milhares de prisioneiros de guerra e denunciar os sequestros, torturas e massacres e punir os seus responsáveis, acrescentaram.

Longe da realidade

Incapaz de admitir que a realidade no terreno é cada vez mais insustentável, a administração norte-americana veio reafirmar a disposição de se manter no Iraque por tempo indeterminado. Numa entrevista radiofónica, o vice-presidente norte-americano, Dick Cheney, criticou severamente os Democratas por tentarem impor um calendário de retirada dos soldados norte-americanos.
Para Cheney, tal medida seria encarada pelo Irão, Paquistão e Afeganistão como um sinal do fracasso da estratégia de Washington no «combate ao terrorismo», por isso se insiste na actual fórmula, e dada a falta de recursos humanos com que se debatem as forças armadas yankees, mais de dez mil membros da Guarda Nacional, entre reservistas e militares de carreira dos estados de Oklahoma, Indiana e Arkansas, podem começar a fazer as malas rumo ao Médio Oriente.
Opinião diferente manifesta o povo norte-americano que, para além de se posicionar maioritariamente contra a guerra e pelo regresso das tropas, diz agora, numa sondagem elaborada pela Pew Resaerch Center, conhecida quinta-feira da semana passada, não acreditar na análise da administração Bush sobre a guerra (52 por cento), nem nos relatos publicados nos meios de comunicação social (60 por cento).
Pelo mesmo diapasão da Casa Branca, alinham as autoridades britânicas. Segundo um documento classificado do Ministério da Defesa da Grã-Bretanha, citado pelo Sunday Telegraph, Londres planeia manter-se no Iraque até 2012, informação que devia fazer corar de vergonha o executivo de Tony Blair, o qual tem vindo a garantir não só a redução do número de efectivos, como ainda o fim da presença militar no território a breve trecho.

Terroristas e torturadores

Entretanto, o The Washington Post voltou a colocar em evidência os falsos argumentos apresentados pela Casa Branca para justificar a invasão do Iraque, em 2003.
Segundo o rotativo, os testemunhos recolhidos a Saddam Hussein e a alguns dos seus mais próximos colaboradores durante o período de cativeiro confirmam que entre o antigo regime iraquiano e a al-Qaeda não existiam vínculos de nenhuma espécie. A notícia pouca surpresa causou nos EUA, e a fonte, um gabinete do departamento de Defesa, também não é nova nesta matéria.
Pelo contrário, contra os EUA sobejam denúncias fundamentadas de terrorismo e tortura. Agora é o diplomata iraniano Jalal Sharafi, libertado a semana passada depois de ter sido raptado em Bagdad, que acusa a CIA de o ter torturado «dia e noite, em árabe e em inglês» procurando extorquir dados sobre «a influência do Irão no Iraque», esclareceu.


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