A vitória de Sarkozy é a revanche da direita dura e reaccionária
Presidências em França
A desforra da direita dura
Dias antes da segunda volta, as sondagens davam como certa a vitória de Nicolas Sarkozy mas, até ao último momento, a esquerda francesa aguardou por uma vaga de fundo capaz de derrotar o candidato da direita. Em vão.
Sarkozy venceu com facilidade o duelo com Ségolène Royal, recolhendo 53,06 por cento dos votos contra 46,94 por cento registados pela candidata socialista. Tal como já tinha acontecido na primeira volta, em 22 de Abril, o sufrágio de domingo ficou marcado por uma elevada taxa de participação que se aproximou dos 84 por cento.
A vitória da direita em França não é propriamente uma novidade. Desde a aprovação da Constituição da chamada V República, em 1958, que o palácio do Eliseu tem sido quase permanentemente ocupado por políticos de direita: Charles de Gaulle (1958-1969), Georges Pompidou (1969-1974), Valery Giscard d’Estaing (1974-1981), François Mitterrand (1981-1995) e Jacques Chirac (1995-2007). Embora com algumas diferenças entre si, o facto é que destes apenas Mitterrand foi eleito com base num programa socialista.
Desta vez, porém, a direita surpreendeu ao apostar num discurso protofascista, tão demagógico quanto radical, recuperando alguns dos temas preferidos da extrema-direita, designadamente os respeitantes à imigração e segurança, (algo que Chirac, por exemplo, sempre descartou), e centrando toda a campanha nos valores conservadores da autoridade, do trabalho, da recompensa e do mérito.
Em vez de tentar ocultar ou disfarçar o seu programa anti-social e antidemocrático, Sarkozy apresentou-o como a única solução possível, com a qual todos teriam algo a ganhar.
Ao mesmo tempo que prometia ao patronato uma «ruptura» com a «rigidez» da legislação laboral e de todo o sistema de segurança e protecção social, Sarkozy acenava às massas trabalhadoras, criando a miragem de uma França transformada num «país de proprietários».
Para tanto, prometeu deduções fiscais dos créditos para habitação e, sobretudo, a isenção de contribuições sociais e fiscais das horas de trabalho extraordinário, medida que mais não é do que o anúncio da revogação da conquista das 35 horas.
E mesmo aos jovens dos bairros «difíceis» - exactamente aqueles que, durante os motins urbanos do Outono de 2005, ameaçou «limpar com uma Kärscher» (a marca alemã de lavadoras de alta pressão de água) – o enérgico Sarkozy prometeu um plano «Marshall 2», oferecendo formação e uma remuneração a quem se portar bem e penas de prisão agravadas para os reincidentes.

Socialistas desorientados

A pesada derrota nas presidenciais voltou a expor profundas divergências no seio dos socialistas franceses, onde há muito se digladiam as alas esquerda, centrista e de direita. Laurent Fabius, ex-primeiro ministro, que se destacou pela sua oposição à Constituição Europeia, notando que Sarkozy «descomplexou a direita», sustenta que o «mesmo trabalho deve ser feito pela esquerda». «Isto quer dizer que temos de assumir de vez plenamente os nossos valores de esquerda».
Em sentido oposto, o ex-ministro da Economia, Dominique Strauss-Kahn, recordando o mau resultado de Royal na primeira volta, conclui que «os franceses não querem que lhes apresentemos soluções que têm 20 anos» e exigiu «uma renovação social-democrata» para lançar «uma esquerda moderna».
As divisões internas e o discurso de compromisso de Ségolène Royal parecem fornecer as condições propícias ao avanço da direita que procurará consolidar a sua vitória já nas próximas eleições legislativas, em duas voltas, marcadas para os dias 10 e 17 de Junho.
Pelo contrário, é duvidoso que o PS consiga disputar esta batalha «de forma homogénea e muito unida», como garantiu, na segunda-feira, 7, Ségolène Royal, no final de uma reunião para análise dos resultados eleitorais.
Adiando para depois do próximo sufrágio «a refundação ou reconstrução» do partido, como referiu o líder socialista, François Hollande, a sua direcção aposta agora na conciliação, tendo criado um «dispositivo de funcionamento colectivo» para as legislativas, organismo no qual terão assento Laurent Fabius e Dominique Strauss-Khan.
Contudo, é o partido de Sarkozy (UMP) que desde já se apresenta como o principal favorito no escrutínio. Segundo uma sondagem realizada no domingo, pelo instituto CSA, a União para um Movimento Popular (UMP) recolhe 35 por cento das intenções de voto.
O PS e seus aliados de esquerda chegam aos 30 por cento, enquanto o novo partido fundado por François Bayrou, que recolheu 18 por centos dos votos na primeira volta das presidenciais, surge com 15 por cento das preferências.
A Frente Nacional de Le Pen não vai além dos oito por cento, ficando os demais partidos abaixo dos dois por cento.

Declarações de Albano Nunes
«Má notícia para a Europa»


Albano Nunes, membro da Comissão Política do PCP, considerou que a vitória de Nicolas Sarkozy nas presidenciais francesas «é uma má notícia para a França e para a Europa».
«As suas práticas autoritárias, que são conhecidas, e as suas posições liberais e pró-americanas, bem como os projectos para recuperar o chamado tratado constitucional europeu, constituem motivos de preocupação», salientou este dirigente do PCP.
Em declarações à Agência Lusa, no domingo, 6, Albano Nunes criticou ainda a candidata derrotada, Ségolène Royal, observando que «não é com piscadelas de olho à direita que se ganham eleições à esquerda». Nestas presidenciais, disse, «é evidente que faltou na disputa uma verdadeira alternativa de esquerda».

O protesto nas ruas
A eleição de Nicolas Sarkozy foi recebida com desagrado em várias regiões do país, onde milhares de pessoas saíram às ruas contestando o novo presidente e antecipando o agravamento da conflitualidade social que certamente irá marcar o próximo mandato presidencial.
Segundo revelou, na segunda-feira, 7, a Direcção Geral da Polícia Nacional, na noite eleitoral foram detidas 592 pessoas e incendiados 730 veículos. Nos confrontos registados, 78 agentes policiais ficaram feridos.
Manifestações e actos de violência tiveram lugar nas principais cidades francesas de Marselha, Nantes, Rennes, Lyon, Toulouse, Lille, Bordéus, entre outras.
Na capital, a polícia utilizou gás lacrimogéneo e canhões de água para dispersar um grupo de manifestantes anti-Sarkozy na Praça da Bastilha.
Os distúrbios continuaram na noite de segunda-feira, em Paris, onde cerca de 100 jovens foram detidos pela polícia depois de terem danificado equipamento urbano e cortado o trânsito na Praça da Bastilha.
Também voltaram a registar-se concentrações noutras cidades francesas, caso de Lille, Lyon, Nantes, Marselha, Caen, Rennes e Tours.
A polícia minimiza a importância dos incidentes, notando que, em média, são incendiados entre 70 a 100 veículos por noite em França.


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