• John Catalinotto

«As manifestações de 1.º de Maio foram das maiores nos EUA nos últimos 60 anos»
Milhões comemoram 1.º de Maio em todo o mundo
Trabalhadores num protesto sem fronteiras
Milhões de trabalhadores saíram à rua em todo o mundo numa grandiosa jornada de luta. Nos EUA, as comemorações do Dia Internacional do Trabalhador ficam marcadas pelas marchas dos imigrantes.
Em várias cidades norte-americanas, centenas de milhares de trabalhadores imigrantes, a maioria de origem latino-americana, manifestaram-se pela implementação de direitos iguais nas comemorações do 1.º de Maio. Este é o segundo ano consecutivo que os imigrantes nos EUA saem à rua no Dia Internacional do Trabalhador.
Em quase todas as iniciativas realizadas foram feitos apelos à legalização e exigido o fim da repressão e das deportações. Repúdio generalizado também quanto ao STRIVE Act em discussão no Congresso e a respeito das alterações propostas por George W. Bush à lei da imigração.
Em Chicago, o número de participantes na marcha superou as 150 mil pessoas fazendo desta a maior do país. Em Milwaukee, no Estado do Wisconsin, o protesto juntou 80 mil trabalhadores. Em Nova Iorque e Los Angeles foram 25 mil e em São Francisco, Phoenix e Tucson as acções contaram com centenas de milhares de imigrantes e autóctones, realidade que se repetiu em outras cidades um pouco por todo o território.
A maioria dos manifestantes eram latino-americanos, sobretudo mexicanos, excepto em Nova Iorque, onde apesar de um considerável contingente de trabalhadores ser de origem hispânica, se podiam encontrar camaradas de todos os continente. Chineses, coreanos e filipinos, irlandeses e polacos, trabalhadores de países do Médio Oriente e dos países do Sul da Ásia.
Actualmente, encontram-se nos EUA cerca de 35 milhões de imigrantes, 13 milhões dos quais sem a necessária documentação de residência. Muitos foram às manifestações do 1.º de Maio desafiando o clima de terror provocado pila recente campanha anti-imigração. A Polícia de Imigração e Alfândegas (ICE, na sigla inglesa) deportou nos últimos meses um número recorde de 125405 pessoas. De New Bedford, no Estado do Massachusetts – que há alguns anos atrás recebeu milhares de imigrantes portugueses -, a São Fernando, na Califórnia, a ICE separou famílias inteiras e chegou mesmo a manter detidas várias crianças.
Os imigrantes desafiaram estas ameaças para se incorporarem naquele que foi o segundo maior 1.º de Maio dos EUA nos últimos 60 anos, apenas superado pela jornada do ano passado quando a reivindicação central da revogação do diploma Sensenbrenner garantiu uma mobilização ainda mais compacta.

Explorados e sem direitos

Os trabalhadores imigrantes indocumentados nos EUA representam cerca de cinco por cento do total da força de trabalho e desempenham um papel vital nos sectores da agricultura, construção civil e serviços. São eles que plantam e apanham frutas e vegetais, são eles que constróem casas, escritórios e estradas, são eles que servem nos restaurantes e hotéis. Apesar de votados à permanente insegurança e à precariedade, os imigrantes estão conscientes do papel que desempenham na economia e da força que esse facto lhes dá. Entre os imigrantes provenientes do Sul do continente, sobretudo os mexicanos, até se conta com gosto uma piada sobre o atraso na construção do muro que Washington está a erguer na fronteira com o México: «O problema – dizem - é que os empreiteiros não podem contratar mexicanos».
A lei Sensenbrenner representava a mais crua repressão. Além de criminalizar uma grande parte das comunidades imigrantes, indiciava professores das escolas públicas, familiares de imigrantes, membros de igrejas ou serviços sociais que prestavam auxílio aos imigrantes ilegais.
O STRIVE Act, muito embora faça algumas concessões, mantém-se longe do exigido pelos trabalhadores imigrantes. Mantém a sua criminalização e apela às autoridades locais para que apliquem a legislação em vigor. Continua a obrigar os que vivem e trabalham nos EUA sem os necessários documentos de autorização de residência a pagar fianças na ordem dos dois mil dólares caso pretendam iniciar o processo de legalização. Mais, os imigrantes têm de regressar aos respectivos países e pedir formalmente ao governo norte-americano que os deixe regressar. Tal como o programa que Bush deseja implementar, também o STRIVE Act se consubstancia no conceito de «trabalhador convidado», o qual, na prática, cria um grupo permanente de assalariados de segunda classe e sem quaisquer garantias.

Unidade necessária

O incremento das operações policiais anti-imigração no seio das comunidades levou muitos dos activistas que o ano passado estiveram com as marchas a capitularem perante a repressão, apelando aos trabalhadores para que apoiem o STRIVE Act. Não obstante, a maioria dos grupos e associações trabalhou muito na mobilização para o 1.º de Maio, ajudando a fazer desta uma data de permanente luta dos trabalhadores também nos EUA.
Em muitas das marchas, activistas de organizações políticas e sociais afro-americanas intervieram expressando a sua solidariedade para com os imigrantes. Alguns dirigentes sindicais também quiseram estar presentes, embora a jornada de luta não tenha granjeado grande simpatia da parte do movimento sindical norte-americano.

Repressão aumenta

Em Chicago, a marcha do 1.º Maio realizou-se no rescaldo de uma operação policial que intimidou muitos imigrantes, mas que certamente enfureceu a maioria.
A 24 de Abril, uma operação envolvendo cerca de 60 elementos fortemente armados da polícia de imigração foi levada a cabo num supermercado. As autoridades entraram, arrombaram portas, obrigaram todos os que «aparentavam ser de origem latina» a sentarem-se no chão culminando com a detenção de 150 pessoas entre trabalhadores e clientes.
A marcha de Los Angeles, na qual seguiam famílias inteiras, foi alvo de um brutal ataque da polícia que para além de carregar sobre a multidão pacífica usou granadas de gás lacrimogéneo e balas de borracha.
O principal resultado das acções realizadas no 1.º de Maio nos EUA foi a afirmação de que este será sempre o dia em que os trabalhadores de todo o mundo lutam pelos seus direitos, sobretudo quando o fazem no coração do imperialismo.

Jornada de luta contra a repressão

A jornada do 1.º de Maio foi aproveitada pelos trabalhadores para reivindicarem melhores condições de vida, defenderem direitos laborais e exigirem respeito pela liberdade de associação e protesto. Mais de um século depois do Dia Internacional dos Trabalhadores ter sido instituído e, desde logo, amplamente comemorado pelas massas, subsiste o perigo da sua repressão e, em vários países do mundo, as comemorações estão mesmo proibidas.
Em Moscovo, o Partido Comunista da Federação Russa juntou mais de 50 mil pessoas junto à estátua de Karl Marx, isto apesar do forte contingente policial. Só na capital russa foram detidas cerca de 400 pessoas, mas nem a repressão movida pelo governo impediu que centenas de milhares comemorassem o 1.º de Maio em todo o país, incluindo em Grozny, capital da Tchéchénia, onde as comemoração não decorriam há 16 anos.
Havana, São Paulo e Quito registaram gigantescas manifestações. Na capital cubana, milhões desfilaram no Malecon exigindo o fim do bloqueio norte-americano e a liberdade para os patriotas cubanos detidos nos EUA; na maior cidade brasileira, mais de dois milhões de trabalhadores rejeitaram a precariedade e no altiplano andino o presidente Rafael Correa juntou-se ao trabalhadores.
Em Santiago, no Chile, 40 mil exigiram empregos estáveis e salários justos, reivindicações semelhantes às dos trabalhadores do outro lado do Atlântico. Em Roma, Atenas e Madri (30 mil na capital mais 50 concentrações em outras cidades), foram dezenas de milhares a lutar contra o neoliberalismo e em França, antes de irem a votos, concentraram-se 200 mil trabalhadores em cerca de 250 cidades.
Em Dortmund, na Alemanha, o presidente da Confederação dos Sindicatos Alemães (DGB) exigiu a ilegalização do partido nazi NPD, enquanto em Berlim 50 mil festejaram Maio nas comemorações populares no bairro de Kreuzberg.
Às portas da Europa, na Turquia, onde o 1.º de Maio está proibido desde 1980, milhares foram impedidos pelas autoridades de viajar para Istambul. Os que se conseguiriam juntar na cidade foram brutalmente reprimidos. 900 manifestantes acabaram detidos quando tentavam chegar à praça Taksim, local que se tornou simbólico na luta dos trabalhadores turcos depois dos militares terem assassinado, em 1977, vários operários. Na Palestina, o exército israelita dispersou com violência uma marcha convocada pela União Geral dos Sindicatos e em El Aiun, no Saara Ocidental ocupado por Marrocos, jovens levantaram a bandeira da independência e pintaram murais.
Em Manila, nas Filipinas, as palavras de ordem denunciaram a política antipopular dos da presidente Gloria Arroyo, situação que se repetiu na Malásia, onde os trabalhadores do sector público não beneficiam de um aumento há 15 anos. Em Singapura, as concentrações de trabalhadores são «desaconcelhadas» mas nem por isso deixaram de se realizar, e na Indonésia, apesar do 1º de Maio não ser feriado nacional, milhares de pessoas saíram à rua em Jacarta e nas principais cidades do país.


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