• Jorge Cadima

Estes «comunistas bons», afinal, nem maus sociais-democratas eram...
O exemplo italiano
Sem grande clamor mediático internacional, o principal Partido saído da liquidação do Partido Comunista Italiano, os Democratas de Esquerda (DS, na sigla italiana), acabou de realizar o seu derradeiro Congresso. Os dirigentes dos DS, em grande medida os mesmos que em 1989 dissolveram o maior Partido Comunista da Europa Ocidental, decidiram agora dissolver o maior partido italiano da Internacional Socialista, para proceder à sua fusão com o maior dos partidos herdeiros da velha Democracia Cristã, o partido da Margherita. Os mais cáusticos comentadores italianos já designam esta nova operação de transformismo como o «compromisso histórico bonsai». Para que não restem dúvidas, o novo partido já não se chamará de «esquerda», mas apenas Partido Democrático. Os dirigentes da Margherita garantem a pés juntos que não será membro da IS, nem do Partido Socialista Europeu. No seu documento programático desaparece qualquer pretensão de ser um Partido representante do mundo do trabalho.

Quem tenha idade para isso, certamente se recordará de como uma das direcções de ataque contra o PCP após o 25 de Abril, consistiu em contrapôr o PCP ao PC Italiano. O PCI, que em meados dos anos 70 chegou a ultrapassar os 30% de votos, era apresentado como um Partido Comunista «moderno», «democrático» e «flexível», para logo se acrescentar «ao contrário do PCP». Tendo em conta que grande parte dos dirigentes que agora liquidaram os DS (Fassino, D'Alema, Veltroni...) já então eram dirigentes do PCI, será difícil que hoje alguém venha negar que estes «comunistas bons», afinal, nem maus sociais-democratas eram...

Durante décadas procuraram convencer-nos a seguir o «exemplo italiano». Falava-se na necessidade de o PCP se «actualizar» e «renovar» para poder, segundo diziam, «garantir o futuro da esquerda e do comunismo». Era necessário «reflectir» e «repensar». Mas três décadas de «reflexão», «repensamento», «renovação» e «modernização» conduziram os principais dirigentes do ex-PCI à conclusão que não queriam ser nem comunistas, nem socialistas, nem trabalhistas, nem social-democratas, nem sequer vagamente de esquerda. Queriam apenas, e tão só, ser os representantes políticos do grande capital italiano, aliados seguros do imperialismo norte-americano e europeu. E não se pense que esta afirmação revela sectarismo ou má vontade. Foi, afinal, o próprio Massimo D'Alema, actual Ministro dos Negócios Estrangeiros de Itália, mas que chegou a ser Primeiro-Ministro de 1998 a 2000, que esclareceu (em declarações reproduzidas no jornal Liberazione, 31.5.01) as condições em que chegou a esse alto cargo. Logo após a queda do primeiro governo chefiado por Prodi (que agora é de novo Primeiro Ministro) em 1998, «era absolutamente impossível fazer eleições», porque «havia um estado de necessidade mais geral: o último acto de Romano Prodi, em 12 de Outubro, foi o de assinar as activation orders da NATO: a intervenção militar no Kosovo iria começar daí a poucos dias. Não era concebível que a Itália, um país praticamente em guerra, fosse para eleições antecipadas» . E então foi D'Alema para Primeiro Ministro.

É triste ver um grande Partido, com páginas de História de inegável heroísmo e que tanto contribuiu para o avanço social dos trabalhadores italianos, destruído por gente pequena, cuja ambição maior foi a de se tornarem capatazes dos senhores da guerra e do capital. Há seguramente muitas lições nesta história. Mas será difícil não concluir: ainda bem para os trabalhadores e o povo português que o PCP não seguiu os cantos de sereia do «exemplo italiano».


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