• João Frazão

Escandaloso, como de costume
Os números aparecem-nos com a força e a clareza do costume. Os cinco maiores bancos portugueses, que detêm 90% do mercado, viram os seus lucros crescer, no primeiro trimestre deste ano, 21,8%. Ascendendo a mais de 780 milhões de euros, estes lucros somam-se aos mais de 2600 milhões do ano passado. A coisa é de tal ordem, que logo se apressam os especialistas do costume a vir justificar, explicar, ajudar as amplas massas a perceber e mesmo exultar perante tão importante demonstração de vitalidade da economia portuguesa.
Perante tais resultados, há quem seja devidamente recompensado. Dizem os entendidos, que os salários dos gestores das empresas cotadas em bolsa no índice PSI 20 (entre as quais se encontram os ditos bancos), triplicaram nos últimos 5 anos. Mais, segundo um estudo da Comissão de Mercados de Valores Mobiliários, estes esforçados assalariados recebem, em média, 60 vezes mais (eu soletro, se-ssen-ta, não foi engano), do que o salário médio em Portugal.
Entretanto, estes números que colocam Portugal como um dos países que melhor remunera os seus gestores de topo, contrastam de forma escandalosa com a informação que nos diz que os trabalhadores por conta de outrem, viram o poder de compra dos seus salários diminuir em 2006. Diminuição que, segundo um estudo da Comissão Europeia, foi a mais acentuada desde há 22 anos.
Ou seja, mesmo com aumentos salariais os portugueses trabalhadores por conta de outrem, excluindo os gestores de topo que para este caso não são chamados, conseguem comprar mesmos coisas que antes dos aumentos.
O agravamento das taxas de juros, particularmente nos empréstimos para compra de habitação, que no último ano ascendeu a mais de 25%, por opção do grande capital financeiro e com o apoio do Governo, tem aqui um peso muito significativo.
Donde se pode concluir que os lucros de que falamos no início, que para alguns são a evidência suprema da prosperidade económica, que só eles conseguem ver, assentam directamente nas dificuldades cada vez maiores da esmagadora maioria dos portugueses. Que os faustosos lucros e compensações de uns poucos engordam na directa medida em que emagrecem os salários de muitos milhões.
E é assim que o Governo do PS constrói Portugal - o país com as maiores desigualdades sociais da União Europeia.
São estes escândalos obscenos do costume que uns especialistas da coisa nos querem fazer engolir.
Aqui repito-me: também é para travar este e outros escândalos obscenos, que em 30 de Maio estamos em Greve Geral!


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