Editorial

«A Greve Geral foi, acima de tudo, a certeza de que a luta continua – cada vez mais forte»

UM PODEROSO AVISO AO GOVERNO

As consequências da política anti-social do Governo PS/José Sócrates e o descontentamento e protesto por elas provocado na generalidade dos trabalhadores, prenunciavam, para o dia 30, uma grande e forte Greve Geral. E assim aconteceu: os trabalhadores portugueses, unidos em torno da sua Central Sindical, levaram por diante uma histórica jornada de luta que constituiu uma forte demonstração da sua determinação e disponibilidade combativa e que se traduziu na mais ampla e mais forte acção de exigência e protesto a que este Governo foi submetido.
De pouco valeram ao Governo do grande capital, os golpes antidemocráticos a que recorreu para evitar o êxito da Greve. Às ameaças e chantagens persecutórias (com preocupantes cheiros à repressão do antigamente); às exigências ilegais de serviços mínimos (definidos em frontal desrespeito pela lei); às dificuldades de participação na luta causadas pela situação de precariedade e de recibos verdes em que vive mais de milhão e meio de trabalhadores (situação (frontalmente violadora de direitos fundamentais consagrados na Constituição, aí incluído o direito à greve), responderam os trabalhadores com uma impressionante e corajosa Greve Geral, com forte adesão em todo o País e em todos os sectores de actividade e que constituiu um poderoso aviso ao Governo – assim fazendo do dia 30 de Maio um marco impressivo na história da luta dos trabalhadores portugueses.
Daqui saudamos todos os construtores desta Greve Geral: os que nela participaram massivamente (com uma palavra especial para os muitos e muitos milhares que, apesar das condições de precariedade a que estão sujeitos, dando provas de uma notável consciência de classe, participaram corajosamente na Greve Geral); e a CGTP-IN que, uma vez mais, se afirmou como a grande central sindical dos trabalhadores portugueses.

De quando em quando, sempre que as circunstâncias o exigem, os trabalhadores recorrem à forma superior de luta que é a Greve Geral. Fazem-no, regra geral, quando os governos acentuam o carácter explorador e opressor das suas políticas, desrespeitam e violam direitos conquistados através de duras lutas, fecham os olhos e os ouvidos às justas reivindicações apresentadas. Fazem-no, em resumo, quando os governos de política de direita a isso os obrigam. Foi o que, agora, mais uma vez aconteceu.
O Governo de José Sócrates - executor de uma política que tem na defesa dos interesses do grande capital a sua preocupação maior - negou a existência de «motivos» para a greve. Nessa tarefa, contou com o habitual apoio dos «comentadores políticos» de serviço (tudo gente principescamente remunerada) e da prestimosa UGT – estrutura que, nunca é demais recordar, foi criada pelos partidos da política de direita com o objectivo explícito de, ao serviço daqueles mesmos interesses do grande capital, «quebrar a espinha à CGTP», tentar espalhar a divisão dos trabalhadores, desmobilizá-los da luta, enfraquecê-los.
A forte adesão à Greve Geral confirmou que havia motivos – e muitos e graves – para a sua realização. E que havia condições para que ela fosse um êxito.

Como era esperado, o Governo (sempre trazendo a reboque os seus habituais propagandistas) veio anunciar o fracasso da Greve Geral. Assim fizeram todos os governos que o antecederam, em situações semelhantes. Recorde-se o exemplo da Greve Geral de 28 de Março de 1988 (a maior até então realizada) contra o pacote laboral do governo de Cavaco Silva. Também nessa altura o Governo não viu a Greve Geral. Por isso, no 1º de Maio desse ano, a palavra de ordem mais gritada por milhares de trabalhadores em todo o País foi: «o Cavaco anda a ver mal, não viu a greve geral». O Governo de Sócrates também anda a ver mal. Os dados estão aí, inequívocos, nas expressivas adesões à Greve no sector dos transportes, em importantes empresas industriais, na Administração Central e Local, nos sectores da Saúde e do Ensino, nos Correios e, até, em sectores que até agora jamais haviam participado numa Greve Geral.
José Sócrates andará mal se persistir em manter os olhos e os ouvidos fechados às justas reivindicações dos trabalhadores. Andará mal se persistir em prosseguir a política com a qual tem vindo a flagelar brutalmente os interesses dos trabalhadores, do povo e do País. Porque a poderosa Greve Geral de 30 de Maio foi, acima de tudo, a certeza não apenas de que a luta continua, mas também de que ela continua cada vez mais forte – e porque ela mostrou que há forças para resistir à política de direita, para a combater e para lhe impor uma mudança de rumo.

Na intervenção organizada dos trabalhadores, cada luta é uma lição para as lutas que vêm a seguir. E é importante ter sempre presentes essas lições, porque a luta, sabemo-lo desde sempre, é para continuar – e nada se consegue sem ela. Como afirmou o secretário geral do PCP, na sua recente entrevista ao Avante!, «antes e depois de Abril de 74, o que foi conquistado e adquirido resultou da acção e da luta dos trabalhadores e nunca foi conseguido por dádiva do poder ou do patronato». Que o mesmo é dizer que a luta é indispensável e fundamental e que nela reside a possibilidade de os trabalhadores verem respeitados os seus interesses e direitos. Por isso mesmo, como também sublinhou Jerónimo de Sousa, nenhuma luta é ponto de chegada, todas constituindo um ponto de passagem para as lutas que se seguem. Como é o caso da impressionante Greve Geral de 30 de Maio.


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