Editorial

«A Greve Geral foi um êxito notável dos trabalhadores e da sua central de classe, a CGTP»

FORTES COMO PUNHOS

Os números aí estão, fortes como punhos: feito o balanço da grande jornada de luta de 30 de Maio, apurou-se que mais de um milhão e quatrocentos mil trabalhadores participaram na Greve Geral.
Por isso, vale a pena e é necessário repetir: a Greve Geral da passada quarta-feira constituiu uma impressionante manifestação da força organizada dos trabalhadores, da sua elevada consciência de classe, da sua coragem e determinação em enfrentar com êxito os muitos e poderosos obstáculos a que o governo do grande capital, num vale-tudo sem margens democráticas, recorreu, tentando desesperadamente evitar o inevitável. Dito de outra forma: a Greve Geral foi um êxito notável dos trabalhadores portugueses e da sua central de classe, a CGTP – IN - e as tentativas do Governo para a fazer fracassar traduziram-se num retumbante fracasso. Ou, se quisermos ver outro ângulo das coisas, atentemos neste dado igualmente incontestável, sublinhado pelo secretário-geral do PCP na intervenção proferida no passado domingo, na Festa da Fraternidade, em Grândola: esta Greve Geral «foi a maior e mais forte luta com que o Governo PS foi confrontado nestes mais de dois anos de mandato. Foi a luta maior com que qualquer governo do PS (e foram muitos, em mais de década e meia de governação) foi alguma vez confrontado».
É a consciência dessa realidade que está na origem da colossal operação de manipulação iniciada logo no dia da greve e no decorrer da qual o Governo se desdobrou em declarações papagueadas por porta-vozes amestrados que, iludindo a realidade, difundiam os números que melhor serviam os seus desejos Da mesma forma que foi o receio, aliás fundado, de que a Greve Geral viesse a ser um êxito, que levou o Governo a avançar com um vasto conjunto de medidas intimidatórias, ilegais, chantagistas, repressivas – violando princípios democráticos e direitos sindicais e humanos consagrados na Constituição.

A operação manipulatória do Governo teve o seu natural complemento na intervenção dos média dominantes que se mostraram tal como são: veículos fieis de difusão da verdade que serve os interesses do grande capital seu proprietário. Os títulos e noticiários desses média, mais as prosas dos comentadores e analistas políticos de serviço, ficam como exemplo de como a liberdade de informação conquistada no 25 de Abril pode ser transformada em liberdade de desinformar – no total desrespeito pela democracia, pelos direitos, pela inteligência e pela sensibilidade dos cidadãos.
Na mesma linha e ao serviço dos mesmos interesses falou, sem surpresa, o chefe da UGT – e foi também sem sombra de surpresa que ouvimos a mesma fala na Convenção do Bloco de Esquerda. A confirmar que nos momentos cruciais da luta de classes a separação das águas se faz com a simplicidade da água que corre.
Sublinhe-se que os atropelos democráticos cometidos no decorrer da preparação e da concretização da Greve Geral, não são obra do acaso nem medidas avulsas de quem, em desespero de causa, quer evitar o inevitável: eles inserem-se na ofensiva mais geral e mais vasta – e extremamente grave - contra o conteúdo democrático do regime saído da revolução de Abril.
Duas perguntas devem colocar-se: quantos milhares de trabalhadores não aderiram à Greve Geral com medo das consequências que daí lhes adviriam?; e: quantos milhares de trabalhadores aderiram à Greve Geral com a consciência plena de que estavam a pôr em risco o seu posto de trabalho? Muitos milhares, certamente, num caso e noutro. Mas sejam quais forem as respostas encontradas, o que releva destas perguntas é esta brutal realidade: usar o direito constitucional de fazer greve é, neste tempo de Governo PS/José Sócrates, um acto de heroísmo que exige uma elevada coragem cívica, uma elevada consciência de classe e política – e que comporta riscos incompatíveis com a democracia. E tudo isto é revelador do estado de precariedade a que três décadas de política de direita praticada pelo PS e pelo PSD conduziram a democracia no nosso país.

Nenhuma luta dos trabalhadores é um ponto de chegada – e todas elas são pontos de passagem para outras inevitáveis lutas. Assim é, portanto, com esta Greve Geral. As razões que obrigaram os trabalhadores a recorrer a esta forma superior de luta – desemprego, emprego precário, flexigurança, condições de trabalho e de vida todos os dias agravadas, o direito à saúde e ao ensino postos em causa, etc, etc. - são as razões que impõem a continuação da luta no futuro imediato. Só que o êxito da grande jornada de luta do dia 30 veio dar nova força e nova dimensão a essas lutas futuras, que contarão não apenas com todos os trabalhadores que participaram na Greve Geral mas com muitos e muitos outros que, apoiando-a e estando com ela, não tiveram condições para a integrar. Porque a Greve Geral – Geral porque o milhão e quatrocentos mil trabalhadores que, em todo o País, a ergueram pertenciam a todos os sectores de actividade - pelas condições em que foi construída, constituiu um poderoso factor de consciencialização social, cívica, política.
Os milhares de jovens com vínculos de trabalho precário que, em muitos casos fazendo greve pela primeira vez, tiveram a coragem de enfrentar o grande capital - e os seus homens de mão instalados no governo, na comunicação social dominante, em sindicatos fantoches, nos partidos da política de direita – deram, no dia 30 de Maio, um exemplo de notável coragem e vieram confirmar a certeza de que a luta continua.


 Versão para imprimir            Enviar este texto            Topo

Outros Títulos: