• Gustavo Carneiro

Palestina e Israel
No cerne da humilhação
Cinco dias de viagem pela Palestina e Israel são suficientes para perceber como direitos humanos básicos – como liberdade de circulação, emprego, igualdade ou acesso à justiça – não fazem parte do quotidiano de milhares de palestinianos, nos territórios ocupados pelas forças israelitas.
Não seguíamos há muito tempo pela auto-estrada que liga Telavive a Jerusalém quando nos deparámos com o primeiro check-point militar. Um jovem, que não teria mais de 18 anos, armado com uma metralhadora, aproxima-se e inspecciona os documentos dos passageiros do táxi. Os outros militares, da mesma idade, seguem a cena com aparente indiferença, mas nem por um segundo retiram o dedo do gatilho.
Muhamad Barakat, do Partido do Povo da Palestina, que nos acompanha, diz que o soldado tem o poder de decidir se passamos ou não. Passamos.
Seguimos pela estrada, deserta. Pouco passava das seis da madrugada de sábado, o dia sagrado dos judeus. Ao longo da auto-estrada, de ambos os lados, erguiam-se altos muros e vedações. De um lado como do outro, avistavam-se povoações árabes. Para os seus habitantes, o acesso à via está interdito. Blocos de cimento e postos de controlo militares garantem que a proibição é respeitada.
Barakat conta que a estrada divide aldeias que sempre viveram próximas. Passar de um lado para o outro, só através dos túneis existentes. Mas, realça, estes «estão sempre fechados ou guardados por soldados». «Ninguém passa», conclui.
Aproximamo-nos de Jerusalém, sempre cercados por muros e vedações. Do outro lado, encontra-se a Cisjordânia e a região de Ramallah. Com bilhetes de identificação diferentes para cada região – azul para Jerusalém, verde para a Cisjordânia –, a circulação é fortemente condicionada. Muitos trabalhadores que tinham o seu emprego em Jerusalém Oriental, relata Muhamad Barakat, estão hoje dependentes das autorizações de trabalho israelitas, que são cada vez menos. Não são poucos os que nem sequer conseguem permissão para entrar na cidade: «somos estrangeiros no nosso próprio país.»
Num bairro árabe de Jerusalém, quatro jovens esgueiram-se para o centro da cidade. Segundo Barakat, são da Cisjordânia e conseguiram entrar em Jerusalém pelas montanhas. Não têm autorização para trabalhar mas vão tentar a sua sorte. Ainda no dia anterior, revela, militares israelitas prenderam vinte jovens.

A ocupação de Jerusalém árabe

Dirigimo-nos para Jerusalém Oriental, zona árabe. Mas são os colonatos israelitas que dominam a paisagem. Localizam-se nas zonas mais altas, com mais vegetação e, conta Muhamad, com mais água. Ao contrário das localidades palestinianas, os colonatos têm acesso às estradas principais e estão ligados entre si por vias exclusivas.
A construção de colonatos não pára de aumentar na zona oriental de Jerusalém – aproveitando espaços livres ou criando-os, mesmo que isso signifique a demolição de casas árabes e a expulsão dos seus habitantes. Num colonato em construção, uma tenda assinala a dura realidade: sem ter para onde ir, a família palestiniana que ali habitava permanece no local, aparentemente indiferente às obras que prosseguem.
Os anúncios publicitários prometem uma vida de sonho para os judeus nos colonatos. Segundos nos dizem uns camaradas israelitas, nem todos os colonos são fundamentalistas religiosos. As casas em Israel são caras e nos colonatos são muito mais baratas e o Estado apoia as famílias que se dispuserem a viver em colonatos. «É assim que o governo israelita consegue ganhar adeptos para a ocupação entre as classes mais desfavorecidas», afirma um jovem da Juventude Comunista de Israel.
Os colonatos contrastam com as casas palestinianas de Jerusalém Oriental, pobres e amontoadas. As ruas degradadas dos bairros árabes, onde o lixo permanece por recolher durante vários dias, nada têm a ver com as da cidade nova, tipicamente europeia.
Perguntamos quem tem a responsabilidade de gerir a zona árabe de Jerusalém. A resposta de Barakat é imediata, não conseguindo esconder alguma surpresa pela questão: «Os israelitas, claro.»
Por toda a cidade, cartazes oficiais celebram os 40 anos da «reunificação» da cidade.

Às portas de Belém e em Ar Ram

É Suheil Khader, dirigente da Federação Geral dos Sindicatos Palestinianos, que nos acompanha até ao troço do muro que separa Jerusalém Oriental de Belém. São ambas zonas árabes, mas dificilmente contactam uma com a outra. O posto de controlo é imenso e as filas intermináveis. São muitos os que não obtêm as necessárias autorizações e voltam para trás.
Junto ao muro, do lado de lá, encontra-se Belém. Suheil revela que o muro foi construído mesmo junto às casas para isolar os palestinianos de Belém das suas terras férteis, que ficaram do outro lado. Estas irão agora servir um colonato israelita.
Também acompanhados pelo dirigente sindical, visitamos Ar Ram. A cidade, com 25 anos de existência, é uma espécie de subúrbio da «Cidade Santa». Mas o muro e as novas divisões administrativas empurraram Ar Ram, ou parte dela, para o lado cisjordano. A vida da cidade «sempre esteve ligada a Jerusalém», afirma Suheil, e a maioria da população tem bilhete de identidade azul – de Jerusalém.
O muro divide avenidas e ruas. Algumas casas foram mesmo demolidas e vias de comunicação cortadas para que o muro fosse erguido. Nesta zona não há população israelita, mas o muro – apresentado como «de defesa» – serpenteia por entre casas palestinianas, apartando-as umas das outras.
Num encontro com os comités populares palestinianos, dizem-nos que já estão construídos mais de 350 quilómetros de muro na Cisjordânia. Muitos mais estão em construção ou planificados. A somar a isto, há ainda as mais de quinhentas barreiras existentes à circulação das populações árabes.
O objectivo, acusa um responsável palestiniano, é criar «guetos» palestinianos isolados uns dos outros e inviabilizar a construção do futuro Estado da Palestina. Suheil vai mais longe: «Querem tornar a nossa vida impossível. Querem que nos vamos embora.»

Shalom!*

É sábado à noite em Jerusalém Ocidental. Como em muitas cidades europeias – a parte ocidental de Jerusalém é tipicamente europeia –, são muitos os jovens que se concentram junto a bares e zonas de diversão. Alguns empunham metralhadoras.
À memória vem a manhã do dia anterior. No Hotel Sete Arcos, no Monte das Oliveiras, em Jerusalém Oriental, dezenas de famílias israelitas de origem europeia ocupavam por completo o átrio. Lado a lado com as crianças que corriam e brincavam e com as mulheres que conversavam, os homens traziam a tiracolo espingardas M-16.
Descobrimos mais tarde que são judeus radicais, que defendem a expulsão dos árabes de Israel e a ocupação de toda a Palestina histórica. A sua presença ali é uma provocação, conta-nos uma comunista israelita.
Mais tarde, num encontro com pacifistas de Israel, relatam-nos que a sociedade israelita é fortemente militarizada. Entre os 18 e os 21 anos, os jovens de ambos os sexos cumprem o serviço militar obrigatório. Durante o serviço, os soldados não podem separar-se das suas armas mesmo que não estejam de serviço.
Segundo uma estudante israelita, desde os 10 anos que as crianças pensam no ramo das forças armadas para o qual irão entrar. «Ser ou não um “bom soldado” é uma questão decisiva aqui», realçou. «Mais do que o curso que escolherão.»
Nesse encontro conhecemos um activista do Yesh Gvul («Há um limite!»), uma associação de militares que se recusam a prestar serviço nos territórios ocupados. Milhares dos seus membros conheceram, desde 1982, as prisões israelitas.
A mentalidade de ocupante vira-se por diversas vezes contra os próprios israelitas, conta Oz, estudante universitário. Recentemente, os estudantes travaram uma luta contra o aumento das propinas no ensino superior. Após 40 dias de greve e manifestações de rua, uma brutal repressão policial abateu-se contra os estudantes e pôs fim ao protesto.
Também o racismo é imenso, e não só contra os árabes, refere Oz. Os casamentos entre judeus de diferentes origens, por exemplo, não são bem vistos pelos israelitas de proveniência europeia ou norte-americana, precisamente os que ocupam os lugares de direcção do país.

Ocupação piora

Mas são os palestinianos os que mais sofrem com a ocupação. Para Rima Tarazzi, presidente da União Geral das Mulheres Palestinianas, a ocupação tem vindo a piorar nos últimos anos. Também Kim Bullimore, uma australiana que trabalha numa Organização Não Governamental perto de Ramallah, na Cisjordânia, pensa desta forma: «Já cá tinha estado em 2004 e voltei este ano. A situação é mais dramática e a moral das pessoas decaiu muito.»
São muitas as violências cometidas contra as populações palestinianas. A demolição e ocupação de casas árabes por israelitas são frequentes. Na zona árabe de Jerusalém vêem-se muitas casas com bandeiras de Israel à janela. «É o sinal da conquista», diz-nos Suheil Khader.
No coração da cidade velha, no quarteirão muçulmano, o Suq pulsa de vida. Em pequenas lojas, vende-se roupa, especiarias, doces, cerâmica. Suheil chama a atenção para um edifício alto, com uma grande bandeira com a estrela de David: «Esta casa foi ocupada pelo próprio Ariel Sharon (ex-primeiro-ministro de Israel). Mas ele nunca cá veio, adoeceu entretanto.»
Também as demolições de casas fazem parte do dia-a-dia dos palestinianos. Um israelita de origem norte-americana, membro do Centro Israelita contra as Demolições de Casas, conta que foram já demolidas mais de 16 mil casas palestinianas desde a instalação do Estado de Israel, em 1948. Entre 2003 e 2005, foram mais de 350.

* = Paz, em hebraico. Semelhante ao Salam árabe. Ambas as palavras são igualmente utilizadas como saudação.

Yazin

Yazin Amireh tem apenas 16 anos mas conhece já muito da vida. Talvez demasiado. Sabe, por exemplo, o que é viver sobre ocupação, o que é ser humilhado e discriminado apenas por ser palestiniano.
Uma vez, lembra, estava a jogar à bola com amigos quando surgiu um grupo de miúdos israelitas. Queriam que Yazin e os seus companheiros se fossem embora do campo para que eles jogassem. À recusa dos palestinianos e face à insistência dos israelitas, iniciou-se uma briga. Quando a polícia chegou, expulsou os meninos árabes e entregou o campo aos israelitas. «Tinham sido eles a começar a briga, mas os soldados não quiseram saber. Éramos árabes e isso chegava», afirmou, revoltado.
Outra memória que preserva é a prisão do seu irmão mais velho. Estava a atirar uma pedra aos militares e foi apanhado. Durante a detenção bateram-lhe. Só o libertaram após assinar uma declaração em que afirmava que não tinha sofrido maus-tratos, realça o jovem. «Apesar do que lhe fizeram, assinou. Era muito novo», afirma Yazin, como que justificando a atitude do irmão. «O meu pai esteve seis anos preso, mas já foi há muito tempo», disse.
Tal como Yazin, muitas crianças palestinianas viveram a prisão dos seus familiares mais próximos. Actualmente, há 11 mil palestinianos nas prisões israelitas e 300 são adolescentes como Yazin. Muitos dos prisioneiros não foram sequer acusados em tribunal, denunciou noutra ocasião uma activista israelita dos direitos humanos. Frequentemente, os advogados de defesa não têm sequer acesso à acusação supostamente por «questões de segurança nacional».
Foi Yazin que, a caminho de Ramallah, chamou a atenção para um edifício crivado de balas. «Foram os israelitas», acusou. Nos arredores de Kalandia, perto da capital da Autoridade Palestiniana, há um campo de refugiados. «Vivem ali 18 mil pessoas», informou o jovem guia.
«Que acham de Ramallah?» Respondemos a Yazin com outra questão. Perguntamos onde se vive melhor, se ali se em Jerusalém. Não sabe responder. «Não há muito para fazer em nenhuma das cidades», lamenta. «Lá não somos livres e aqui os israelitas destruíram tudo.»
Antes de partirmos, é a vez de Yazin nos questionar, com uma comovente inocência: «Vão contar o que viram aqui aos vossos amigos em Portugal? E acham que eles vão acreditar?»


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