«No Músicas do Mundo, as viagens fazem-se através dos sons»
9.º FMM em Sines
O mundo entre a praia e o castelo
Músicos dos cinco continentes juntaram-se em Sines, entre 20 e 28 de Julho, na 9.ª edição do Músicas do Mundo, iniciativa que mais que um festival foi um encontro de culturas.
O Festival Músicas do Mundo (FMM) não é um festival igual a tantos outros que no Verão se realizam de Norte a Sul de Portugal apresentando cartazes cuja consistência e qualidade nos fazem duvidar do objectivo declarado pelos organizadores.
No FMM, os espaços dos concertos não estão atolhados de barracas e pavilhões das operadoras de telemóveis, de bancos que prometem felicidade para depois cobrarem interesses que nos deixam cabisbaixos, das grandes marcas automóveis que nos iludem com garantias de trajectos mais rápidos por lugares nunca antes visitados.
No Músicas do Mundo, as viagens fazem-se através dos sons e dos ritmos oriundos das quatro partidas que todos os anos nos habituámos a encontram em Sines; expressam-se nas muitas línguas sedentas de comunicar que noite dentro se escutam nas ruas apertadas da zona histórica da cidade; nos cheiros e sabores ora cozinhados por quem faz disso ofício, ora por muitos que, aproveitando a ocasião, exercem a liberdade de mostrar que também sabem da arte de bem comer, e com simplicidade erguem um toldo de jardim donde saltam odores que pedem apetite.
Dezenas de milhares de famílias, grupos de amigos, jovens ou nem tanto, gente da terra e de terras distantes, afluem diariamente cercando as muralhas do castelo. Aos magotes contam histórias, falam do dia passado nas praias, naquela, alí em baixo, onde se diz que o navegador Vasco da Gama descansava os olhos vislumbrando o mar, ou a um punhado de quilómetros em Porto Covo, São Torpes ou Santo André.
São dias bem passados que nos fazem esquecer do mundo que nos entra casa dentro pelo tele-ecrã e nos dão a conhecer o mundo em directo, ao vivo, replecto de cores, alí mesmo ao alcance da nossa mão.
Nestas coisas há sempre poisos obrigatórios. Cada um escolhe o predilecto atendendo ao gosto e, porque a a política de direita se faz sentir implacável, contando também com o bolso.
Talvez por isso as mesas dos cafés e restaurantes não se apresentassem tão fartas como seria de esperar e os menos abonados optassem por uma pequena tasca familiar, dessas que resistem com simpatia e carolice ao crivo do tempo, encravada em dois metros de viela forrada a paralepípedos de bazalto.
O Centro de Trabalho do PCP em Sines foi outro dos pontos de passagem obrigatória. Lá podia-se comer e beber a preços convidativos para o povo, o mesmo povo que perguntou pelo Avante! e pela Festa que lhe empresta o nome, comprou EP's e garantiu: «então vêmo-nos em Setembro».

Até amanhecer

Os concertos arrancaram dia 20, sexta-feira, em Porto Covo, vila eternizada há uma boa vintena de anos pela música mas que fruto dos investimentos bem medidos preserva o pitoresco de outrora.
Os Galandum Galundaina das terras de Miranda abriram as festividades num dia que terminou com as vozes tuaregues do Níger, os Etran Finatawa. Com o fim-de-semana o recinto junto ao porto de pesca nutriu-se de espectadores que puderam apreciar, entre outros, a maliana Mamani Keita, Deti Picasso – eleita melhor nova banda da Rússia em 2002 e que vale a pena pesquisar – e Rão Kyao com Karl Seglem numa fusão em que as raźes populares portuguesa e norueguesa fluem bem ritmadas.
Quarta-feira, dia 25, o FMM mudou-se de armas e bagagens para Sines. Antes do indiano Trilok Gurtu, considerado por muitos o melhor percussionista do mundo, Manuel Coelho, presidente da Câmara Municipal de Sines, entidade promotora do Festival, dirigiu-se aos presentes para lembrar que o FMM vai muito para além da música, consolidando-se como um espaço de diálogo e troca de culturas. Manuel Coelho lembrou ainda três vultos da música e da palavra que nunca é demais homenagear, Adriano Correia de Oliveira, Zeca Afonso e o poeta Al Berto, natural de Sines.
A noite continuou com o folk britânico dos Bellowhead, com Oumou Sangaré, e, como todas as que lhe seguiram, só acabou aos primeiros raios de sol com a música electrónica e as performances dos DJ's, desta feita a cargo dos nipónicos Oki Dub Ainu, os quais dividem com os italianos La Eturia Criminale, dia 27, os espectáculos mais bem conseguidos na AV. da Praia.
Destaque no que aos concertos diz respeito ainda para Carlos Bica e o Trio Azul, dia 26, Rachid Taha, dia 27, e K'naan, o raper somáli eleito revelação no ano de 2006 e um dos nomes que mais gente levou a Sines.
A encerrar, os fantásticos Gogol Bordello que não permitiram que ninguém parasse quieto um minuto dentro das muralhas de um castelo que ameaçava rebentar pelas costuras.
No final alguém repetiu o que havia dito todos os dias no rescaldo de mais uma noite/madrugada de concertos. «Isto todos os anos está melhor, vê-se investimento na qualidade, por isso volto em 2008».

Muito mais que música

Apesar de muita e boa música dividida por quatro palcos e 33 bandas, o FMM 2007 foi muito mais que música. No Centro da Artes, para além dos concertos – dos quais sublinhamos as gémeas bascas Ttukunak, a portuguesa Lula Pena e o bretão Jacky Molard – espaço ainda para conversar com alguns dos artistas, para oficinas práticas e laboratórios musicais dados pelos protagonistas do Festival, para a fotografia e o cinema subjacente ao tema «Música e Trabalho».
Quem por lá passou pode assistir a duas sessões de «O Povo que Canta», de Michel Giacometti e Alfredo Tropa, ou ao documentário «I Paisàn», de Giuseppe Morandi.


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