• Manuel Augusto Araújo

Sem o Pavia <br>o Alentejo nunca será o mesmo
A aldeia é pequena para os seus sonhos de artista. Vai muito novo, com dezanove anos, para Lisboa. É a capital da sua pátria, uma aldeia da Europa com os horizontes entaipados pelo botas que, de S. Bento, vigia Portugal e colónias para os dar a saque a meia dúzia de oligarcas que não se fazem rogados.
Chega a Lisboa com os olhos e memória apinhadas pelas paisagens e as gentes do seu Alentejo, e uma funda raiva contra as injustiças sociais, a exploração desenfreada que varre as planícies queimadas por sol mediterrânico, que reencontra, com outro formato na cidade. Exalta-se contra a exploração e a repressão política, cancro de mil caras que está por todo o lado a garrotear o seu país. Mal que deve, tem que ser estripado. Entra para o Partido Comunista empurrado pelo generoso desejo de contribuir para essa luta. Vivem-se dos tempos mais duros da sempre dura ditadura salazarista. São os tempos da MUD, do José Dias Coelho, artista como ele, militante como ele, grande dinamizador dos sectores intelectuais, dos artistas plásticos.
Não esquece as origens. Para as sublinhar, para que todos saibam que é alentejano, orgulhosamente alentejano de uma aldeia do concelho de Mora próxima da ribeira de Tera e da serra de Ossa, agrega ao seu nome o nome da sua terra natal: Pavia. Povoação que cresce à volta de uma anta de grandes dimensões, monumento megalítico de todos os roteiros da pré-história ibérica e onde, bem perto, haverá um museu com o seu nome depois de um 25 de Abril pelo qual lutou mas que não viverá.
Manuel Ribeiro de Pavia, assim ficará para sempre conhecido. Assim ficará inscrito nas histórias de arte. Tão conhecido como a anta à sombra da qual gastou a infância em brincadeiras desassossegadas. Uma consagração com que nunca sonhou quando enchia folhas e folhas de papel branco com desenhos, aguarelas, temperas em que as ceifeiras de olhares melancólicos, curvadas para chegar rés da terra mondando as ervas daninhas para o trigo crescer mais forte até atingir a maturidade para se entregar às mesmas mãos que dele trataram para agora o ceifarem. Com homens e mulheres nas ceifas da ira, lutando por uma vida melhor. Pelos amanhãs que cantam.
Desenha, desenha muito. Desdobra-se em trabalhos de ilustração. Faz inúmeras capas, encontra novas soluções formais para os seus desenhos de modo a corresponder às exigências gráficas e aos processos de reprodução mecânica existentes na época. Aprofunda técnica que mediadas pela impressão, aproximam a reprodução do original, até quase não se distinguirem. Quer ir mais longe e vai mais longe sem alcançar o sonho que perseguia, que se adivinhava nas suas obras, a pintura mural. Conhecia bem o trabalho dos mexicanos José Clemente Orozco, Diego Rivera, David Alfaro Siqueiros, do brasileiro Cândido Portinari, referências do emergente movimento neo-realista português em que se sentia integrado. Identificava-se com o antiburguesismo de uma cultura nova a fazer-se com uma arte social e humanista, expressão de uma tendência histórica progressista como o defendera Álvaro Salema. Com o neo-realismo como fora sistematizado e definido, no Diabo em 1939, pelo jovem intelectual Álvaro Cunhal afirmando que a arte deveria “exprimir a realidade viva e humana de uma época” e que “formas novas podem conter um significado velho e formas velhas, ainda que excepcionalmente, podem conter um significado moderno e progressista”. Sim ele, Manuel Ribeiro de Pavia, dava primazia ao conteúdo sobre a forma, sentia-se sinceramente comprometido com os problemas sociais do seu tempo. Mas não desprezava a forma e era ver-se como se empenhava no rigor do traço a ir do branco branco ao mais negro que o negro tinta-da-china deixava alcançar. Era ver como trabalhava, trabalhava muito. Qualquer lugar era lugar para espalhar os artefactos com que produzia o seu trabalho, plasmava a sua arte. Aguçava as suas inatas capacidades artísticas com trabalho por ter a justa convicção que elas deixadas ao abandono também o iriam abandonar. Que isto da arte faz-se com prática permanente. O caminho faz-se a caminhar como cantou Machado esse poeta do outro lado da Ibéria. A pintura faz-se a pintar. O desenho faz-se a desenhar.

Vida sofrida

Para onde ia, ia também o seu estendal. No café «A Brasileira do Chiado», lugar de encontro de muitos artistas, desenhava e desenhava. O Mário Henrique Leiria sempre sentado na ironia, provocava-o «Oh Pavia, porque é que essas ceifeiras são tão gordas?» Fechava a cara e não desandava porque lá estava o Zé Coelho que entrava pelos terrenos do Mário Henrique para o desarmar, acabando todos a rir. Ele nem por isso, sorria daquela falta de capacidade de entendimento. Gordas? Não são gordas! São redondas. Ondulantes como as searas corridas pelos ventos da primavera numa sensualidade contida que um citadino tinha dificuldade ou era mesmo incapaz de descobrir, de perceber. Apesar disso o olhar que colocava nas suas ceifeiras não enganava. Espelhava a dor funda da vida sofrida. Tinha a luz do desafio de quem não foge à luta contra as injustiças.
Onde quer que parasse trabalhava enquanto se debatiam, ele debatia, os problemas do País, a repressão. Se inventavam formas de luta artística. Em 1946, apoia uma lista de artistas democráticos que ganham as eleições para a direcção da Sociedade Nacional de Belas-Artes. Que abrem as suas portas para deixar entrar a modernidade. Organizam-se as Exposições Gerais de Artes Plásticas (EGAP). Um Salão aberto a todos os artistas e a todos os géneros artísticos, sem limite de idade e sem júri de admissão. Era uma frente comum de oposição aos salões de António Ferro, do fascismo. A primeira EGAP, em Julho de 1946, é um êxito. As orelhas e os olhos dos esbirros do regime ficam atentos. Manuel Ribeiro de Pavia é um dos participantes e no ano seguinte verá as suas obras, expostas na 2.ª EGAP, apreendidas pela Pide, juntamente com as de Maria Keil, Júlio Pomar, Lima de Freitas, Avelino Cunhal, Mário Dionísio (com o pseudónimo José Chaves), Manuel Filipe, Rui Pimentel (ARCO), José Viana (Viana Dionísio), Nuno Tavares, Arnaldo Louro Almeida. São todos, de uma ou de outra maneira, interpelados pela polícia política. Mesmo depois de devolvidas as obras ficam proibidas de ser expostas.
Continua a participar em todas as Exposições Gerais de Artes Plásticas que se continuam a realizar anualmente até ao ano de 1956, com um interregno em 1952. Continua fiel aos temas maiores que perseguiam o seu imaginário: o Alentejo e os seus camponeses. A expressão variava do lirismo mais evidente à mais violenta denúncia social. Não escondia a nostalgia que lhe provocava o desejo de avançar para a pintura mural. É uma evidência que continua e ficará sempre impressa em muitas das suas obras. Da cidade, outros personagens entram nos seus registos artísticos. Uma grande maioria da sua obra continua a ser feita para trabalhos gráficos. Capas, ilustrações de livros, em que se destacam as feitas para vários livros de Alves Redol e um álbum de 15 desenhos «As Líricas» com texto de José Gomes Ferreira.
São centenas de trabalhos, desenhos, aguarelas, guaches que não pára de fazer. Quando morre, no seu quarto atelier de uma pensão da rua Bernardim Ribeiro, «havia desenhos por toda a parte. Sobretudo em pastas e gavetas. Raparigas nimbadas de sol e ternura, adolescentes deslumbrados e esquecidos de jogos, mulheres desiludidas com os olhos enterrados nas mesas dos bares, prostitutas que guardavam um sorriso cheio de província, camponeses sedentos e sem nenhuma espécie de sonho no rosto a não ser a de justiça, mães acariciando o filho nos braços, e que são as mais belas mulheres que Manuel Ribeiro de Pavia reinventou, e mais raparigas com luas e estrelas e flores nos cabelos e no céu.» escreverá Eugénio de Andrade em Adeus a Manuel Ribeiro de Pavia (*).
É essa vasta galeria de desenhos que, em 1958, no ano seguinte ao da sua morte, é exposta na Sociedade Nacional de Belas-Artes, numa justíssima homenagem a esse artista que sempre trabalhou com materiais pobres fazendo uma grande arte. Nunca será esquecido. Não é possível esquecê-lo. Na pintura colectiva com que em 10 de Junho de 1974 os pintores portugueses celebraram o 25 de Abril, a liberdade enfim alcançada, alguém escreveu, todos escreveram, no último quadrado dos 36 em que estava dividido o painel: AQUI ESTARIA O PAVIA SE O 25 DE ABRIL VIESSE QUANDO DEVIA.
Este ano celebram-se os cem anos do nascimento de Manuel Ribeiro de Pavia cuja vida foi subitamente cortada no dia em que fazia meio século. O Alentejo nunca mais voltou a ser o mesmo.

____________

(*) Vértice, Maio de 1957, número especial dedicado a Manuel Ribeiro de Pavia



 Versão para imprimir            Enviar este texto            Topo

Outros Títulos: