Editorial

«A Festa é uma etapa da luta por Abril, pela liberdade, pela democracia»

A DIFERENÇA

Como vem sendo hábito, em tempo de férias os media dedicam largas fatias do seu espaço e do seu tempo à chamada rentrée – ou seja, ao regresso dos partidos às suas actividades após os períodos de repouso dos seus dirigentes. Fazem-no, aliás, e também já por hábito, antes mesmo de as férias começarem, e desde há vários anos que a notícia de cada ano é sempre igual à do ano que passou: os comícios passaram de moda, as rentrées deixaram de ser «iniciativas que juntam a música, quase sempre ‘pimba’, com os discursos políticos». Agora, «os partidos passaram a seguir o exemplo do PSD, ao preferirem acções de formação e universidades de verão» (é claro que o comício do Pontal, talvez por se ter assemelhado mais a uma ratoeira, não foi comício…).
O PCP é, subtilmente, a excepção: «mantém a aposta na festa comício» - o que, desde logo o remete para a «antiguidade» em contraponto com a «modernidade» dos restantes partidos.
O autor da ideia destas rentrées modernaças foi, como não se cansam de nos repetir todos os anos, o PSD. Pelo que, escrevem eles, «a nova moda pinta-se em tons alaranjados».

Dizia a notícia que «o PS não se decidiu ainda»: se «no ano passado, deixou cair os seus tradicionais comícios» substituindo-os por nada, «este ano o partido deve insistir na regra de que os comícios estão fora de moda», após o que decidirá sobre qual a nova moda que vai adoptar. De resto, o porta-voz do PS repetiu, este ano, o que disse há um ano: «Já estamos a trabalhar e a tratar disso. Mas não temos ainda um modelo definido». Ninguém duvida, no entanto, de que o «modelo» PS, quando e se chegar, virá carregado daquela «modernidade» visível na política governamental iniciada há trinta e um anos por Mário Soares, continuada sucessivamente por, entre outros, Cavaco Silva, António Guterres e Durão Barroso, e agora superiormente executada por José Sócrates - o qual cometeu o feito, até aqui julgado impossível, de levar à prática a política mais à direita de todas as políticas de direita praticadas após o 25 de Abril de 1974.
Quanto ao CDS/PP segue a moda, neste caso a do PS: «ainda não está nada definido», mas avançará com uma «iniciativa inovadora» e «mais na lógica de divulgação política do que de comício». Claro.
«Essa (a do PSD) é precisamente a estratégia também adoptada pelo Bloco de Esquerda» que terá a sua «rentrée de 31 de Agosto a 2 de Setembro»: chamar-se-á «Socialismo 2007» e «será um espaço de formação e de reflexão muito ampla». Pelas veredas da «formação» e pelos atalhos da «reflexão», estacionará no beco do significado e do alcance da aliança com o PS/Sócrates na Câmara Municipal de Lisboa – essa estranha aliança que, como nos tem sido dito, é um confronto com o PS…

A notícia das rentrées fecha como abriu, isto é, com a tradicional insistência: «O PCP é, assim, o único que mantém a aposta no tradicional».
Cá estamos, então, nós, os comunistas, apostando no tradicional. Que significa, sublinhe-se, participar na organização e no desenvolvimento das lutas dos trabalhadores e dos cidadãos contra os atropelos à Constituição da República; manifestar a nossa solidariedade concreta com os trabalhadores que lutam pelos direitos à greve e ao emprego; lado a lado com os jovens trabalhadores que se batem, com grande coragem e consciência de classe, contra essa violação dos direitos sociais e humanos que se chama precariedade; juntar a nossa voz à dos emigrantes contra o encerramento de consulados; denunciar e combater o embuste do PRACE; preparar as condições para travar com êxito as batalhas do futuro imediato – designadamente contra a flexigurança de medieval memória; enfim, enfrentar a ofensiva do Governo do PS contra o regime democrático de Abril.
E, segundo a pitoresca linguagem mediática, sempre apostando no tradicional - e de tal forma apostando que, bem pesada a aposta, só pode concluir-se que não há «modelo» no qual encaixe a nossa rentrée: não é reentrada nem regresso pela simples razão de que nunca saímos deste lugar que é o nosso. Tradicionalmente, de facto: numa tradição que tem 86 anos de idade.

A tudo isto há que acrescentar a Festa do Avante!: a aposta na velha festa comício… Corrijamos a notícia: comícios, pois haverá um, na sexta-feira, na abertura da Festa e outro no domingo, no encerramento. Entre um e outro, os visitantes – hoje, como acontece desde a primeira edição, em 1976 – terão oportunidade de participar em qualquer dos muitos debates (este ano cerca de trinta) sobre questões candentes da situação política nacional e internacional; ou de assistir a qualquer um dos muitos e excelentes espectáculos musicais, de teatro, etc; ou de participar num sem número de actividades só possíveis numa festa como esta: construída e realizada graças ao trabalho voluntário de milhares e milhares de comunistas e simpatizantes comunistas, homens, mulheres e jovens de Abril – porque, independentemente da data de nascimento de cada um, têm como referência essencial das suas vidas os ideais libertadores e transformadores da Revolução.
Por isso dizemos que a Festa é, também ela, uma etapa da luta que travamos por Abril, pela democracia, pela liberdade.
É desta intervenção dos comunistas, com este seu conteúdo específico, com esta sua singularidade no panorama político-partidário nacional, que emerge a diferença entre o PCP e todos os restantes partidos portugueses. É nesta maneira de estarmos onde estamos e de sermos o que somos, que o PCP se afirma, inequivocamente, como um partido diferente dos que são todos iguais.


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