Os bancos centrais já injectaram centenas de milhares de milhões de euros nos mercados
Crise imobiliária nos EUA
O prenúncio da tormenta
A «quinta-feira negra» que abalou, dia 16, a bolsa de Nova Iorque, arrastando consigo as principais praças financeiras mundiais, trouxe de volta o espectro de uma profunda crise mundial.
Após as injecções maciças de dinheiro (cerca de 360 mil milhões de euros) efectuadas nas últimas três semanas pelos bancos centrais dos EUA, UE, Japão, Austrália, Canadá, entre outros, as cotações bolsistas inverteram o seu curso descendente, mas a crise, que há muito começou nos Estados Unidos no sector imobiliário, pode voltar subitamente a manifestar-se com consequências catastróficas para toda a economia.
Na verdade, os sinais da crise tornaram-se evidentes no final de 2006 quando várias instituições financeiras, especializadas no crédito imobiliário de alto risco (subprime mortgage), se declararam insolventes.
Inicialmente, o negócio destas entidades prestamistas não apresentava riscos desmesurados, já que os juros estavam em níveis historicamente baixos e a bolha do mercado imobiliário era diariamente insuflada pela escalada especulativa dos preços. Ou seja, mesmo que os contratantes de empréstimos de alto risco (geralmente indivíduos ou famílias com reduzida capacidade de endividamento) deixassem de pagar as mensalidades, as instituições de crédito poderiam aplicar a hipoteca apropriando-se de imóveis fortemente valorizados.
A gula usurária do capital atingiu tal irracionalidade que em 2006, nos EUA, «quase metade dos créditos concedidos para a compra de habitação foram hipotecas subprime» (El País, 14.08).
Todavia, com o fim do dinheiro barato o mercado imobiliário depressa atingiu os seus limites, entrando em queda livre nos EUA. Os preços da habitação caíram em 17 das 20 maiores cidades dos EUA e as vendas de casas novas caíram 23,5 por cento no passado mês de Março.
A par da desvalorização do imobiliário, muitas famílias deixaram de poder pagar as prestações devido ao aumento dos juros. Estes dois factores despoletaram a série de falências das empresas de crédito, que tiveram vastas repercussões internacionais e começaram a ameaçar seriamente o sistema financeiro global. Isto deve-se ao facto de parte dos créditos estarem titularizados, isto é, passaram anonimamente de mão em mão nos mercados, integrando fundos de investimento e outros produtos.
Mesmo os grandes bancos não ficaram imunes, como é o caso do americano Citygroup, a maior instituição bancária do planeta, que reconheceu ter tido prejuízos de 700 milhões de dólares nos investimentos realizados em derivados de créditos imobiliários.
Desde o início do mês, as 15 maiores entidades bancárias europeias perderam mais de 100 mil milhões de euros, vendo o seu valor em bolsa cair 9,4 por cento. Entre os mais afectados estão o gigante suíço UBS, os franceses BNP Paribas e Société Générale ou o britânico Barclays (El País, 16.08).
Suspeitando entre si de insolvências encobertas, os bancos fecharam a torneira do crédito, provocando o colapso do mercado interbancário, o que obrigou o Banco Central Europeu e a Reserva Federal dos EUA a disponibilizarem, desde o dia 9, centenas de milhares de milhões de euros a taxas de juro controladas.

Acalmia aparente

Apesar destes balões de oxigénio, face a uma iminente tempestade financeira, os grandes investidores apressaram-se a vender os seus lotes de acções, ainda a bom preço, provocando assim o afundamento das principais bolsas de todo o mundo, que atingiram os níveis mais baixos dos últimos anos na quinta-feira, dia 16.
A aparente acalmia só voltou graças à diligente intervenção dos bancos centrais que voltaram a injectar muitas dezenas de milhões de euros para saciar o mercado. Mas se ninguém pode dizer quanto tempo ela irá durar, todos sabem que os bancos centrais, isto é os estados, não podem continuar eternamente a emitir moeda para permitir o funcionamento do mercado.
Como referia o analista norte-americano, Mike Whitney, (odiario.info, 17.08), «os efeitos do terramoto imobiliário não vão limitar-se à habitação, terão reflexos em todas as áreas da economia, incluindo o mercado bolsista, o sector financeiro e o comércio de divisas. Não existe simplesmente maneira de minimizar os efeitos do rebentamento de uma bolha de valores de 4500 mil milhões de dólares».

Wall Street

Mesmo que os mercados, com a ajuda benévola dos bancos centrais, consigam amortecer o choque da crise imobiliária dos EUA, os riscos de um crash bolsista são cada vez maiores.
Alguns analistas admitem que a próxima bolha a rebentar é a de Wall Street, a bolsa de Nova Iorque, onde há muito que os valores estão artificialmente inflacionados por culpa da irresponsável política monetária da administração Bush.
Mike Whitney (ver artigo em odiario.info), afirma que «a bolha de crédito da Wall Street é ainda maior que a imobiliária» e que tem sido mantida à custa de constantes emissões de moeda por parte da Reserva Federal.
Cálculos citados por este analista indicam que as autoridades financeiras norte-americanas têm bombeado dinheiro para o mercado à taxa anual de crescimento de 11,8 por cento: «o mercado bolsista tem que subir só para poder acompanhar todo este dinheiro recém-criado. Enquanto a Reserva Federal não provocar ondas com outro aumento das taxas ou fechar a torneira do dinheiro, os mercados de valores continuarão a sua corrida».
Contudo, embora este método permita no curto prazo manter os mercados em alta, a bolha rebentará inevitavelmente, provocando uma vaga avassaladora de falências, desemprego e recessão económica
Ao mesmo tempo, como o aumento da massa monetária não tem qualquer correspondência com a taxa de crescimento da economia real acabará por traduzir-se numa desvalorização do dólar (já iniciada) e numa acentuada subida da inflação, que afectará em especial as camadas mais desfavorecidas da população, reduzindo-lhes o seu já fraco poder de compra.

Crises históricas

A última vez que a Reserva Federal injectou dinheiro nos mercados foi após os atentados de 11 de Setembro de 2001, em Nova Iorque e em Washington. Anteriormente, as autoridades financeiras norte-americanas intervieram em duas outras crises de grande magnitude: na «segunda-feira negra» de 19 Outubro de 1987, quando a bolsa de valores de Wall Street caiu 22,61 por cento, sofrendo a maior descida de sempre; e na famosa «terça-feira negra», de 29 de Outubro de 1929, data em que o índice Dow Jones caiu 12,82 por cento, provocando uma profunda crise económica nos Estados Unidos que ficou assinalada como a época da «Grande Depressão».
Dada a relevância histórica destas três datas, alguns analistas interpretam as recentes intervenções dos bancos centrais como o prenúncio de uma grave crise financeira que poderá rebentar em qualquer momento.


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