• Modesto Navarro

Mestre Aquilino e a justiça dos homens
Os restos mortais de Aquilino Ribeiro foram transladados, ontem, para o Panteão Nacional. Este momento contou com a participação de Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP. Modesto Navarro, eleito pelo PCP da Assembleia Municipal de Lisboa, destacou a luta de Aquilino Ribeiro «contra o fascismo nos negros anos da ditadura», numa intervenção que publicamos na íntegra.
Às vezes, a pátria não está distraída. Às vezes. Mas tem-se esquecido tanto de Aquilino, de Ferreira de Castro, de Alves Redol, de Irene Lisboa, de Carlos de Oliveira, de José Gomes Ferreira, de Manuel da Fonseca, de Maria Lamas, de tantos escritores e escritoras, como de criadores e artistas de outras áreas da cultura.
Parece que temos medo de nós, da nossa identidade e força. Ajoelha-se, de novo, a opinião publicada, por exemplo na crítica literária, perante o que chega de fora e o que, cá dentro, interessam a esse projecto de descaracterização, de perda de capacidade de intervenção, de valia crítica e transfiguradora.
E, apesar de tudo, vamos resistindo. E Aquilino Ribeiro, um mestre de todos nós no século XX e no futuro, aqui está, homenageado e trasladado para o Panteão Nacional. É um dia grande para a Literatura Portuguesa, sem dúvida, mas é também a afirmação de que, à criação literária de Aquilino, se junta, no acto de reconhecimento e de exaltação, esse exemplo maior de quem foi cidadão e português de corpo inteiro, combatendo pela República, pelos valores da liberdade, da igualdade e da fraternidade, como se bateu contra a fascismo nos negros anos da ditadura, enfrentando-a na escrita e no exemplo político, cívico e social que nos soube dar, como homem de corpo inteiro e de vontade enorme e imparável de transformar o país e o mundo.
Hoje, num tempo em que se impõe avaliar e destacar de novo a atitude criadora, a participação social e política, a intervenção dignificadora e exemplar de Aquilino e de outros intelectuais que marcaram e marcam as nossas vidas, impõe-se também reavaliarmos esta situação em que a pequenez aparece projectada como gigantesca, as «grandes personagens» propagandeadas no dia-a-dia são de papelão e pouco mais, ao mesmo tempo em que o controlo da liberdade da palavra, da expressão e da criação é de novo posto em marcha, através de leis e da concentração de meios de comunicação, de edição, de produção e difusão cultural.
Aquilino Ribeiro fica agora no Panteão Nacional. Mas a resistência e a luta continuam e irão continuar sempre, porque, aos avanços da humanidade, se contrapõem activamente os conservadorismos e os interesses instalados, e isso já nós aprendemos na prática dolorosa das últimas dezenas de anos. E lá longe, numa rua de Lisboa, como acontecia na casa de Aquilino, haverá sempre uma mão que escreve e outra que ilumina caminho, na escuridão que o Mestre soube desbravar e transformar em progresso e em felicidade de descobrir o humano mais profundo do que somos e seremos.
Até sempre, mestre escritor de «O Malhadinhas», de «A Casa Grande de Romarigães» e de «Quando os Lobos Uivam», que pertencem, entre outros livros que nos deixaste, ao nosso mundo de descoberta, de sonho e de transfiguração da vida que merecemos e que há-de vir pela mão da leitura e pela prática interventiva, na procura da justiça e do fim da exploração do homem pelo homem.


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