Editorial

«É a luta organizada dos trabalhadores e dos povos que os afronta»

À DIREITA NADA DE NOVO

Houve quem dissesse – ou escrevesse – que o Governo do PS/Sócrates abrandaria a sua acção interna durante o meio ano que dura a presidência portuguesa da União Europeia. Nada mais errado, e agora, a meio desse mandato europeu, os resultados estão à vista. E, também, nada de menos acertado, porque o desempenho deste executivo, como os dos anteriores governos da política de direita, distingue-se precisamente pela inteira subordinação aos ditames de Bruxelas, isto é, à política cozinhada pelos grandes da UE, quer dizer, pelos monopólios e transnacionais poderosas que os comandam.
É assim que o Governo se multiplica em iniciativas no rumo estabelecido de privatizações, ao mesmo tempo que, com uma política de terra queimada vai deixando campo livre aos privados nas áreas da saúde e do ensino, persistindo no encerramento de serviços de saúde e de escolas. A demagogia anunciada de oferecer mais subsídios à maternidade com o alardeado fim de promover a natalidade em Portugal, não colhe. E muitos casais se perguntarão de que servem estes «alargados» abonos quando o Estado não garante o futuro dos filhos nem dos pais, com o desemprego e a precariedade a aumentarem, a política de saúde a deteriorar-se, as rendas a subir, o crédito bancário a disparar, as escolas a fechar, o mundo a tornar-se mais duro para quem trabalha ou não chega lá, enquanto, do outro lado da exploração, aumentam os gordos lucros e os chorudos vencimentos do capital e dos seus mais altos servidores.
Tal é a «integração» na estratégia comandada por Bruxelas, que o Governo, cada vez mais subserviente às causas do imperialismo, aproveita o estímulo da presidência europeia para anunciar a participação portuguesa em mais uma ingerência militar, com o envio de uma força armada nacional para o Chade.

A semana, porém, forneceu à opinião pública mais uma diversão, convidando – obrigando quase – os portugueses a olhar para o lado dos problemas sociais, seus e do País, e a aceitar – quase obrigados – interessar-se pelo espectáculo político revelador das dissensões internas do PSD e a torcer – obrigatoriamente por um dos candidatos nas directas que levaram Luís Filipe Menezes à presidência do partido.
Se Marques Mendes ganhasse, ficava tudo na mesma. Isto é, a oposição à direita do PS continuaria a gaguejar sem tema, porque a política de direita do partido de Sócrates há muito roubara ao PSD o espaço político que este ocupava e bem assim o apoio que o grande capital nacional e estrangeiro dá à formação de governos que apoiem servilmente os seus desígnios.
E com Luís Filipe Menezes? Só os barões, mais quem depende de empregos e poderes menores, se preocupam. A intranquilidade e a impaciência reveladas por algumas declarações sonantes não mostram inquietação com a estratégia da direita, apenas com as tácticas e o estilo, com os lugares e as caras de quem passa a mandar. Este PSD saído das eleições directas que ninguém parece apadrinhar porque o tiro lhes saiu furado, é o mesmo PSD que, ao longo dos anos, partilhando ou não o poder com o PS, está interessado em servir o capital e destruir as conquistas sociais e económicas, políticas e culturais que Abril e a sua Constituição legaram a Portugal e aos portugueses.

Por tudo isto, nada de novo a assinalar na política de direita. Apenas à esquerda, e com o PCP por único grande partido nacional, se registam movimentos que, revelando grande capacidade de resistência às medidas antipopulares e antipatrióticas da governação, reclamam já uma ruptura com esta política e exigem uma outra, que reponha os direitos sociais e as liberdades democráticas ameaçadas.
As populações continuam a mobilizar-se defendendo as unidades e os cuidados de saúde que lhes são negados, promovendo grandes manifestações como as que se registaram recentemente e que o nosso jornal tem vindo a noticiar; persistem no protesto contra o encerramento de escolas e contra a desertificação do interior que ele prenuncia. Os trabalhadores, organizados nos seus sindicatos, realizam greves e alcançam vitórias parciais contra as administrações e fazem valer os seus direitos. E não desistem nem se deixam intimidar pelas pressões gravíssimas que sofrem. De realçar, esta semana, a grandiosa manifestação de profissionais da PSP que aos milhares descem à rua e reclamam os seus direitos e protestam contra a política do Governo. Amanhã mesmo, os professores vão reunir-se no Coliseu de Lisboa, comemorando o Dia Mundial do Professor, e declaram-se mobilizados para 18 de Outubro, participando na grande jornada de luta que a CGTP-IN convoca e organiza e à qual o PCP dá o seu expressivo apoio.

Quanto ao PCP, as provas da sua vitalidade não cessam de aumentar. Como, mais uma vez, nesta semana se comprova, com as numerosas iniciativas do Partido, de que se destaca a inauguração do Centro de Trabalho de São Pedro da Cova que esta edição do nosso jornal noticia em abertura. Aí – e uma vez mais no silêncio da comunicação serviçal – Jerónimo de Sousa referiu-se à falência das profecias da desgraça que deram o PCP em definhamento e que temem um Partido assim «vivo, actuante e rejuvenescido». E temem-no porque «é a luta organizada dos trabalhadores e dos povos que os afronta».
O Secretário-geral do PCP, alertou, porém, para as dificuldades que aí vêm: «Este Governo vai persistir na sua política contra o direito ao trabalho, contra o direito à saúde, reforçando o poder dos ricos, dos monopólios, das multinacionais, aumentando o desemprego e a precariedade.»
Contra ele, temos as armas de um projecto alternativo que vai ganhando mais força e alargando a sua influência, sempre ligado aos trabalhadores e ao povo, estudando e combatendo, estruturando e organizando, dando corpo às aspirações de justiça social, de liberdade e de paz.


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