• Hugo Janeiro

Este Partido Comunista Português é mais que nunca necessário ao povo
Inauguração do CT do PCP de São Pedro da Cova
Uma casa dos trabalhadores e do povo
Jerónimo de Sousa inaugurou, domingo, o novo Centro de Trabalho de São Pedro da Cova, concretização de um sonho de 30 anos dos militantes comunistas daquela organização.
A festa foi rija em São Pedro da Cova. Enquanto dobrávamos as curvas e contracurvas da estrada que nos conduziria ao coração daquela histórica localidade mineira, era difícil antecipar o entusiasmo com que militantes e amigos do Partido receberam o secretário-geral do PCP para a cerimónia de inauguração do novo Centro de Trabalho da freguesia.
Uma casa do Partido em São Pedro da Cova era um sonho acalentado por gerações de comunistas ao longo das últimas três décadas, por isso não foi estranha a sincera comoção estampada nos rostos de militantes jovens e menos jovens, nem os abraços fortes e os beijos que brindaram Jerónimo de Sousa à medida que este furava entre a massa compacta que agitava bandeiras vermelhas, gritava vivas e afirmava plenos pulmões que «assim se vê a força PC!», soltando do fundo da alma, com genuína e legítima alegria, um desejo há muito projectado, mas que só agora foi possível concretizar.
Do outro lado da rua Manuel Sousa Matos – artéria que sobe a partir do central Largo da Covilhã e definitivamente alberga a sede comunista de São Pedro da Cova – outras tantas pessoas, entre militantes de punho erguido e voz afinada, democratas que valorizam a importância do Partido na sociedade e o expressam sorrindo afáveis, e alguns curiosos, que embora em franca minoria, nunca podem faltar nestes acontecimentos públicos em que foguetes e bombos estalam eufóricos.
Dentro da casa que se veste de amarelo, à esquerda fica o espaço mais amplo. As paredes cobriram-se propositadamente com obras oferecidas por artistas plásticos no âmbito da campanha de fundos em curso.
Ao fundo, passando a zona de serviços, uma escada dá acesso ao primeiro piso, para onde estão já marcadas reuniões de avaliação e organização de trabalho, nas quais o colectivo sentirá o pulso aos problemas mais urgentes dos trabalhadores e das populações e procurará respostas firmes e determinadas contra a política de direita, a começar pela preparação da manifestação nacional do próximo dia 18 de Outubro, em Lisboa.
A seu tempo daremos novas de tal labuta. Por agora seguimos a comitiva até à varanda do Centro de Trabalho onde o líder comunista prepara as palavras que coroam a festa, que seguiu ao som do Avante Camarada, da Internacional e da Portuguesa, e acabou num almoço de casa cheia.

Significado acrescido

Dirigindo-se aos muitos participantes na iniciativa, Jerónimo de Sousa começou por dizer que a construção de um novo Centro de Trabalho do PCP «numa terra de gente de trabalho tem um significado acrescido», desde logo pela forma como foi alcançado tal objectivo, «recorrendo não apenas à disponibilidade militante, mas à de muitos democratas, homens e mulheres que, não sendo comunistas, consideram importante que este Partido tenha aqui uma casa, que a intervenção e a organização dos comunistas tenha mais pés para andar, tenha mais futuro».
Muitos foram os vaticínios de definhamento e desaparecimento irreversível do PCP, lembrou o secretário-geral, mas a falência das profecias da desgraça que a abertura de mais uma sede do PCP testemunha é não só «a prova do seu engano», mas também a confirmação de que «este Partido Comunista Português é mais que nunca necessário ao povo, aos trabalhadores, à democracia e à própria liberdade. Um Partido com força e intervenção nos planos político, institucional e de massas. Um Partido vivo, actuante e rejuvesnescido», acrescentou.
Os inimigos de classe dos comunistas não compreendem como é possível ao PCP crescer e reforçar-se, enfatizou Jerónimo de Sousa, mas temem-nos «porque é a luta organizada dos trabalhadores e dos povos que os afronta», continuou.

Porta aberta a quem trabalha

«Construímos um novo Centro de Trabalho, mas não nos basta esta satisfação. O que aí vem não vai ser fácil. Este governo vai persistir na sua política contra o direito ao trabalho, contra o direito à saúde, reforçando o poder dos ricos, dos monopólios, das multinacionais, aumentando o desemprego e a precariedade», alertou o dirigente comunista.
«Mas da mesma forma que as vitórias não nos descansam, também as derrotas não nos desanimam», aduziu Jerónimo de Sousa, e assim «este CT não é para ter e para estar», mas para ser «uma porta aberta aos trabalhadores e ao povo», concluiu o Secretário-Geral do PCP antes de descerrar a placa que identifica o espaço mais fraterno e recheado de esperança de São Pedro da Cova.

Fruto da dedicação militante

A construção do novo Centro de Trabalho de São Pedro da Cova é um exemplo da força existente na dedicação militante e na capacidade de realização colectiva que mistura profissões, saberes e vontades fazendo avançar o Partido e acrescentado-lhe património material e humano.
Dezenas de membros e não membros do PCP ofereceram centenas de horas trabalho abdicando de feriados, fins-de-semana e até períodos inteiros de férias.
Há os que só depois de deitarem mãos ao serviço em fraternas jornadas voluntárias se inscreveram no Partido e na «jota», mas também ninguém esquece os que não tendo vivido tempo suficiente para ver inaugurada a sede comunista da localidade, a ela ficam associados pelo contributo e papel desempenhado neste breve episódio da história da luta de classes.
Os testemunhos de Albino Costa, Humberto Ramos, Joaquim Moreira da Silva e Rocha Gomes ajudaram-nos a compreender melhor a malha fina que teceu o que são hoje as paredes do Centro de Trabalho.
Voltados para o futuro, todos são ainda unânimes em afirmar que o Partido goza agora de melhores condições para prosseguir o seu objectivo, ao qual continuarão a emprestar a generosidade e a abnegação que, disseram, é ampla, esforçada e valorosa em toda a organização.

Jerónimo de Sousa no almoço
com militantes em São Pedro da Cova

«Este Governo está a servir o grande capital»

Depois da sessão de inauguração do novo Centro de Trabalho, mais de duas centenas de militantes e amigos do PCP esgotaram a sala de refeições da Escola Secundária de São Pedro da Cova e ouviram Jerónimo de Sousa apelar ao protesto contra a política de direita numa intervenção da qual reproduzimos alguns excertos.

«Num tempo em permanecem os valores do egoísmo, do salve-se quem puder, da desistência e do individualismo, devemos reflectir sobre as razões fundas que levam tantos homens, mulheres e jovens, de uma forma desinteressada, a contribuírem com o seu esforço para que pudéssemos inaugurar aquele belo Centro de Trabalho.
«Eu creio que isto é razão e fundamento, tendo em conta a alegria que sentimos, a força das nossas convicções, o acreditar no nosso ideal, este orgulho de sermos dum Partido virado para a sociedade, para os trabalhadores e para o povo.
«E é assim neste pequeno exemplo mas também na Festa do Avante!. Os grandes meios de comunicação social evitaram imagens dum comício com cem mil pessoas. Ocultaram aos que não foram à Festa o que ela foi em termos de convívio, de fruição, de fraternidade, de debate político e cultural.
«(...)Não são capazes de perceber que a nossa chave do segredo é a profunda dedicação aos trabalhadores, ao povo, às causas justas, e enquanto assim nos mantivermos, por muitas certidões de óbito que passem, este Partido há-de continuar a afirmar-se na sociedade portuguesa.

PS sempre pela direita

Não temos um sentimento de autosatisfação. Precisamos de um partido mais forte, mais organizado, mais interventivo, que alargue a sua influência política, social e eleitoral tendo em conta a situação que vivemos.
«(...)Estamos confrontados com um Governo do PS que com mestria - e talvez porque estamos num concelho onde uma das actividades fortes é a ourivesaria o possamos dizer - consegue vender pechisbeque como se fosse ouro verdadeiro.
«Através da política que realiza – do Portugal no bom caminho, das inevitabilidades, do sacrifício que é necessário que todos façam tendo em conta o défice das contas públicas – vai fazendo aquilo que a direita não tinha condições políticas e sociais para realizar, designadamente no Governo anterior.
«Dizem que o País vai bem. Dizem que os portugueses têm que compreender os sacrifícios. Mas quando nós vemos os relatórios dos bancos, os relatórios dos grandes grupos económicos, escandalosos e obescenos; quando o Eurostat nos diz que Portugal é o campeão das injustiças sociais, que é o país onde a riqueza é mais mal distribuída, onde os 20 por cento mais ricos têm 8,2 por cento vezes mais que os 20 por cento mais pobres; quando o desemprego continua a aumentar e o País começa a ser o campeão da precariedade, ou seja, o campeão de trabalhadores com vínculos precários, jovens na sua maioria; quando vemos uma política que através das alterações à Lei de Bases da Segurança Social desvaloriza as reformas obrigando os portugueses a trabalharem mais anos para um mínimo digno; quando os salários desvalorizam, a vida está cada vez mais cara e as estatísticas mostram que no nosso País existem dois milhões de pobres, então podemos acreditar na tese do “Portugal no bom caminho”? É tudo isto inevitável?
«Nós pensamos que não. Isto é resultado de uma política concreta, de opções de um PS que prometeu mundos e fundos na campanha eleitoral e que hoje está a fazer aquilo que a direita política não tinha condições.
«É assim no Serviço Nacional de Saúde, na Educação, na Segurança Social. Tudo é transformado num negócio, por isso consideramos que este Governo está de facto a servir o grande capital.
«Isto leva-nos a uma questão de grande actualidade, as eleições no PSD. A nossa posição é que não comentamos assuntos internos dos outros partidos, mas numa opinião política mais geral, julgamos que o PSD enfrenta uma contradição de fundo. Como é que esta nova direcção vai fazer em relação às privatizações, à política económica, à legislação laboral, ao rumo da UE?
«Um discurso mais radical, sem dúvida. Vai alterar a forma de oposição, mas não se livra da contradição que é ter o PS a ocupar o seu espaço, a fazer aquilo que o PSD faria, e nesse sentido a direita económica, o grande capital, sabe que é mais garantido este PS que qualquer aventura no PSD.
«Não tenhamos grandes ilusões. No momento em que se exige uma ruptura democrática com esta política económica e social, não serão discursos que resolverão o problema. Não há outra solução senão uma ruptura com esta política. Um rumo diferente para o nosso país é possível através do crescimento económico, da aposta no aparelho produtivo e na produção nacional, da criação de mais emprego, do aumento do investimento público, da defesa dos serviços públicos e dos direitos dos trabalhadores. Alguém acredita que um país pode ir para a frente quando se hostiliza brutalmente os direitos de quem trabalha?
«Nós consideramos que a solução do desenvolvimento económico passa pelo desenvolvimento social, pelo respeito pelos direitos de quem trabalha e seus salários, pela necessidade de contar com essa força realizadora que são os trabalhadores.
«Também em relação aos sectores duramente fustigados por esta política, os pequenos e médios empresários, os pequenos e médios agricultores, hoje atingidos por uma política em que tudo se concentra no interesse do grande capital, podem verificar esses sectores que, afinal, quem quer ficar com o que é seu são os grandes banqueiros, os quais através do crédito estão a garrotear os pequenos negócios e as pequenas empresas.

Resistir e propor

«(...)Não nos limitamos a lutar e a resistir. Vamos realizar no final de Novembro a nossa Conferência Nacional Sobre Questões Económicas e Sociais, e ali demonstraremos através da proposta que há um outro caminho a prosseguir.
«Mas é fundamental resistir para avançar. É difícil tendo em conta a correlação desigual, em que o capital tem tanta força e o PS se arruma à sua sombra; em que aqueles que tinham uma reserva tão radical parecem agora amaciados. Então aqui está Partido na luta, porque a resistência é sempre a primeira pedra da construção.
«(...)A nossa crença sustenta-se na luta, juntando protestos e tudo o que possa demonstrar a este Governo que quanto mais julga estar de pedra e cal, mais se engana como outros se enganaram nestes 30 anos de democracia.
«Por isso, a manifestação de dia 18 de Outubro é uma grande acção convocada pela CGTP-IN. Todos aqueles que se sentem atingidos por esta política devem participar na que consideramos poder ser a maior manifestação de sempre no Portugal de Abril. É um grande desafio. Eles vão dizer que não se importam. As televisões não vão mostrar. Mas sabemos que o Governo tem receio porque sabe que é a luta de massas que pode determinar a sua derrota.

Terra de implantação comunista

São Pedro da Cova conheceu uma evolução demográfica significativa com a intensificação da extracção mineira, passando rapidamente de pequeno aglomerado agrícola a subúrbio industrial.
A elevada concentração operária e as condições extremas de exploração nas minas forjaram entre os trabalhadores e a população forte sentido de classe. Muitos são os relatos de resistência ao fascismo empreendidos pelos que contra a repressão e a miséria se erguiam do subsolo para exigir pão, justiça e liberdade.
O encerramento das minas de carvão na década de 70 direcciona a actividade económica local para outros sectores, como a ourivesaria. Apesar disso, o Cavalete do Poço de São Vicente mantém-se como o ícone mais forte.
Com o 25 de Abril de 1974, a organização comunista cresce e afirma-se. Reflexo disso mesmo são as votações que sucessivas listas eleitorais do PCP garantem nesta freguesia do concelho de Gondomar.
Em 1976 e 1979, primeiro a FEPU e depois a APU, quase garantem a vitória nas urnas, a qual chegaria em 1982 e viria a reforçar-se com duas maiorias absolutas, em 1985 e 1989.
A gestão autárquica do PCP e seus aliados é interrompida em 1997 com uma vitória por escassa margem do PSD, mas logo em 2001 a CDU reconquista a Freguesia reiniciando um ciclo de poder ao serviço do povo, confirmado depois no sufrágio de 2005.


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