Os movimentos da Paz rejeitam o tratado europeu e exigem referendos
Encontro Europeu em Lisboa
O movimento da Paz está mais forte
Vinte movimentos da paz de 14 países europeus participaram, nos dias 28 e 29 de Setembro, em Lisboa, num Encontro Europeu que teve como lema «Desmilitarizar a Europa, Defender a Paz».
A organização do Encontro Europeu em Defesa da Paz, como foi denominado, esteve a cargo do Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC), do Conselho Mundial da Paz (CMP) e do Grupo Confederal da Esquerda Unitária Europeia/ Esquerda Verde Nórdica do Parlamento Europeu e realizou-se ao mesmo tempo que, em Évora, estavam reunidos os Ministros da Defesa da União Europeia.
Como notou, na abertura, o secretário-geral do CMP – e deputado no Parlamento Europeu – Athanasios Pafilis, «estas duas reuniões e as suas diferentes agendas constituem um precioso exemplo dos dois mundos que estão actualmente em conflito: de um lado, o mundo do imperialismo, da guerra, dos conflitos, da militarização, da ocupação de países, da luta pela distribuição de mercados e do neocolonialismo (…) do outro, o mundo da paz e do desarmamento, da amizade, solidariedade, independência, liberdade e justiça social».
Da parte dos movimentos da Paz, o debate expressou as preocupações com as «crescentes ameaças à segurança e à paz, que derivam da militarização das relações internacionais e da multiplicação das agressões imperialistas em todo o mundo», lê-se na resolução final aprovada.

Derrotar o Tratado, dissolver a NATO

O rumo militarista da construção europeia esteve no centro do debate. Na sua intervenção inicial, o secretário-geral do CMP considerou mesmo esta tendência militarista como «consequência da própria natureza da União Europeia».
Na opinião dos presentes, a luta contra a militarização da União Europeia não terminou com a derrota do chamado Tratado Constitucional Europeu, em referendos realizados em França e na Holanda. O agora denominado tratado reformador, afirmam, recupera o caminho de reforço militarista. Na declaração final ficou expressa a rejeição do tratado e foi exigida a realização de referendos nos diversos países e o respeito pela vontade dos povos.
Foi ainda condenada a «cooperação cúmplice» da União Europeia com a NATO. Em algumas intervenções e na declaração final denuncia-se a adopção, por parte da UE, do conceito estratégico da NATO. Considerando-a unanimemente como uma organização agressiva e um entrave à paz, os participantes exigiram a dissolução da «aliança atlântica».
A instalação de bases militares estrangeiras em diversos países europeus, a criação de corpos militares e grupos navais de intervenção rápida, o desenvolvimento de novas armas e sistemas de vigilância e comando militar integrado são «outros perigosos aspectos da militarização da Europa», que o Encontro rejeitou com firmeza.
Na declaração final expressava-se ainda a solidariedade com os povos agredidos, cabendo uma menção especial ao povo da Ex-Jugoslávia que enfrenta, ainda hoje, as consequências da ingerência e agressão imperialistas.

Paz chega mais longe

Este Encontro Europeu revelou o crescimento do movimento da Paz. O secretário-geral do CMP realçou o reforço desta estrutura em vários pontos do mundo. No processo de preparação da próxima Assembleia Mundial da Paz, que se realiza para o ano na Venezuela, novos movimentos se têm juntado. Depois de uma reunião da Coordenação Europeia, ocorrida em Junho, realizou-se outra do género na América Latina, estando prevista uma reunião mundial para o próximo mês de Novembro no Vietname.
Também em Portugal o movimento se alarga. No Encontro do fim-de-semana, totalmente inexistente para a comunicação social dominante, estiveram representadas importantes estruturas e organizações nacionais. A CGTP-IN, a Fenprof, o Movimento Democrático de Mulheres e a União dos Resistentes Antifascistas Portugueses participaram nos trabalhos e muitas outras, como o PCP, a JCP e diversos sindicatos, marcaram a sua solidária presença. A Câmara Municipal da Moita também interveio, representando a Associação Internacional Mayors for Peace (Autarcas pela Paz), que congrega 1732 cidades de 122 países.
O Encontro foi o maior do género realizado nos últimos anos, tendo contado com a participação de organizações da Alemanha, Bélgica, Chipre, Dinamarca, Espanha, França, Grécia, Geórgia, Polónia, República Checa, Sérvia, Suíça e Turquia, para além de Portugal. Estiveram também presentes deputados ao Parlamento Europeu da Alemanha, Espanha, Grécia, Portugal e República Checa.

Encontro reafirma
Não ao «escudo anti-míssil»


Em destaque no Encontro esteve a luta contra o sistema de «escudo anti-míssil» que os Estados Unidos estão a instalar no coração da Europa, nomeadamente na Polónia e na República Checa. Ao contrário do que é apregoado pelos EUA e pelos seus serviçais europeus, este sistema está longe de ter as declaradas «funções defensivas». Quem o afirmou foi Jiri Bures, da Associação Cívica Soldados Contra a Guerra, da República Checa. Na sua opinião, o sistema é parte integrante da estratégia militar norte-americana e da «doutrina de Bush de ataques preventivos».
Para este activista checo, esta iniciativa dos Estados Unidos da América provocou «reacções muito negativas» na Federação Russa e críticas por parte da China. Também em países da União Europeia, nomeadamente alguns dos países vizinhos da República Checa, foram expressas objecções. Jiri Bures teme que este sistema possa vir a despoletar uma corrida aos armamentos que «não se ficará, obviamente, apenas pelos dois rivais (EUA e Rússia)».
Jiri Sobotka, da Sociedade da Paz Checa, relatou, por seu lado, que existe no país um cada vez mais amplo movimento de oposição à instalação das componentes deste sistema. No plano social, com diversas autarquias e movimentos sociais, e no plano político, com o apoio de alguns partidos, nomeadamente do Partido Comunista da Boémia e Morávia.
Também Milan Krajca, do Movimento da Paz Checo, realçou a oposição do povo da República Checa à instalação das bases no país. Os habitantes das localidades vizinhas à localização prevista para as bases realizaram já vários protestos. Também os autarcas dessas localidades promoveram um movimento contra este projecto.
Milan Krajca destacou ainda a adesão de inúmeros e prestigiados intelectuais ao movimento de exigência de um referendo sobre esta matéria, enquanto que a coligação «Não às Bases» também desempenha um relevante papel. O jovem activista checo vincou o papel desempenhado pelo Partido Comunista da Boémia e Morávia e pela recentemente ilegalizada União da Juventude Comunista (KSM). Só a petição promovida pela juventude comunista, afirmou, foi assinada por mais de 130 mil pessoas.
Beata Karon, do Movimento Anti Bases, da Polónia, considera o governo actual do seu país como o «melhor aliado dos Estados Unidos da América», ao defender mesmo que o Estado polaco possa contribuir com parte dos custos da instalação das bases do «sistema anti míssil».
Apesar da «maioria da sociedade polaca ser contra a instalação das bases», Beata Karon considera não haver ainda um forte movimento de oposição, sobretudo se comparado com as movimentações populares de oposição à agressão contra o Iraque, em 2003 e 2004. Mas há organizações empenhadas em construir um movimento largo e abrangente para combater de forma mais eficiente a instalação do sistema no país, afirmou. Para cumprir tal objectivo há também que dissipar o manto de desinformação que, na Polónia, recaiu sobre este assunto.


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