Suplemento
do Avante!
dedicado a
Adriano
Correia
de Oliveira
Adriano Correia de Oliveira
Solidário sempre
Adriano Correia de Oliveira nasce no Porto, em 1942.
Os pais mudam-se para Avintes, para a Quinta das Porcas, na margem esquerda do Rio Douro, que será sempre para Adriano o centro do mundo de todos os lugares do mundo por onde andou.

Sempre que podia ia para a varanda da Quinta das Porcas ver o rio, nadar, remar pescar. Com ele os amigos, os muitos amigos de amizades que sabia construir como ninguém.
Em Avintes, frequenta a escola primária e, com o liceu feito no Porto no inicio de cursar Direito em Coimbra, funda com outros jovens estudantes, a União Académica de Avintes que começou a ser muito conhecida pelas actividades culturais e desportivas.
Adriano era muito activo na música. O conjunto musical da União Académica ensaiava na Quinta das Porcas. No desporto, era um excelente praticante de voleibol, mesmo falhando quase todos os treinos.
Adriano, nunca deixou de tocar com esse grupo, mesmo quando já era nome conhecido na canção nacional que se estava a renovar.
Em Coimbra, inicia os estudos universitários, inscreve-se na secção de voleibol da Académica e ocupa o lugar de primeiro tenor no Orfeão Académico de Coimbra. A sua voz impar distingue-se pelo timbre e pela clareza.
À sua volta, Portugal está sob o peso da ditadura fascista, e a resistência democrática dá e sofre vários golpes. São as lutas estudantis contra o decreto-lei 40900, é o I Congresso Republicano, são as lutas camponesas e operárias.
Adriano, sempre activo e solidário, opta pela via da resistência consequente. Em 1960 inscreve-se no Partido Comunista Português. Meses antes, uma dezena de presos políticos, entre os quais Álvaro Cunhal, evadira-se do Forte de Peniche.
A sua intervenção cultural é cada vez mais activa. Faz teatro no CITAC, escreve para os Cadernos Culturais.
Publica o primeiro disco com quatro fados de Coimbra.

Anos de brasa

1961/1962 são de anos de brasa. Há greves operárias e camponesas de norte a sul do país. O 1º de Maio de 62 é a maior comemoração de sempre, em Portugal, do Dia do Trabalhador. A União Indiana liberta e recupera Goa. Começa a Guerra Colonial. Há uma tentativa de assalto ao quartel de Beja. José Dias Coelho é assassinado pela Pide. Ocorre a espectacular fuga de Caxias.
Em Lisboa, na sequência da proibição, pelo governo fascista, da comemoração do Dia do Estudante, intensificam-se as lutas estudantis, dando inicio a uma prolongada greve que alastra às outras academias. Mais de 1500 estudantes são presos.
Adriano, então a viver e a estudar em Lisboa, regressa a Coimbra e está presente em todas as lutas académicas. Não deixa de cantar, fazendo o canto participar na luta.
Em 1963, Adriano está em Coimbra a viver na República Rás-te-Parta onde funcionará a sede da candidatura democrática às eleições da Associação Académica. Grava um disco emblemático: “Trova do Vento que Passa”, poema de Manuel Alegre e música de António Portugal.
A Guerra Colonial alarga-se a outras colónias. Em 1964 Álvaro Cunhal escreve o Rumo à Vitória, que viria a ter uma importância determinante na intensificação da luta contra o fascismo e rumo ao 25 de Abril. O general Humberto Delgado é assassinado pela PIDE.
Luandino Vieira, com o romance Luuanda, ganha o prémio da Sociedade Portuguesa de Autores que na sequência é assaltada e fechada pela Pide.
Ainda não foi cantada em verso mas, para ele, Adriano, a canção já é uma arma.

Pela mão de Adriano

Entre 1966 e 1968, Adriano Correia de Oliveira volta para Lisboa. Casa, é incorporado na tropa, nasce uma filha, continua a cantar e a lutar politicamente num país sempre em sobressalto que subitamente, vê o ditador cair da cadeira e ficar inutilizado, sendo substituído por outro ditador que simula abrir uma janela enquanto verifica se as portas continuam todas trancadas.
Adriano canta, solidário com todas as lutas dos estudantes e dos operários. Publica o disco Adriano Correia de Oliveira que é distinguido com o prémio Pozal Henriques, a maior distinção da música «ligeira» em Portugal.
De 1969 a 1973 vivem-se anos históricos na canção de intervenção.
São vários os discos então surgidos que irão marcar impressivamente a canção portuguesa. O primeiro disco LP é de Adriano: O Canto e as Armas.
É pela mão de Adriano que muitos novos cantores e músicos surgem. Acontecimentos musicais determinantes para o futuro, todos com a marca de luta antifascista, sucedem-se. A televisão cobre em directo um espectáculo de fados e baladas de estudantes de Coimbra, a propósito da Queima das Fitas. De súbito uma voz admirável eleva-se para cantar a Trova do Amor Lusíada e Trova do Vento que Passa. É a voz de Adriano que, com a coragem que o acompanhou durante toda a vida, não deixa fugir a oportunidade de enfrentar o poder. É um escândalo. A emissão é interrompida. Em 1971, no Coliseu de Lisboa dá-se o I Primeiro Encontro da Canção Portuguesa. Participam Barata Moura, Vitorino, José Jorge Letria, Fausto, Manuel Freire, Zeca Afonso e Adriano. Um espectáculo memorável rigorosamente vigiado pela Pide, enquanto lá fora o fascismo não pára de apodrecer e abanar com as lutas que irrompem por todo o país.

A canção na rua

25 de Abril! A Revolução dos Cravos. A canção salta para a rua e Adriano está na primeira linha. É um dos fundadores no Colectivo de Acção Cultural, participa no I Festival da Canção Portuguesa no Coliseu dos Recreios e no I Festival da Canção Livre. Anda pelo país fora levando a mensagem do seu partido, o Partido Comunista Português, com a sua voz inconfundível. Vai aos lugares mais longínquos onde quase ninguém ousa ir. Grava o disco Que nunca mais que lhe vale o título de Artista do Ano da revista inglesa Music Week.
Em 1976 pertence ao Comité Organizador da 1ª Festa do Avante! onde participará sempre com imenso empenho. Continua a cantar por todo o país sempre com grande sentido de militância e companheirismo. A sua presença física, a sua afabilidade e a sua voz impõem-se mesmo em situações complicadas, muitas vezes conseguindo ultrapassar tentativas de boicote. Finalmente consegue realizar um velho sonho profissional: ser um dos fundadores de uma cooperativa artística, Cantarabril, de onde sairá em violenta controvérsia para entrar noutro colectivo de artistas, a Era Nova, com muitos dos seus primeiros companheiros de andanças musicais.
Adriano cantou até ao fim da sua vida. Cantou sempre com voz firme as belas canções com que travejava a sua actividade de artista empenhado nas lutas do povo a que pertencia. Assim foi até ao último dia da sua vida em 16 de Outubro de 1982.
Em princípios de Setembro participou no Coliseu dos Recreios numa festa de solidariedade com os trabalhadores da Anop. No final do mesmo mês está em Mondim de Basto, a cantar numa escola, num encontro do Partido. Foi o seu último espectáculo.
Adriano Correia de Oliveira viveu intensamente, com imenso amor pela vida, construindo inúmeras e sólidas amizades, sempre ao lado do seu povo, sempre com o seu Partido. Fez sempre imensos projectos. Muitos concretizou, como a sua obra musical bem o evidencia. Outros, como um disco de músicas infantis, um dicionário de música de intervenção, nunca chegou a concretizar: os anos breves que viveu roubaram-lhe o tempo necessário. Nunca desistiu de colocar em prática as suas ideias mesmo até ao dia em que, brutalmente, foi ceifado da vida e da actividade criadora.
Até à morte

Adriano esteve desde cedo e até à morte com aqueles para quem a liberdade se concretiza em metas como a abolição da exploração pela mais-valia, a libertação da terra latifundiária, a realização pragmática, e até constitucional, das melhores virtualidades humanas, individuais e colectivas, e como autêntica autodeterminação nacional, na economia e na cultura. (…)
Encontramos a mais íntima associação entre o amor, o companheirismo caloroso, a devoção pátria e a solidariedade com o povo explorado, a solidariedade com a mó de baixo, que é sempre a mais consequente denúncia em qualquer processo histórico.
Óscar Lopes




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