A luta vai prosseguir e alargar-se, pela mudança de políticas
Mais de 200 mil levaram protestos justos ao Governo e à UE
Uma poderosa manifestação
Com um nível de participação inédito, nos últimos 20 anos, a manifestação nacional de 18 de Outubro constituiu uma «poderosa acção de protesto dos trabalhadores portugueses contra a intensificação da exploração a que estão sujeitos nos locais de trabalho e contra as políticas que têm conduzido à acelerada degradação das suas condições de vida».

Numa nota divulgada no dia seguinte, a CGTP-IN reafirma a estimativa de mais de 200 mil participantes e considera que a manifestação se traduziu ainda «na reclamação de uma construção europeia assente no progresso, justiça social e paz». A central saudou «todos aqueles que, com entusiasmo e convicção, participaram nesta acção sindical, dando-lhe forte expressão e um significado que representa um contributo importante para a afirmação futura dos anseios e reivindicações dos trabalhadores».
Esta «expressão do descontentamento dos trabalhadores não pode ser ignorada pela sociedade em geral e constitui um sério aviso, quer para os governantes, quer para o patronato», os quais «têm de entender, de uma vez por todas, que o modelo de produção baseado em mão-de-obra barata, pouco qualificada e precária está definitivamente condenado e que os problemas do País não se resolvem com os continuados e violentos ataques aos direitos dos trabalhadores e, muito menos, com as tentativas de anular a acção e o papel dos sindicatos na sociedade».
Também no dia 19, a União dos Sindicatos de Braga declarou que a manifestação, na qual participaram «mais de cinco mil trabalhadores de diversos sectores e empresas» do distrito, «dá total confiança de que os direitos dos trabalhadores serão respeitados, ou o Governo pagará politicamente, e em breve, todas as malfeitorias que está a fazer».
A Federação Nacional de Sindicatos da Função Pública, em nota publicada no seu sítio na Internet, afirma que «foram duzentos e cinquenta mil, os trabalhadores que na rua disseram, alto e bom som, ao Governo, que não querem a "flexigurança", políticas de baixos salários, a destruição dos serviços públicos e trabalho sem direitos». Na manifestação estiveram «muitos milhares de trabalhadores da Função Pública».
Em tempo de retrocessos sociais, engenharias orçamentais e destruição de direitos, mas também de resistência e de afirmação dos valores democráticos, a participação de mais de 200 mil trabalhadores na manifestação de dia 18 representa «um aviso, uma exigência e um apelo a este Governo, para que inverta o curso da sua política», comentou, por sua vez, o Sindicato dos Professores da Região Centro.

Para continuar

Na saída da estação de Metro dos Olivais, para onde foi marcada a concentração inicial, pouco passava das 14.30 horas aprazadas e já era notória a grandiosidade da manifestação que dali seguiria para o Parque das Nações. Muitos trabalhadores deslocaram-se em autocarros, e algumas estruturas distritais da CGTP-IN tinham revelado, na antevéspera, números impressionantes. Àquela hora, já ali se chegava apenas de Metro... ou a pé. Os milhares de pessoas que se estendiam, atrás das faixas que identificavam regiões, sectores e empresas ou serviços, em direcção à Avenida de Berlim, levaram a que a Polícia cedo tivesse começado a limitar a circulação automóvel na área. Na Avenida Cidade de Luanda, os manifestantes foram ganhando espaço. Passada a Praça Baden Powell, o desfile ocupou ambas as faixas da Avenida de Berlim, já com a Gare do Oriente a ver-se ao fundo. A umas dezenas de metros, Jerónimo de Sousa e outros dirigentes do PCP aplaudiam a manifestação, recebendo calorosos cumprimentos e acenos amigos, ou mesmo a saudação especial de um grupo de percussão.
Ao longo de mais de duas horas de uma tarde de sol, mais quente do que o Outono seria capaz de prometer, avenida fora foram desfilando os dirigentes da CGTP-IN, a Interjovem, a administração local de Aveiro, as indústrias eléctricas do Porto, os têxteis do Minho e Trás-os-Montes, o comércio e a construção civil de Braga, metalúrgicos e outros sectores de Viana do Castelo, de Bragança, do Porto... os enfermeiros (que nessa manhã tinham estado concentrados junto ao Ministério da Saúde, onde terminaram duas semanas de «rota da precariedade»), a delegação dos estudantes de Coimbra, os professores, os trabalhadores dos transportes e comunicações, empresas de Lisboa e de Setúbal... O mapa do País estava ali inteiro, incluindo Açores e Madeira.
Nas faixas e cartazes transportavam razões justas. Gritavam palavras de ordem, como «o País não se endireita com políticas de direita» e «é preciso, é urgente, uma política diferente» (aqui e ali descodificada para «uma política de esquerda»); chamavam «mentirosos, mentirosos» aos que prometem social mas cumprem capital; aos governantes da UE, à presidência portuguesa e à Comissão encabeçada por Durão Barroso, exigiram que «qualquer que seja o tratado, deve ser referendado».
A mais repetida das palavras de ordem terá sido, certamente, «a luta continua», com alguma frequência acompanhada de «Governo para a rua», embora esta última parte não constasse da lista distribuída aos manifestantes.
Dentro do túnel, sob as linhas da Gare do Oriente, o som ecoava mais forte, apelando ao fôlego daqueles milhares de resistentes. Muitos já não puderam ouvir a intervenção de Carvalho da Silva nem a leitura da resolução «Por uma Europa social, Emprego com Direitos», no palco, instalado a Poente do centro comercial, tendo por fundo, lá ao fundo, o Pavilhão Atlântico, onde se instalou a presidência portuguesa e onde reuniam a essa hora os chefes de Estado e de governo da UE.
Também do palco, a mensagem apontou ao futuro, proclamando uma «firme determinação de prosseguir e aumentar a acção sindical e a luta reivindicativa nos locais de trabalho, a nível dos sectores e das regiões, em torno de propostas fundamentadas que reflictam os reais anseios dos trabalhadores». E foram lembradas as linhas de acção para os próximos tempos: «esclarecer, mobilizar e unir os trabalhadores em torno das suas reivindicações; reforçar os laços de solidariedade para com os jovens trabalhadores e entre todas as gerações de trabalhadores, independentemente do seu estatuto profissional ou do seu vínculo laboral; construir convergências e conjugação das lutas, de forma a que estas ganhem mais força e eficácia na prossecução dos seus objectivos reivindicativos».
Com ânimo redobrado pelo sucesso desta jornada, a luta pela mudança de políticas, em Portugal e na União Europeia, continua.


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