Editorial

«Os EUA têm um peso determinante na construção desta UE do grande capital»

UMA ESPÉCIE DE DEMOCRACIA

O processo de construção desta União Europeia evidencia luminarmente o conceito de democracia que povoa o pensamento dos seus construtores. Todos os dias somos confrontados com posturas e decisões de claro afrontamento e violação de princípios democráticos, de prepotência e arrogância imperial em que os direitos democráticos dos cidadãos e dos povos são desprezados, por vezes brutalmente espezinhados. E é assim desde o início desse processo.
Quando do Tratado de Maastricht – o que criou a coisa com o nome que agora usa: União Europeia – ficou célebre a reacção desses construtores à vitória do «não» no referendo realizado na Dinamarca. Tal resultado - que, por si só, naquelas circunstâncias, inviabilizava o Tratado – foi ignorado e, graças a um golpe de rins sem vergonha, levou à realização de outro referendo. Foi nessa altura que o então Presidente da Comissão Europeia, Jacques Delors, abriu o jogo democrático: far-se-ão tantos referendos quantos os necessários até o «sim» ganhar.
Agora, parece que esse obstáculo não se colocará, pois tudo indica que não haverá mesmo referendo.
Durão Barroso, Presidente da Comissão Europeia, na entrevista ao Diário de Notícias, informou que «é tão legítimo um como o outro modo de aprovação do Tratado» - o que ele não aceita, como democrata que é, «é que se desvalorizem os parlamentos e se caia no populismo permanente»….
Então, em princípio, o Tratado Porreiro Pá será aprovado no sossego das maiorias que, eleitas democraticamente, dominam os parlamentos, sem a aventura populista de o submeter à vontade dos povos.
No entanto, se, por exigências de fachada democrática – e, como é sabido, para estes democratas o que conta não é sê-lo mas parecê-lo – vierem a optar pelo referendo, fá-lo-ão tratando de assegurar previamente a vitória do «sim», mesmo que tal objectivo passe por fazerem tantos referendos quantos os necessários.
Num caso ou noutro tratarão de assegurar à assinatura do Tratado a categoria da pescada que, de acordo com o dito popular, antes de o ser já o era.

O conceito de democracia em vigor nesta União Europeia do grande capital – bem como a sua total subordinação ao conceito em vigor nos Estados Unidos da América – ficaram exuberantemente expostos na entrevista acima referida.
Falando da ocupação do Iraque, Barroso jura que, a ele e a outros foram dadas informações que não correspondiam á verdade.
Quanto às responsabilidades dos que lhe mentiram – Bush, Blair, Aznar - nada. Quanto às consequências da mentira – o morticínio de centenas de milhares de inocentes – nada.
Pelo contrário, Barroso, atingindo o grau máximo do despudor, mercadeja assim o seu apoio à carnificina: «E Portugal, ao dizer que sim ao aliado norte-americano, não perdeu nada na Europa com isso» - e, explica aquilo que, na sua opinião, Portugal ganhou: «Repare, eu fui, depois dessas decisões que tomei, convidado a ser Presidente da Comissão Europeia».
Ficamos, assim, a saber que o cachet de Barroso por ter tomado as decisões que tomou – cujas consequências foram, repita-se, apoiar o morticínio de centenas de milhares de inocentes – foi a sua designação para Presidente da Comissão Europeia.
Acrescentou, ainda, uma outra preciosa informação: a de que as decisões que tomou «reforçaram a confiança que Portugal tem da parte dos Estados Unidos».
E vai, mesmo, ao ponto de, num lamento solidário, estender a mão às mãos sangrentas de Bush: «Hoje em dia é fácil pôr as culpas no Presidente Bush».

Quer isto dizer que Bush tem em Blair, Aznar e Barroso três lacaios da máxima confiança – aos quais, pelos vistos, paga bem:
Aznar dá aulas na Universidade de Georgetown – onde ensina elogios à política de Bush e explica as vantagens e a necessidade de a UE ter como referência permanente os interesses dos EUA. Além disso, de há ano e meio para cá, ocupa o cargo de membro do Conselho de Administração do império mediático de Rupert Murdoch, a multinacional News Corporation – onde, de momento, dá andamento acelerado a duas amplas acções de carácter ideológico específicamente dirigidas, uma, aos jovens dos países da Europa de Leste, outra, aos jovens da América Latina.
Quanto a Blair - que, pela sua obediência cega aos interesses do imperialismo norte-americano, ficou conhecido em certos meios por «o caniche de Bush», e a quem Mandela designou por «ministro dos negócios estrangeiros dos EUA» - para além de, tal como Aznar, ter estreitas relações com a News Corporation de Murdoch», abichou a função de mediador entre palestinos e israelitas – assim indo fazer mais inferno onde já há inferno de sobra.
Quer isto dizer, ainda, que os EUA têm um peso determinante na construção desta União Europeia do grande capital – um peso que confirma ser a UE uma espécie de sucursal do imperialismo norte-americano na Europa.

E com tudo isto, é Portugal – o seu presente e o seu futuro, a sua independência e a sua soberania – que está em jogo - entregue a pessoas como este entrevistado, cujo mal menor que apresenta é o de, ajeitando a gravata, meneando os ombros e sorrindo, dizer que trata «quase todos os ‘grandes’ do mundo por tu» - à semelhança da generalidade dos governantes executores da política de direita em Portugal, cujo provincianismo parolo os faz vangloriarem-se de serem conhecidos e conhecerem figuras gradas da política internacional.
E tudo isto convoca a emergência de um sobressalto cívico, cidadão e patriótico por parte dos portugueses.


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