As guerras do Iraque e Afeganistão custam 20 mil dólares a cada família norte-americana
Conflitos no Iraque e Afeganistão incomportáveis
Norte-americanos fazem contas à guerra
Os EUA ocultam os reais custos materiais e humanos das guerras no Iraque e Afeganistão. Informações recentes triplicam o número de vítimas oficiais entre os soldados norte-americanos.
Enquanto republicanos e democratas continuam a esgrimir argumentos no Congresso e no Senado quanto ao financiamento das guerras na Ásia e Médio Oriente e a possível retirada das tropas yankees dos territórios ocupados, informações divulgadas por órgãos de comunicação social norte-americanos acrescentam à discussão dados que revelam os reais custos materiais e humanos dos conflitos levados a cabo nos últimos seis anos.
Números oficiais afirmam que no Iraque as baixas entre os soldados norte-americanos desde 2003 não ultrapassam as quatro mil, mas um cálculo mais apurado indica que a cifra total das vítimas decorrentes da guerra é mais do triplo do que o Pentágono admite.
Uma investigação levada a cabo pela CBS News estima em 15 mil o número de soldados mortos em consequência do conflito. Segundo os elementos recolhidos pela cadeia de televisão, só em 2005 os suicídios registados entre os veteranos provenientes de 45 estados norte-americanos ascendiam a 6256, um recorde absoluto e dramático se tivermos em conta que a maioria dos ex-soldados tem entre 20 e 24 anos.
Se a 6250 somarmos os 3865 soldados mortos no Iraque, de acordo com a versão das autoridades dos EUA, concluímos que o total ultrapassa a dezena de milhar de vítimas.
Acresce à equação, ainda de acordo com a CBS, que se extrapolarmos os novos dados admitindo que o número de suicídios entre os veteranos em cada um dos restantes anos de guerra pouco ultrapassou os 2000, então é legítimo admitir que o número de soldados falecidos na sequência da guerra anda próximo dos 15 mil indivíduos.

Deserções aumentam

Neste contexto, não é de estranhar que o número dos desertores desde a invasão do Iraque tenha aumentado 80 por cento, batendo a taxa verificada em 1980.
Desde o ano passado ocorreu um incremento de 42 por cento, confirma o exército norte-americano. Até Setembro de 2007, abandonaram o serviço militar 4698 pessoas, avançam ainda as informações oficiais.

Peso no orçamento

Aos novos cálculos do número de mortos provocados pela guerra do Iraque juntam-se exercícios similares quanto ao custo dos conflitos naquele país do Médio Oriente e também no Afeganistão.
Segundo os cálculos dos eleitos democratas do Comité Económico do Congresso, revelados a semana passada pelo Washington Post, as guerras já custaram em média a cada família norte-americana 20 mil dólares.
Para chegar a este valor, o Comité teve em conta o que chamou os «custos ocultos da guerra», os quais incluem os efeitos nos orçamentos familiares da subida do preço do petróleo, as despesas dos tratamentos dos feridos e mutilados, e os juros pagos sobre os créditos de guerra.
Assim, dizem os democratas, os custos das guerras promovidas pela administração Bush no Iraque e no Afeganistão não totalizam 804 mil milhões de dólares, mas sim 1500 mil milhões de dólares.

Cada vez mais pobres

Ao passo que a grande burguesia alimenta taxas de lucro fabulosas com a economia da guerra, milhões de norte-americanos não dispõem de rendimento suficiente para responder às mais básicas necessidades.
Segundo um estudo do Departamento de Agricultura e o Instituto Nacional dos Censos dos EUA, cerca de 35 milhões de norte-americanos, 12 por cento da população do país, não possuem quaisquer recursos para se alimentarem quando estão desempregados, situação particularmente grave entre os adolescentes e as mães solteiras, subgrupo que totaliza quase 14 milhões de pessoas.
Os dados do Centro Americano para o Progresso (CAP) são ainda mais alarmantes na medida em que afirmam que um em cada oito cidadãos, 12,5 por cento da população, 37 milhões de seres humanos, sobrevive na mais absoluta miséria.
A indigência afecta sobretudo os imigrante, diz o CAP, com a comunidade proveniente da América Latina a ser a mais afectada, com 21 por cento de pobres.

Iraque
Refugiados provocam ruptura

No terreno minado pela violência e pela ocupação, o quotidiano de milhões de iraquianos resume-se a pouco mais do que a luta constante pela sobrevivência. Uma das principais chagas são os deslocados de guerra.
A semana passada, o governo de Bassorá, a 550 quilómetros a Sul da capital Bagdad, informou que não tem condições para receber mais refugiados na cidade. As autoridades dizem que os serviços sanitários, de educação e assistência médica estão em completa ruptura. Nos últimos meses, cerca de 40 famílias por dia procuram refúgio na cidade, facto que está na base da deterioração das condições de vida locais.
O Sul do Iraque é, ainda assim, a área onde menos iraquianos se encontram refugiados, pouco mais de 700 mil, segundo a ACNUR. Dados da agência das Nações Unidas afirmam que nas províncias do Norte e Centro do país o número chega ao milhão e 600 mil errantes.
As crianças são as principais vítimas da ruptura humanitária que se verifica. Só no Sul, estima-se que 70 por cento dos menores sofrem de desnutrição grave ou crónica.

Escândalo Blackwater

Os escândalos relacionados com os proveitos da guerra do Iraque continuam a vir à tona. Desta vez é a empresa de segurança privada norte-americana Blackwater o alvo da investigação.
O caso envolve os irmãos Alvin e Howard Krongard, o primeiro executivo da sociedade paramilitar, e o segundo inspector-geral do Departamento de Estado norte-americano.
Uma investigação recente à contabilidade da empresa efectuada pelo Comité de Vigilância e Reforma da Câmara de Representantes levanta a hipótese da companhia ter efectuado diversas operações com o objectivo de fugir aos impostos, lesando o fisco norte-americano em qualquer coisa como 30 milhões de dólares.
A investigação lança dúvidas igualmente sobre os processos de concessão de contratos de segurança privada à Blackwater no Afeganistão e no Iraque, os quais terão sido alegadamente facilitados pela relação entre Alvin e Howard.
Recorde-se que a Blackwater está ainda a ser investigada pelo FBI a respeito do massacre de 17 civis iraquianos em Bagdad, no passado dia 16 de Setembro.
Segundo o The New York Times, as autoridades terão mesmo concluído que os mercenários da empresa no território terão disparado de forma indiscriminada e sem qualquer razão aparente, desmentindo a versão dos funcionários que sustentam ter respondido a um ataque na praça de al-Nasur.
Em curso está também um inquérito à actuação da congénere Unity Resources Group, acusada do massacre de duas mulheres, a 9 de Outubro, quando circulavam numa viatura particular.


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