• Gustavo Carneiro

Centros de Trabalho de Ovar e Covilhã remodelados
De portas abertas para a vida
Foram inaugurados, no fim-de-semana, depois de remodelados, os Centros de Trabalho de Ovar e Covilhã. Testemunho do reforço do Partido, a remodelação dos Centros de Trabalho é, ao mesmo tempo, um importante contributo para o fortalecimento da organização e influência do PCP, afirmou Jerónimo de Sousa, que participou nas duas inaugurações.
O fim da tarde de sexta-feira foi o momento escolhido para celebrar a remodelação do Centro de Trabalho de Ovar. Situado no centro da cidade, na Praça da República, junto à Câmara Municipal, o edifício que desde Julho de 1974 alberga a sede concelhia do PCP foi um centenário armazém de cereais, com dois andares. Pela sua dimensão e, agora, pelos acabamentos, é impossível não reparar nele.
Indiferentes ao frio e à chuva, dezenas de militantes e simpatizantes do Partido no concelho concentravam-se à porta do Centro de Trabalho, esperando a chegada do secretário-geral do PCP. Alguns, visivelmente satisfeitos, conviviam no interior do edifício, percorrendo as salas como que inspeccionando a obra uma última vez. Em conversa com alguns deles, soubemos que a ideia de restaurar o Centro de Trabalho ganhou força há cinco anos, quando o Partido adquiriu finalmente o edifício.
O Centro de Trabalho de Ovar, disseram-nos também, foi a primeira sede do PCP no distrito de Aveiro. E o único da região que não chegou a ser assaltado no ano de 1975. A organização partidária era forte – Ovar era mesmo conhecida como «Barreiro do Norte» – e, apesar das muitas investidas reaccionárias, a agressão nunca se chegou a consumar.
Como afirmou na inauguração Miguel Viegas, da Comissão Concelhia, «se estamos aqui presentes é porque este Centro de Trabalho já existia, é porque houve camaradas que, há muitos anos atrás, trataram da sua verdadeira inauguração a 7 de Julho de 1974». Entre eles, destaca-se Moisés Lamarão, histórico militante ovarense, já falecido, combatente antifascista na Guerra Civil de Espanha e dedicado militante do Partido até à sua morte, pouco depois do 25 de Abril. O próprio Álvaro Cunhal pernoitou clandestinamente em sua casa, contaram-nos. É o seu retrato que está exposto no átrio do renovado Centro de Trabalho.
Quanto à remodelação do edifício, Miguel Viegas salientou que se tratou verdadeiramente de uma «obra colectiva». Desde a sua decisão, à discussão e execução, «foi um processo longo mas discutido e amplamente participado». E agradeceu as largas centenas de contributos financeiros e materiais e as «milhares de horas» de trabalho voluntário por parte de muitos construtores. Os seis artistas que doaram obras que servirão para embelezar e valorizar o Centro de Trabalho não foram esquecidos na hora dos agradecimentos.
Miguel Viegas destacou que a sede é um local «bonito e agradável». Mas é também, e sobretudo, um «instrumento ao serviço dos trabalhadores e do povo» do concelho.
Depois de proferir algumas palavras (ver texto), Jerónimo de Sousa retirou a bandeira do Partido que cobria um painel de azulejo com uma inscrição de Álvaro Cunhal, concretizando assim a inauguração simbólica da nova sede comunista em Ovar. Após a inauguração, a festa continuou num restaurante próximo.
No painel de azulejo, colocado junto à entrada do Centro de Trabalho, pode ler-se: «A maior alegria do militante comunista resulta do êxito alcançado, não para benefício próprio, mas para benefício do povo.»

Uma longa recuperação

No domingo foi a vez do Centro de Trabalho da Covilhã ser inaugurado, após as obras de requalificação a que foi sujeito. Situado em plena zona histórica da cidade, o Centro de Trabalho funciona desde 1975 num antigo solar – a Casa das Morgadas. Depois de remodelado e pintado, o imponente edifício salta ainda mais à vista ao contrastar com o estado de degradação de muitos prédios vizinhos.
A cerimónia estava marcada para as 11.30 da manhã, mas meia hora antes já dezenas de militantes comunistas tinham chegado ao local e percorriam a renovada sede, observando e comentando entre si as melhorias verificadas. Também a banda filarmónica local chegou um pouco mais cedo e os acordes da Grândola, Vila Morena aqueceram o ambiente. À chegada de Jerónimo de Sousa, a música alterou-se. A Internacional deu o mote ao içar da bandeira comunista e A Portuguesa fez o mesmo com a bandeira nacional.
O dirigente regional do Partido, António Cardoso, falando na mais famosa sala do edifício, o Salão dos Continentes, agradeceu a todos quantos contribuíram para tornar possível a requalificação do Centro de Trabalho do PCP na Covilhã, lembrando, porém, que a campanha de fundos continua.
Em sua opinião, «esta obra não terá significado nenhum se ela se mantiver tal qual como está – limpinha, com as cores todas brilhantes – mas se não lhe dermos vida e se não aproveitarmos este magnífico espaço para fortalecer o Partido no concelho e no distrito de Castelo Branco». Aliás, «é para isto que existem os nossos centros de trabalho».
A Casa das Morgadas, que desde 1975 alberga a estrutura local e regional do Partido, é conhecida por uma das suas salas, o Salão dos Continentes. A sua principal atracção é o tecto, que foi mandado construir em 1642 pelo proprietário, Simão Cardoso Tavares, um rico industrial têxtil. Alguns anos mais tarde, por volta de 1690, foi pintada uma alegoria aos quatro continentes já descobertos naquele tempo – Europa, Ásia, África, América. O autor permanece desconhecido, mas sabe-se que foi executado por um mestre de uma oficina que existia na Covilhã, chamado Manuel Pereira.
As pinturas foram consideradas por muitos historiadores de arte como raras, ao tratarem temas profanos, pouco em voga no universo religioso da época. Os elementos da vida animal e vegetal dos continentes revelam também uma abertura ao humanismo, consideram os especialistas.
A preservação do tecto do Salão dos Continentes foi uma preocupação constante do PCP desde que se instalou no antigo solar. Após várias recusas das autoridades municipais, acabou por ser o próprio Partido a substituir o telhado, para que parasse de chover no salão.
Depois de anos a pedir cooperação a diversas entidades, o PCP conseguiu o apoio da Região de Turismo da Serra da Estrela para a recuperação do tecto. A 30 de Abril de 2002, após um processo de requalificação que envolveu o IPPAAR, o salão abriu as suas portas ao público pela primeira vez, remodelado. Cinco anos depois, foi todo o edifício a ser recuperado.

Jerónimo de Sousa inaugurou Centros de Trabalho
Um forte laço com as regiões
e os trabalhadores


O secretário-geral do Partido interveio nas duas inaugurações, destacando que são os Centros de Trabalho que «estabelecem o laço mais forte com o militante, com a região e com os problemas concretos que afectam os trabalhadores e as populações dessas mesmas regiões».
Considerando importante que os Centros de Trabalho do Partido ganhem, com estas obras, uma nova imagem, Jerónimo de Sousa salientou que o que é necessário é que ganhem também «uma nova dimensão». As casas do Partido, prosseguiu, têm de ser casas naturalmente abertas: aos militantes, em primeiro lugar, mas também aos trabalhadores e às populações que hoje são atingidas por esta política de direita». Os distritos de Aveiro e Castelo Branco, recordou, são duas regiões especialmente afectadas pelos encerramentos de empresas e liquidação de postos de trabalho.
A abertura ou reabertura dos Centros de Trabalho é muito importante para o reforço da organização do Partido. Mas estes devem também estar abertos e disponíveis para ouvir os trabalhadores e, principalmente, para agir e trabalhar com eles na defesa dos seus direitos». Para Jerónimo de Sousa, o que realmente assusta as classes dominantes é a luta organizada, «aquela que leva à consciência social e política». A função de uma casa do Partido, realçou, é precisamente «procurar que os militantes comunistas se organizem, reforçando também a organização dos trabalhadores aos mais diversos níveis».
O secretário-geral do PCP valorizou ainda que estas inaugurações ocorram num momento em que o Partido se reforça. Desde o XVII Congresso já aderiram ao Partido mais de 4 700 novos militantes. E tanto que se disse acerca do definhamento e da morte, a prazo, do PCP, lembrou… «Este Partido Comunista, enquanto mantiver esta ligação aos trabalhadores e ao povo português, será um partido indestrutível, será um partido que vai crescer e aumentar a sua influência, porque esta é a sua razão de ser.»


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