Joaquim Pires Jorge, Francisco Miguel e José Dias Coelho
<font color=0094E0>Heróis do Partido</font>
Com uma história de quase meio século de resistência heróica à ditadura fascista, o PCP tem na sua história diversos militantes que, pela sua entrega, dedicação e comportamento, em tempos de enorme exigência e perigos vários, foram elevados à categoria de heróis. O PCP está a assinalar o centenário do nascimento de dois deles, Joaquim Pires Jorge e Francisco Miguel Duarte. Este último, que faria 100 anos anteontem, foi homenageado em Beja numa sessão pública. Pires Jorge teve a sua homenagem no passado dia 28 de Novembro, na junta de freguesia de Alcântara, mesmo no coração da Lisboa operária onde nasceu e cresceu.
A Biblioteca Municipal José Saramago, em Beja, encheu-se anteontem de militantes e simpatizantes do Partido que quiseram homenagear um dos mais destacados comunistas alentejanos, Francisco Miguel Duarte, no dia em que cumpriria um século de vida. Uma exposição destacava alguns aspectos centrais da vida e da actividade revolucionária do homenageado e não poucos a estudaram atentamente.
Coube a José Casanova, director do Avante! e membro da Comissão Política, dizer algumas palavras. E escolheu iniciar a sua intervenção citando Álvaro Cunhal: «Francisco Miguel viveu com o Partido e morreu com o Partido.» Em sua opinião, nestas 11 palavras «está contida uma vida heróica de revolucionário; a vida de um homem possuidor de uma coragem sem limites; a vida de um homem que fez do ideal comunista uma forma de relacionamento humano e um poderoso instrumento de luta; a vida de um homem que fez da sua adesão ao Partido uma opção de vida».
Realçando que falar da vida deste destacado militante comunista lhe tomaria muito mais tempo do que a sessão permitia, o director do Avante! não deixou de salientar a sua «fraterna e solidária postura» e a sua «sensibilidade humana e artística», revelada pelos seus poemas «feitos de uma imensa ternura e de um imenso amor à vida e às pessoas».
Francisco Miguel, lembrou José Casanova, cumpriu 21 anos e 3 meses de prisão, sendo aquele que mais tempo passou nos cárceres fascistas. E também quem mais vezes dele fugiu. Preso cinco vezes, só numa delas não escapou. Numa das prisões, submetido a violentas torturas, chegou a pesar 40 quilos. Para o director do Avante!, o exemplo de Francisco Miguel «aí está, incontestável em todos os aspectos, a mostrar o que foi o fascismo e a dar a verdadeira cor – sombria, negra, tenebrosa, criminosa – ao regime que durante quarenta e oito anos oprimiu e reprimiu Portugal e os portugueses».
Tudo isto num momento em que está em curso uma «poderosa operação de branqueamento do fascismo, em que alguns concluem que o fascismo não existiu; que Salazar não era um ditador fascista, quando muito seria um “pai severo” que, de vez em quando, dava uns “açoites nalguns filhos mais rebeldes”; que “a PIDE prendeu pouco e matou pouco”».
Esta ofensiva, prosseguiu o membro da Comissão Política, é «parte integrante de uma outra, igualmente perigosa e presente cada vez mais na nossa vida de todos os dias: a ofensiva contra a democracia de Abril que os governos de política de direita têm vindo a levar à prática, ao longo dos últimos 31 anos».
A terminar, José Casanova salientou que Francisco Miguel «faz parte de uma geração que teve um papel fulcral na construção deste nosso PCP, com a sua identidade, os seus princípios, as suas normas de funcionamento específicas». Mesmo nos mais de 21 anos que passou na prisão, «a sua resistência heróica às torturas da PIDE era, também ela, um acto de construção do Partido».
E, pegando nas palavras do próprio Francisco Miguel perante o tribunal fascista, em 1948, José Casanova destacou: «Como comunista que sempre tem posto acima de tudo os interesses do Partido, lembro a todos os camaradas que, seja, quais forem as circunstâncias em que se encontrem, não devem esquecer nunca que é um dever contribuir para o fortalecimento do Partido defendendo a sua organização e o seu prestígio». Estas palavras são, para José Casanova, de uma «actualidade gritante. E lembra, hoje, a todos os militantes do Partido, que «o reforço do Partido é uma questão de todos os dias – e que cada um de nós tem um contributo precioso a dar para tornar o Partido cada vez mais forte, cada vez mais influente, cada vez mais prestigiado junto da sociedade portuguesa».
No mesmo dia, a Câmara Municipal de Beja atribuiu o seu nome a uma rua central da cidade.

Pires Jorge evocado em Alcântara

No dia 28 de Novembro, foi Joaquim Pires Jorge a ser homenageado, no salão da Junta de Freguesia de Alcântara. Ao longo do espaço, uma exposição relevava alguns dos mais salientes aspectos do seu percurso de revolucionário. Expostos em vitrinas estavam objectos, fotografias, documentos e exemplares de antigos jornais clandestinos que, de uma ou outra forma, se encontravam ligados à vida e à actividade política de Joaquim Pires Jorge. A participar na homenagem estiveram camaradas, amigos e familiares.
Nas palavras de José Casanova, da Comissão Política, Pires Jorge era «um amigo de quem apetecia ser amigo, um camarada de quem apetecia ser camarada». O director do Avante!, que estava acompanhado na mesa por António Dias Lourenço, Joaquim Gomes e Jaime Serra, acrescentou que ao longo da sua vida, Joaquim Pires Jorge atravessou períodos bem difíceis devidos à dureza da luta e à crueldade do inimigo. E sempre foi capaz de mostrar «pela prática da sua vida, pela força do seu exemplo, que ser-se revolucionário e comunista é inseparável da generosidade e do humanismo que caracterizam os nossos ideais».
E falou da sua «indomável coragem de sempre» (nas palavras de António Dias Lourenço) quer a enfrentar, de olhos vendados, os esbirros que afirmavam que o iam fuzilar, quer fosse a fugir da polícia por entre os telhados da cidade de Lisboa ou a resistir à tortura.
José Casanova destacou três momentos fulcrais da vida e da história do Partido a que Joaquim Pires Jorge está indelevelmente ligado: a reorganização de 1940/41, o III e o IV congressos do Partido. O primeiro, destacou o dirigente do PCP, ficará como um «marco decisivo no processo de construção do Partido». Pires Jorge foi um dos protagonistas, integrando um núcleo de quadros, entre os quais se encontravam Álvaro Cunhal, Militão Ribeiro, Sérgio Vilarigues, José Gregório, Pedro Soares, Manuel Guedes e Júlio Fogaça.
Sobre o III Congresso do Partido, José Casanova deu a palavra ao próprio Pires Jorge que afirmou, numa ocasião, ter sido o «primeiro passo, do ponto de vista ideológico e político, para a ligação e crescimento do Partido após a reorganização». Nesse congresso, foi eleito para o Comité Central (o qual integraria até ao fim da sua vida) e ficaria, a partir daí, responsável pela Zona Norte. Era uma zona extensa, lembrou o director do Avante!, que ia de Coimbra a Trás-os-Montes e «obrigava a longas e penosas viagens, muitas delas de bicicleta».
«Sobre o IV Congresso, registe-se a síntese que dele faz Pires Jorge, na sua maneira muito característica de falar: foi “uma coisa em grande”. É a partir daí que passa a acompanhar a organização do Partido a Sul do Tejo», lembrou.
José Casanova realçou a importância deste congresso, que apontou o levantamento nacional contra a ditadura como caminho para o derrubamento do fascismo. Foi também no IV Congresso que se definiram orientações em matéria de estruturação, orgânica, funcionamento e identidade do Partido. Aos «quatro elementos clássicos» do centralismo democrático, foram acrescentados outros, decorrentes da experiência e lições específicas do PCP, avançando-se assim para a «construção inovadora e criativa do “partido leninista definido com a experiência própria”, segundo a rigorosa designação do camarada Álvaro Cunhal».
A terminar, José Casanova convidou os presentes a homenagear Joaquim Pires Jorge da forma que «ele esperaria de nós» – «dando a garantia de continuarmos, até à vitória final, a luta à qual ele dedicou toda a sua vida de revolucionário: a luta pela justiça social, pela liberdade, pela solidariedade, pela fraternidade, pela democracia, pelo socialismo, pelo comunismo.»

No momento em que se assinala mais um ano sobre o assassinato pela PIDE de José Dias Coelho, o Avante! recupera um poema de Mário Castrim, sobre os últimos instantes deste herói do Partido.

Viagem através de uma fatia de bolo-rei

Corria o ano de 1961.
Estávamos à porta do Natal.

Eram quase duas horas da manhã
e eu perguntei-lhe
se queria comer alguma coisa.
Disse que sim. Mas que
estava já com muita pressa.

Enquanto vestia a gabardina, trouxe-lhe
uma sanduíche de fiambre
um copo de vinho
uma fatia de bolo-rei.
Estava de pé
comia
como se fosse a primeira vez
desde a infância.

– Há quantos anos
deixa cá ver
há quantos anos é que eu não comia
bolo-rei?
Este é bom, sabe a erva-doce
E a ovos.

(Caíam-lhe migalhas
aparava-as com a outra mão
em concha)

– Comes outra fatia, camarada?
Estou atrasado já.
Mas se me a embrulhasses…

Através da janela
do quarto às escuras
fico a vê-lo a atravessar a Rua da Creche
seguir pela Rua dos Lusíadas.
Nenhum de nós sabia
que estava já erguida a pirâmide do silêncio
à espera dele
num breve prazo.

Quando talvez o gosto do bolo-rei
mais forte do que nunca
tivesse ainda na boca.

(«Viagens» - edição da célula do PCP da Renascença Gráfica/Diário de Lisboa, para a Festa do Avante/77)


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