África do Sul
ANC em Conferência Nacional

Mais de quatro mil delegados do Congresso Nacional Africano (ANC, na sigla inglesa) reuniram, desde domingo, em Conferência Nacional realizada na cidade de Polokwane, no Norte da África do Sul.
A sessão de abertura dos trabalhos que hoje devem encerrar ficou marcada pelas divisões internas no seio do partido que nos últimos 13 anos governa a África do Sul. Em causa está a disputa da liderança entre o actual presidente e chefe do executivo sul-africano, Thabo Mbeki, e um dos seus vice-presidentes, Jacob Zuma, que recolheu a maioria das nomeações para o cargo antes do início da 52.ª assembleia magna, vencendo em cinco das nove organizações provinciais, e recolhendo fortes apoios entre os representantes dos sectores sindical e das mulheres.
O diferendo entre as facções começou logo no debate sobre a metodologia da votação, que os apoiantes de Mbeki pretendiam que fosse electrónica, e os correlegionários de Zuma defendiam que devia ser manual suspeitando das intenções dos adversários.
O entendimento entre as partes só foi possível depois da aceitação mútua da manutenção dos dois sistemas de contagem, embora com prevalência para o apuramento «tradicional».
A troca de argumentos e os apupos continuaram durante o discurso proferido por Mbeki, acusado pelos apoiantes de Zuma de ter esquecido os milhões de miseráveis que subsistem no país, de ser responsável pelo aumento do fosso entre ricos e pobres no território, e de permitir a ascensão de dirigentes corruptos que acumularam fortunas consideráveis em pouco tempo.
Em resposta, Mbeki pediu aos delegados que elegessem uma liderança «ética» capaz de preservar a «força moral do movimento», caso contrário, disse ainda, vencem tendências «negativas e inaceitáveis que emergiram no interior do ANC e ameaçam mesmo a sobrevivência do partido».

Informação e contra-informação

Jacob Zuma é descrito pelas agências noticiosas internacionais como uma «figura controversa». Tal como Mbeki, Zuma foi um dos resistentes ao Apartheid no exílio, mas enquanto o actual presidente aparece destacado pelo seu percurso académico e pela formação superior adquirida, a Jacob Zuma é atribuído papel fundamental na manutenção do braço armado do ANC e no fortalecimento do movimento sindical na África do Sul.
Recentemente, Zuma foi indiciado por abuso sexual e corrupção, mas se em relação ao primeiro caso os alegados factos pouco mais revelaram que difamação, no segundo, respeitante a suspeitas de recebimento de dinheiro num negócio de compra de armas, a história ganha outras proporções envolvendo um relatório não assinado - e posteriormente não reconhecido pelos serviços secretos - que chegou via fax às sedes dos sindicatos e aos órgãos de comunicação social; e manipulação e falta de isenção da procuradoria-geral sul-africana no tratamento das acusações lançadas contra Zuma.
Quer a central sindical da África do Sul, COSATU, quer o Partido Comunista Sul Africano, exigem o cabal apuramento das responsabilidades em todo o processo, custe a quem custar, mas, com igual determinação, ambas as organizações mantêm o apoio a Jacob Zuma, considerando que se pode estar perante uma cabala urdida há cerca de um ano – quando Mbeki voltou atrás com a palavra dada e decidiu candidatar-se a um terceiro mandato no ANC, mesmo sabendo que a Constituição o impede de se recandidatar à presidência da África do Sul - com o objectivo de impedir a eleição de Zuma para o cargo de líder máximo do ANC e, seguindo a prática anterior daquela formação política, a sua indicação como candidato às próximas presidenciais dum país mergulhado em fortes antagonismos de classe.


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