• Anabela Fino

Pãotanol
O termo biocombustível faz cada vez mais parte dos discursos oficiais, sempre com uma conotação positiva à defesa do ambiente. Do que se fala pouco, ou mesmo nada, é das implicações da corrida aos cereais (trigo, milho, soja, entre outros) para a produção de combustível.
Considerando – de acordo com as informações disponíveis sobre a matéria – que para encher com 50 litros de etanol um depósito de um veículo dito «ecológico» são necessários cerca de 120kg de trigo ou 560 kg de beterraba, e que o consumo de tais carros é cerca de 40 por cento maior do que os alimentados a gasolina, não é difícil concluir que alguma coisa está mal contada nesta história de súbito amor pela ecologia em franca expansão nos principais centros de poder a nível mundial.
A primeira questão que importa colocar é qual o sentido de pôr em causa a produção agrícola que constitui a base da alimentação humana para alimentar uma indústria automóvel que persiste em colocar no mercado carros de elevado consumo.
Dito de outro modo, que raio de sociedade é esta em que a alternativa é «pão ou etanol» quando milhões e milhões de seres humanos não têm o que comer e muitos outros milhões só têm para comer – quando têm – aqueles mesmos produtos agrícolas?
Mas a questão não se fica por aqui. Enquanto muitos países, como é o caso de Portugal, são incentivados a abandonar a agricultura, outros países, como os EUA, despendem cada vez mais verbas em subsídios agrícolas, o que faz com que os seus produtos cheguem ao mercado a preços de tal modo competitivos que arrasam qualquer concorrência.
A alegada descoberta de que os alimentos são bons combustíveis coloca na ordem do dia mais do que o conflito entre energia e alimentação. Na verdade, o que está em causa é como sempre o poder dos países ricos contra a necessidade dos países pobres. Os primeiros podem dar-se ao luxo de produzir, vender e consumir uma energia «verde» – embora esteja ainda por demonstrar quais os custos reais, em termos de ambiente, da transformação de áreas cada vez mais vastas em explorações intensivas de monocultura –, enquanto aos segundos resta ficar mais pobre e ainda com menos capacidade para alimentar os seus povos.
Os especialistas já baptizaram o fenómeno criado pela corrida ao etanol: chamam-lhe «agroflação», que é como quem diz inflação agrícola. Os preços dispararam com a procura, o que não preocupa nem os grandes produtores e distribuidores nem os governos que têm ao seu serviço. Veja-se o caso da Comissão Europeia, que encara já penalizar com taxas adicionais os «veículos poluidores» para privilegiar os «veículos verdes», mas não manifesta a menor sensibilidade para com o drama das vítimas da agroflação que estão na iminência de ficar sem «combustível» para as suas precárias vidas.
Não faltará quem diga, como terá feito Maria Antonieta nos agitados tempos da Revolução Francesa, que se os pobres não têm pão que comam brioches (ou pãotanol), mas o caso está longe de se prestar a ditos de duvidoso humor. Aliás, como sucedeu na época à referida senhora que, se bem se lembram, acabou por perder – literalmente – a cabeça.


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