Editorial

«A ser verdade o que todos os eles nos têm dito todos os natais, Portugal seria um paraíso»

TODOS OS ANOS NO NATAL

A pobreza e o desemprego são temas recorrentes nos discursos dos governantes nesta época do ano. E se fosse verdade o que todos eles nos têm dito de há trinta e um anos a esta parte, já não haveria pobreza no nosso País, o desemprego não passaria de uma lembrança do passado e viveríamos no reino da bem-aventurança.
Sobre a recente mensagem natalícia de José Sócrates, assumamos desde já a inevitabilidade de repetir o que, há um ano, aqui ficou escrito. Pela simples razão de que aquilo que José Sócrates nos veio dizer na noite de 25 é, mais coisa menos coisa, o que nos disse há um ano. Pior do que isso, insista-se: é, mais coisa menos coisa, o que todos os seus antecessores nos têm vindo a dizer desde 1976, a saber: este foi um ano de recuperação e de resultados positivos para o nosso País; vencemos a crise; tudo melhorou; há ainda um longo caminho a percorrer mas, com mais alguns sacrifícios de todos os portugueses, tudo melhorará ainda mais no próximo ano.
A aparente diferença entre cada uma das mensagens ao longo dos anos, reside apenas na cor do papel e no feitio dos laços com que cada um embala e enfeita a sua prosa natalícia – e, este ano, o primeiro-ministro entrou em nossas casas representando um mal ensaiado conjunto de ridículos jeitos, trejeitos, olhares e manejos de mãos que já nenhum Pai Natal usa...
Em suma: a ser verdade o que todos eles nos têm dito todos os natais, Portugal seria um país com todos os grandes, médios e pequenos problemas resolvidos e caminhando em passo acelerado para uma espécie de paraíso terreal.
Ora, Portugal é o que sabemos. E no que diz respeito aos dois temas recorrentes: a pobreza alastra e o desemprego aumenta.

Para todos os primeiros-ministros, o desemprego tem sido, sempre, o problema que mais os preocupa e com o qual todos prometeram acabar. Ouçamo-los: «Gostava de, num golpe de mágica, criar todos os empregos que faltam», dizia o então primeiro-ministro Santana Lopes – o «golpe de mágica» não chegou e o desemprego aumentou.
Recorde-se, no entanto, que Santana estava apenas a dizer à sua maneira o que todos os seus antecessores haviam dito à maneira deles.
Durão Barroso, no seu último discurso de Natal, falava do desemprego como «o drama que pessoalmente mais me preocupa» - e prometia ir acabar com ele, para o que apresentava a original receita de «criar novos postos de trabalho».
Depois, trocou o cargo de primeiro-ministro de Portugal pelo de mordomo dos donos da Europa do grande capital, foi fazer o nosso Inferno noutro lado e o desemprego continuou a aumentar.
A receita de Barroso fora, antes, usada por António Guterres que a apresentou em primeira-mão num fórum europeu realizado em Florença e, posteriormente, cá em casa, na tradicional mensagem natalícia. Na altura, houve até quem falasse em «fórmula mágica para acabar com o desemprego». A «fórmula mágica» resumia-se a uma dúzia de palavras que Guterres, sério e solene, repetia por todo o lado: «a única forma de acabar com o desemprego é criar novos postos de trabalho».
Guterres cumpriu: arranjou uns largos milhares de jobs para uns largos milhares de boys – e o desemprego aumentou.
Antes de Guterres, também o então primeiro-ministro Cavaco Silva havia prometido acabar com o desemprego recorrendo à consabida receita: «criar novos postos de trabalho». Neste caso a promessa era de «100 mil novos postos de trabalho». Cumpriu - só que no sentido inverso: quatro anos depois da promessa feita, o número de desempregados tinha aumentado, precisamente, em 100 mil.

José Sócrates é, naturalmente, a memória mais recente, com a sua promessa-caça-votos de criar 150 mil novos postos de trabalho.
Anteontem, Sócrates tentou demonstrar o indemonstrável: os êxitos do seu Governo no combate ao desemprego. Sempre com os olhos fixos no tele-ponto, debitou números e números e números – tantos que, às tantas, se sentiu obrigado a recorrer ao velho refrão: «o desemprego é o problema social que mais me preocupa».
E derivou para o provinciano e caricato blá-blá-blá do prestígio internacional, da presidência portuguesa, do Tratado que se chama de Lisboa…, matéria de que ufana mas sobre a qual apenas teria razões para, enquanto português, corar de vergonha – ele e o poeta Alegre por ele citado.

Dentro de uma semana chegará o ano novo e com ele chegarão os aumentos dos bens essenciais. Aumentos que virão tornar mais difícil ainda a vida da imensa maioria dos portugueses.
Depois virão outras medidas da mesma família, sempre em frontal violação da Lei Fundamental do País: ataques aos direitos dos trabalhadores; acentuação da exploração e das injustiças sociais; degradação da Saúde e do Ensino; envolvimento de Portugal em guerras ao serviço dos interesses do imperialismo norte-americano e europeu; venda a retalho da soberania e da independência nacional; ataque sistemático ao conteúdo democrático do regime, com permanente desrespeito pelos direitos, liberdade e garantias dos cidadãos.
Do outro lado desta realidade - no país de que Sócrates falou na sua mensagem - estão os chefes dos grandes grupos económicos e financeiros (mais os seus staffs próximos, aí incluídos os governantes) vivendo cada vez mais à grande e à europeia.
Repita-se, então, o óbvio: a única resposta à mensagem de Natal de Sócrates é a intensificação da luta dos trabalhadores e das populações, visando derrotar esta política e substituí-la por uma política ao serviço dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País.


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